Por mais de três décadas o relógio esteve marcado para despertar às 5h30, quando o som insistente do despertador invadia o quarto escuro. VAZ abria os olhos lentamente, sentindo o peso da farda acoplada por décadas ao corpo. Era um ritual repetido há mais de trinta anos. O cheiro de café fresco preenchia a cozinha, e o uniforme azul-marinho, bem passado e, no início, engomado, aguardava na cadeira ao lado da mesa. Seus pensamentos eram levados ao Altíssimo, pedindo proteção para mais um dia de trabalho. A farda parecia ter vida própria, carregando histórias invisíveis estampadas nos brevês que a vida lhe trouxe aos olhos desatentos.
No início, após sair da academia ainda jovem, a adrenalina era uma velha amiga. A sirene do giroflex ecoando pelas ruas, a tensão antes de abordar um suspeito, o orgulho de proteger a comunidade. A cidade crescia, os desafios mudavam, mas para o Subtenente PM VAZ o compromisso permanecia o mesmo. Era mais que uma profissão, era um juramento assumido em tempo de academia e que deveria ser cumprido. Encarar o medo e proteger quem sequer sabia seu nome virou rotina para o nosso herói de farda.
Com o passar do tempo, os brevês colados na farda foram ficando pesados e os dias tornaram-se previsíveis; o perigo constante virou rotina e a farda começou a pesar de outra forma. Alguns amigos da academia e até mesmo da rotina de serviço tombaram pelo caminho, marcados pela dor invisível que acompanha quem convive com a violência. Subtenente VAZ, resiliente, seguiu em frente. Ensinou recrutas, foi inspiração e exemplo para muitos colegas, fez patrulhas intermináveis e colheu agradecimentos raros, mas sinceros.
Agora, em seu último dia de serviço, a despedida foi admirável. O ritual matinal foi repetido pela última vez, só que agora de forma substancial. Os amigos de corporação fizeram questão de entregar o nosso Subtenente VAZ aos seus pais, na porta de sua casa. Com os cabelos já esbranquiçados, ouviram de seu comandante um OBRIGADO! pela existência desse policial exemplar que cumpriu o seu tempo de caserna. O Estado de Rondônia e o Comando-Geral agradecem pelos anos de serviço prestados em prol da sociedade. A farda, apertada ao corpo agora transformado com o tempo, parecia um abraço de despedida. Os colegas o aguardavam na saída do batalhão para o último adeus, aplausos ecoando na manhã. Subtenente VAZ sorriu, mas seus olhos denunciaram um misto de orgulho e vazio. Quem era ele sem a farda? O tempo se encarrega de dizer.
Em casa, após a cerimônia, o silêncio pesava mais que nunca. O uniforme dobrado repousava sobre a cama. A vida sem escalas, plantões e sirenes parecia um horizonte distante. Subtenente VAZ percebeu que se aposentava o policial, mas o compromisso, o instinto e a honra permaneceriam vivos para sempre em sua memória — a trajetória que decidiu seguir.
A farda agora se tornaria memória, mas o cumprimento do dever era eterno. Afinal, um guerreiro nunca deixa de proteger. Apenas aprende a vigiar de outras formas agora, cuidando dos seus, vivendo o que tantas vezes sacrificou.
O sol iluminava a sala quando Subtenente VAZ finalmente sorriu. A farda se calava, mas seu espírito permanecia em guarda.
¹ Lourismar Barroso serviu à Polícia Militar em 1994 junto com o Subtenente VAZ e demais companheiros. Hoje é Dr. em Educação.