Quarta-Feira, 14 de Outubro de 2015 - 12:21 (Colaboradores)

VIDA DE RATO E VIDA DE BARATA

Era muito frequente ver os excrementos de tais animais espalhados pela casa ao amanhecer. O temor pelo peste bubônica abastecia o inconsciente dos habitantes de periferias...


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Morávamos em zona de periferia. Um mercado próximo abastecia as pragas que se alimentavam de nossas migalhas. O tempo todo via os meus pais trabalharem em armadilhas domésticas para fazer com que a higiene do local jamais faltasse.

Era muito frequente ver os excrementos de tais animais espalhados pela casa ao amanhecer. O temor pelo peste bubônica abastecia o inconsciente dos habitantes de periferias... E o medo do extermínio levava ao extermínio dos animais como melhor forma de não se deixar afetar negativamente. A prioridade era a manutenção de uma vida saudável. Mesmo que isto simbolizasse matar outra espécie inteira.

Vida de Rato

Era final de semana. A família estava reunida para o tradicional almoço de domingo. A mesa estava cheia. E como de costume celebrávamos a vida em estilo de festa com o som ligado. Os discos de vinil eram preservados para ocasiões especiais como esta. Bem como a sintonia do rádio em uma banda AM ou FM indispensável para termos acesso as principais notícias e as músicas mais baladas do momento.

Era 1981, o país era consumido por uma cortina de ferro numa ditadura militar que nos orientavam a melhor forma de perseguirmos nossos objetivos de vida. O Brasil desconfiava de sua própria sorte. Não tínhamos conflito com os militares, porque humildemente sabíamos nos colocar frente a situação que nos exigia austeridade em nossas colocações.

Sempre fomos muito pobres, mas tínhamos plena consciência de nossas colocações e o papel que nos destinava como responsáveis pelo nosso próprio desenvolvimento.

Nossas famílias eram de retirantes dos lugares mais atrasados deste país. E estar morando na capital da república já era um grande feito de desenvolvimento que nos agregava muito valor à nossa vida. E este fato contribuía para que nosso senso de valor e de vitória visualizasse sobre os militares um apresso tamanho de nos terem tirados de um isolamento secular em que nossos pais viviam dentro de um padrão-conceito de vida em áreas extremamente rurais.

Agora tínhamos oportunidade de ser alguém na vida e vir a cooperar com a civilidade representando uma força de trabalho sempre disposta a dar um pouco mais de si para um progresso que nos era projetado por meio das ondas de rádio e de televisão.

Tínhamos pouco o que comer. Vivíamos entre meio a pragas como ratos, mas como ex-fazendeiros sabíamos o nosso verdadeiro lugar na escala nobre do progresso. E lutávamos de forma partilhada com os militares em todo o esforço para que a ordem e a integridade fossem mantidas dentro de nosso agrupamento.

Numa destas celebrações de domingo após a igreja, ao chegarmos em casa visualizamos fezes de animais. Pelo tamanho deduzimos que estávamos a abrigar ratos pela casa.

Então pegamos o telefone e discamos para meu tio e pedimos para que ele trouxesse a espingarda. Já tínhamos a localização exata da casa dos roedores. E era preciso ensinar ao menino da casa como se defender dos invasores caso um dia viesse a necessitar de auxílio.

O tio trouxe o chumbinho. O primo mais velho veio com as instruções de manuseio. Fomos instruídos a praticar o alvo em latinhas que se localizavam próximas aos verdadeiros alvos que eram as tocas dos ratos.

Fizemos um campeonato entre parentes, para ver quem mais acertava o alvo que era uma lata de extrato de tomate. Meu primo já estava bastante adestrado. E conseguiu facilmente acertar o alvo a maioria das vezes.

A arma tinha um desnível de angulação em sua mira, então era preciso pelo conhecimento que se tinha do instrumento de ajustar manualmente a direção para que o alvo fosse de fato alvejado.

Meu primo e meu tio deste o início me deu instruções para nunca mentalizar como sendo o alvo outro ser humano. Porque isto iria comprometer a essência do ensinamento que eles estavam querendo transmitir para mim.

