A preservação da memória da resistência negra no Brasil atinge um marco institucional inédito com o tombamento da Comunidade Remanescente de Quilombo Eva Maria de Jesus, em Campo Grande. Popularmente conhecido como Tia Eva, o território será o primeiro do país a receber este reconhecimento específico do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A oficialização estreia o “Livro do Tombo de Documentos e Sítios Detentores de Reminiscências Históricas de Antigos Quilombos”, criado para dar visibilidade e proteção jurídica a espaços que guardam a ancestralidade afro-brasileira.
A declaração, agendada para esta terça-feira (10) durante a reunião do Conselho Consultivo do Iphan, é vista pelo órgão como um gesto fundamental de reparação histórica. Segundo o presidente do instituto, Leandro Grass, o processo foi construído com a participação direta dos moradores, respeitando o princípio da autodeterminação. O tombamento não apenas protege o patrimônio material e imaterial da comunidade, mas também valida a luta secular contra a escravização e a discriminação, elevando o quilombo ao status de patrimônio cultural da União.
O Legado de Eva Maria de Jesus
A história do quilombo remonta à trajetória de sua fundadora, a benzedeira e ex-escravizada Eva Maria de Jesus (1848–1929). Ao chegar ao antigo Mato Grosso após sua alforria, Tia Eva estabeleceu uma comunidade rural que, com o crescimento da capital sul-mato-grossense, acabou integrada ao contexto urbano de Campo Grande. Para os descendentes, como o tataraneto Nilton dos Santos Silva, o tombamento representa a valorização de uma herança que moldou gerações e a esperança de que o local se torne um polo de visitação e educação histórica.
Um Novo Paradigma na Preservação Patrimonial
O procedimento que culminou nesta decisão foi orientado por uma portaria de 2023, que regulamentou o tombamento constitucional de territórios quilombolas. A norma estabelece que o reconhecimento deve ser feito sob uma perspectiva antirracista, destacando o “quilombismo” como um fenômeno de busca ativa por liberdade. A arquiteta e moradora da comunidade, Rayssa Almeida Silva, reforça que a medida é um compromisso com o futuro, servindo para despertar o interesse dos jovens pela história de resiliência que define o território onde vivem.










































