Durante um evento público realizado na tarde deste sábado (07), em Porto Velho (RO), a indigenista e ativista Neide Cardozo, conhecida como Neidinha Suruí, fez um pronunciamento contundente ao comentar o feminicídio da professora Juliana Matos, de 41 anos. A docente foi assassinada na noite de sexta-feira (06), dentro de uma sala de aula da Faculdade Fimca, onde lecionava no curso de Direito. A declaração ocorreu em meio a manifestações de luto e indignação diante da violência contra mulheres na Região Norte.
Reconhecida por sua atuação histórica na defesa dos povos originários e da Amazônia rondoniense, Neidinha Suruí falou a partir da vivência de quem acompanha de perto a realidade de Rondônia, considerado um dos territórios mais perigosos do país para as mulheres. “Gente, precisamos trazer os homens para os nossos lados para que parem de nos matar”, afirmou.
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A afirmação sintetiza o sentimento de mulheres, mães e lideranças sociais que denunciam a escalada da violência de gênero e cobram ações efetivas do poder público para prevenir crimes como o que vitimou a professora Juliana.
Para Neidinha Suruí, não é mais possível acompanhar o noticiário que aponta o aumento dos casos de feminicídio em Rondônia enquanto autoridades, especialmente parlamentares responsáveis por legislar, permanecem inertes diante da gravidade do problema. Segundo ela, a omissão política contribui para a continuidade da violência. “Ontem foi Juliana. Hoje foi mais uma mulher morta. Está na hora de dizer: ‘não é não’. Estamos falando da morte de mulheres, mulheres trans, mulheres cis. Todas as mulheres. Passou da hora de darmos um basta”, declarou.
Ainda conforme a ativista, o enfrentamento à violência de gênero passa, necessariamente, pela cobrança direta aos poderes constituídos. “Isso exige que a Assembleia Legislativa de Rondônia e o Congresso Nacional criem leis mais punitivas, que de fato nos protejam”, completou. Ao encerrar a fala, Neidinha foi acompanhada pelo público ao entoar: “Não é não. Juliana, presente”.
Em 2025, uma reportagem especial assinada pelos jornalistas Emerson Barbosa e Fabiano Coutinho expôs de forma contundente o cenário da violência contra mulheres em Rondônia. De maneira didática, o levantamento mapeou os crimes de feminicídio no estado, oficialmente apontado como a terceira maior unidade federativa da Região Norte, mas que, na prática, ocupa o primeiro lugar nos índices de violência que envolvem feminicídio, violência doméstica e familiar e contra crianças e adolescentes.
Os dados revelam que Rondônia lidera estatísticas relacionadas à violência contra mulheres, crianças e adolescentes, superando estados como Amazonas e Rio de Janeiro frequentemente citados como epicentros da violência no país. As informações constam no Anuário Brasileiro de Segurança Pública e em levantamentos do DataSenado.
Em 2023, Rondônia foi apontado como o estado que mais matou mulheres em toda a República Federativa do Brasil, reforçando a gravidade do cenário denunciado por especialistas, ativistas e pela própria imprensa.
Para Neide Cardozo, a morte da professora Juliana escancara não apenas a violência contra mulheres, mas também a urgência de uma mudança de postura por parte dos agentes públicos. Segundo a indigenista, é indispensável que políticos locais se movimentem para atender às reais demandas da população rondoniense, com a formulação de leis e projetos que alcancem o povo, e não interesses particulares ou prioritários de grupos específicos.
Com a chegada do ano eleitoral, Neide ressalta que se impõe à sociedade a responsabilidade de promover a renovação política em Rondônia. “É tempo de renovar a Assembleia Legislativa e o Palácio Pacaás Novos”, defende. Para ela, o estado encerra um ciclo de oito anos marcados por perdas, deixando um saldo de débito social com a população.










































