Como é o som produzido na barriga de um libanês, quando está com fome? Ali estava eu para saborear mais uma deliciosa esfirra feita por quem entende pois, afinal, ela originou-se no Oriente Médio há milênios. O “Sabor Libanês”, no centro de Porto Velho, funciona há décadas. Gerações que passaram e outras que ainda vivem na capital experimentam a mesma dificuldade minha: é impossível comer uma só!
Libanês de nascimento e brasileiro de coração, seu Mohamad vive exatamente como seu nome significa: alguém que sabe louvar, que aprendeu a agradecer. Comendo a primeira esfirra, penso: será que tenho reclamado mais que agradecido? Tenho sido influenciado pelas redes sociais (principalmente em ano eleitoral) ou sei quem sou e o que quero para mim e para a minha família, louvando a Deus por ser brasileiro?
O proprietário desconhece o que é mau atendimento e, por isso, gosto de dar dois dedos de prosa com ele. Pergunto: se o senhor não tivesse imigrado para cá, como estaria hoje no Líbano? Ele responde: “estaria assim, trabalhando, no comércio, cuidando de minha família.” Penso outra vez: enquanto tanta gente reclama do lugar e das circunstâncias, do governo e das dificuldades, quem decide trabalhar honestamente alcança o êxito de viver feliz em qualquer parte. E viver bem é diferente de ser rico.
Conversa vai, conversa vem, e ele diz que antes das 5 da manhã, massas, recheios e molhos são preparados diariamente. A rotina – odiada e reclamada por muitos – garante a receita da boa esfirra e também da vida. É claro que, vez por outra, foge-se da rotina. Mas a repetição também leva ao aperfeiçoamento: “tenho um cliente que há mais de 30 anos come esfirra aqui e nunca comeu uma que não gostou”, disse o libanês com um sorriso de quem sabe o que faz e faz bem-feito.
Já na segunda esfirra, coloco a famosa pimentinha com mel e observo a gentileza dos sobrinhos do proprietário, completando a arte de se comer bem. Outro detalhe me surpreende: ali entra gente com roupa simples e autoridades engravatadas. Com dinheirinho contado e outros com gordas contas bancárias. Não há intolerância de religião, cor da pele, local de nascimento: é uma festa democrática de respeito mútuo. E, antes de sair, seu Mohamad sorri e responde à primeira pergunta: “a barriga com fome de um libanês não reclama em árabe! O barulho é universal!” Pago minha conta e saio com a certeza de que ainda vou aprender outras lições de uma boa esfirra.










































