Um dos capítulos mais importantes da história cultural e política do Brasil ganha novo fôlego com o lançamento do livro “Teatro Experimental do Negro: testemunhos e ressonâncias”, que revisita a trajetória do Teatro Experimental do Negro (TEN) e o papel central de Abdias do Nascimento na construção de um teatro comprometido com a luta antirracista.
Organizada originalmente por Abdias em 1966, a obra foi recuperada, ampliada e atualizada pela socióloga Elisa Larkin Nascimento e pelo gestor cultural Jessé Oliveira. A nova edição marca os 80 anos de fundação do TEN, criado em 1944, e chega ao público como um esforço para preservar uma história frequentemente invisibilizada.
Abdias do Nascimento, falecido em 2011, foi uma das figuras mais múltiplas da vida pública brasileira. Atuou como artista plástico, dramaturgo, poeta, escritor, ativista, professor universitário, deputado federal e senador, sempre articulando cultura, política e transformação social. No teatro, encontrou um espaço estratégico para enfrentar o racismo estrutural e ampliar o protagonismo negro.
Criado poucas décadas após a abolição da escravidão, o Teatro Experimental do Negro tinha como missão valorizar a herança afro-brasileira, formar atores negros e colocar pessoas negras no centro da criação artística. Entre 1945 e 1958, o grupo encenou mais de 20 espetáculos, nacionais e internacionais, revelando nomes que se tornariam referência, como Léa Garcia e Ruth de Souza.
A nova edição reúne textos de intelectuais e artistas como Nelson Rodrigues, Guerreiro Ramos, Florestan Fernandes e Efrain Tomás Bó, além de um ensaio fotográfico histórico de José Medeiros, com imagens em preto e branco do elenco do TEN.
Para Jessé Oliveira, o grupo representou um divisor de águas no teatro brasileiro. Segundo ele, o TEN consolidou uma companhia teatral negra profissional, onde as decisões artísticas eram tomadas por pessoas negras, ampliando o debate racial no país.
Na avaliação de Elisa Larkin Nascimento, o TEN estabeleceu uma ponte entre o teatro moderno e o contemporâneo no Brasil e confrontou diretamente o discurso da chamada “democracia racial”, defendido por parte da intelectualidade brasileira no século 20.
A publicação mantém o objetivo da obra original: criar um registro sólido para evitar o apagamento histórico do Teatro Experimental do Negro. Para Elisa, o desconhecimento sobre o TEN ainda é comum, inclusive entre estudantes de teatro, o que torna a nova edição ainda mais necessária.
O livro evidencia como as ideias de Abdias do Nascimento seguem presentes em coletivos e práticas cênicas atuais, reafirmando o teatro como instrumento de resistência, memória e transformação social.











































