Autora: Renata Camurça
Sinopse:
“Ocorre-me que um dia estava sentado na estação ferroviária de Vila Murtinho, isso um pouco antes da última e inesquecível viagem que a Maria Fumaça faria, alguns meses depois. Era entre três e quatro horas da tarde quando senti os já conhecidos estremecimentos nas paredes e nos trilhos da estação, sinalizando que o trem já se aproximava. Tais sinais deixavam em ebulição os transeuntes, viajantes, vendedores, malandros e as poucas prostitutas do lugar.”
Hoje minha resenha é do livro “TREM DAS ALMAS, do escritor Simon Oliveira dos Santos.
A escrita de Simon é nada menos que espetacular. Ao longo de 158 páginas e 17 contos, o escritor Rondoniense conseguiu registrar a história desbravadora dos pioneiros da região de Guajará-Mirim, Nova Mamoré, Vila Murtinho, Vila do Iata e dos muitos imigrantes nordestinos que ali chegaram em busca de riqueza.
Todos os contos apresentam um ponto em comum, os trilhos da Estrada de Ferro Madeira Mamoré (EFMM), os personagens circulavam pela ferrovia, pelos seringais, castanhais e pelas margens do Rio Madeira.
Um fato extremamente importante é que a escrita está toda baseada na época, por tanto, somos apresentados a um rico vocabulário, gestos, costumes, dificuldades e a brabeza de um povo.
Também estão presentes na obra a violência de um tempo em que as desavenças eram resolvidas a base do olho por olho e dente por dente. Em meio a disputas por terras e poder, entre Índios, coronéis seringalista e seringueiros, muitas famílias foram marcadas por tragédias.
Em cada conto temos uma faceta da vivência daquele povo, baseada em histórias reais e lendas. Os contos são breves, a narrativa é fluida, a escrita descomplicada, fácil de ser lido e com grandeza de detalhes o escritor proporciona ao leitor uma viagem no tempo. É claro que tenho os meus contos favoritos. Para os futuros leitores de TREM DAS ALMAS, prestem atenção nos contos: “Meu coração ficou com o último apito do trem”, “A mãe que embala a ferrovia”, “Minha filha não é mercadoria”, e “As corredeiras do Madeira engoliram o meu coração”.
Ler mais da nossa história foi uma experiência incrível! Já estou animada para ter na minha estante, mais livros do Simon Oliveira dos Santos e conhecer cada vez mais da nossa cultura.
“Naquele momento, lembrei da dor daquela mulher abandonada com seus filhos que meu marido deixou no Ceará quando me convidou para fugir para a Amazônia. Meu mundo de encanto, sonhos e alegrias foi sumindo dentro de mim e lancei às minhas filhas pequenas que brincavam na biqueira da casa um olhar de desespero que elas jamais seriam capazes de entender.”
“Em suas viagens diárias, Gilberto nunca percebera que, sempre ao pé da serra, escondidos, dezenas de índios o observavam todos os dias, impressionados com a força de suas pernas, que pedalavam aquele monstrengo negro e esvoaçante.”
“Rosa jamais imaginou que o paraibano, agora seu marido, havia perfurado as vísceras de seu noivo na noite em que os arigós se envolveram em uma briga, na viagem de barco, de Manaus a Porto Velho.”
“Dilacerada e resignada embarcou no trem com destino a Guajará-Mirim. Nunca mais voltou em Vila Murtinho e nem reviu a irmã e o ex-marido. Luiza mais se casou. Trabalhou duro e conseguiu criar os filhos.”