A imprensa internacional repercutiu o rebaixamento da Acadêmicos de Niterói depois do desfile que homenageou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e não foi exatamente por causa da harmonia das alas ou do brilho das fantasias. Na apuração de quarta-feira (18), a escola, que fazia sua estreia no Grupo Especial do carnaval do Rio de Janeiro, ficou em último lugar e acabou rebaixada, com um boletim pouco carnavalesco, apenas duas notas 10 e problemas de dispersão que não passaram despercebidos pelos jurados.
No papel, o roteiro foi o tradicional do carnaval, notas, quesitos, soma final e a temida lanterna. Fora da planilha, porém, o enredo ganhou um tempero extra, daqueles que fazem render mais discussão do que confete. A BBC noticiou o resultado e resumiu o episódio dizendo que o desfile teve “um elemento adicional de entretenimento neste ano: controvérsia política”. Traduzindo, além de samba e coreografia, havia também política desfilando pela avenida.

A emissora britânica destacou que a oposição acusou a escola de promover uma espécie de campanha antecipada para Lula, que tenta um quarto mandato, e lembrou que ações judiciais para barrar o desfile foram rejeitadas. Também registrou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva acompanhou a apresentação no Sambódromo, um detalhe simbólico que, ao que tudo indica, não pesou na hora de distribuir as notas.
A France 24 seguiu a mesma linha e observou que a homenagem a Lula irritou setores da direita antes mesmo de a escola entrar na avenida, com críticas de que se trataria de uma “campanha disfarçada” em favor do presidente. A reportagem lembrou que os jurados avaliam critérios técnicos e estéticos, mas reconheceu que o contexto político ampliou a repercussão do resultado. Em tom quase irônico, destacou que, enquanto o debate fervia fora da Sapucaí, os avaliadores, responsáveis por julgar do enredo às fantasias, aos carros alegóricos e à coreografia, “não se impressionaram com a estreia da Acadêmicos” entre as escolas do Grupo Especial.
A emissora também chamou atenção para o fato de Luiz Inácio Lula da Silva ter assistido ao desfile no Sambódromo, descrevendo o episódio como o primeiro tributo a um chefe de Estado em exercício na história recente do carnaval carioca. Um registro histórico, ainda que a planilha de notas tenha sido bem menos generosa do que o simbolismo do momento.
Já o jornal argentino La Nación republicou uma matéria de agência internacional e deu destaque às críticas políticas e religiosas geradas pelo desfile. Segundo o veículo, a oposição classificou a apresentação como “campanha encoberta” em favor do presidente, de 80 anos, no poder desde 2023 e pré-candidato à reeleição. O jornal também ressaltou que a Acadêmicos de Niterói fez críticas e sátiras ao ex-presidente Jair Bolsonaro, descrito em um dos trechos como um “palhaço atrás das grades”, além de apresentar o segmento “neoconservadores en conserva”, com intérpretes vestidos como uma família tradicional dentro de uma lata.
De acordo com o La Nación, esse trecho provocou forte reação da direita, que acusou o desfile de atacar valores cristãos. A polêmica se espalhou pelas redes sociais, com direito a imagens feitas por inteligência artificial e declarações de políticos como o senador Flávio Bolsonaro e o deputado Nikolas Ferreira, que anunciaram medidas judiciais. O carnaval, que já costuma render debates acalorados sobre notas e resultados, desta vez conseguiu unir samba, política e tribunal no mesmo enredo.
No fim das contas, a Acadêmicos de Niterói deixa o Grupo Especial com um feito curioso no currículo. Estreou na elite, homenageou Luiz Inácio Lula da Silva, apareceu nos noticiários do mundo inteiro e aprendeu, da forma mais carnavalesca possível, que a Sapucaí pode ser generosa em holofotes, mas implacável na apuração. Se a ideia era ser notada, a missão foi cumprida. Só faltou combinar com os jurados.
Com Informações: G1


