O almoço finalmente acabou e a pedido do meu pai ele pediu a seu irmão que deixasse aqui a espingarda e uma porção de balas de chumbo.

Os tiros se prolongaram pela tarde inteira. Em uma semana já estava preparado. Dificilmente conseguia errar um alvo baseado nas correções de mira em que o instrumento me forçava a calibrar o sentido e orientação do projétil.

Ainda persistia o problema dos ratos. Nossos inimigos eram reais e atentavam contra nossa própria vida comendo nossos alimentos enquanto dormíamos.

Era uma questão de tempo para que nossa saúde viesse a contrair algum tipo de doença em virtude os excrementos e da urina dos ratos.

Então meu pai me deu a ordem de alvejamento das criaturas. Eu como um bom soltado já sabia a posição exata de onde os roedores e toda a sua família se encontrava.

Necessitei de um único sábado para ficar em posição de morto há 10 metros da toca com uma isca de queijo a esperar que os animais famintos viessem do esconderijo para pegar um pouco de queijo.

Até que o primeiro roedor sentindo pelo olfato o cheiro de queijo colocou sua cabeça de fora da toca.

Então eu esperei que seu corpo se projetasse todo para fora e alvejei sua barriga e ele se projetou estirado rente ao solo.

Meu pai o recolhedor oficial dos “ratuínos” recolheu a carcaça do animal e me instruiu para alvejar os próximos animais a partir de sua posição mais frontal próxima ao cérebro do animal, pois isto iria tornar a missão mais certeira.

Não bastou mais do que 6 horas para alvejar um a um toda a família de ratos. E a matança do sábado rendeu 9 mortes e o fim da ameaça que havia sido instalada por nossa negligência dentro de nossa casa.

O sentimento de mérito foi reforçado em vez do sentimento de culpa, pela presença que a ameaça de vida de algum membro de nossa família por parte da peste em que os animais traziam como símbolo de enfermidade nos condicionou a não sentir dor, pesar ou remorso por nossos atos de extermínio.

Vida de Barata

Elas eram muito numerosas. Não bastava abrir uma caixa de esgoto que uma infinidade delas na ordem das centenas entravam para dentro de nossos lares. O governo militar da época nos orientava por programas sociais o contínuo extermínio destes insetos.

Era comum comprar em postos de abastecimento de alimentos, que eram os antigos embriões dos atuais supermercados, kits de substâncias que matavam de forma eficiente roedores, baratas, aranhas e lagartixas.

Como as baratas eram numerosas era muito comum ao amanhecer algumas partes destes insetos estarem mergulhados nos restos de alimentos que sobravam de um dia para outro.

Devido sua grande quantidade, todas as noites quando assistíamos nossa TV preto e branco, tais insetos apareciam em alta velocidade a cruzar o espaço perimetral de nossa sala.

Minha mãe, logo pegava um chinelo e lançava sobre o animal e um nojo generalizado pela gosma que o inseto fixava rente ao solo fazia repugnar nossos estômagos e ativava em seguida o senso de limpeza para que os excrementos fossem liberados de nosso olhar sombrio.

Quando ao amanhecer uma comida era agraciada de forma perversa com pedaços de tais insetos todo o material era descartado e depositado no lixo.

Não tínhamos condições de termos muitas perdas de alimento pois isto poderia representar uma subnutrição com a chegada do final do período do mês.

Então optávamos quase sempre em ampliar nossa capacidade de colocar iscas de veneno por toda a casa em vez de todos os dias termos o desprazer de encontrar os insetos em nossa refeição.

Certo dia, meus pais haviam saído e eu e minha irmã ficamos em casa assistindo televisão. Era por volta das dezenove horas, o horário em que as baratas começavam a sair de seus esconderijos.

Foi neste exato instante que vimos um destes seres a voar entre o espaço em que se encontrava nosso sofá e a televisão em preto e branco.

Minha irmã apavorada e menor do que eu em dois anos de idade, exigiu que eu tomasse uma atitude e matasse o inseto. Ela estava em delírio de desespero em imaginar que o inseto pudesse se aproximar de nós dois.

Eu não queria matar por covardia aquele animal, porque sabia o trabalho que teria em tirar suas impurezas do contato com o solo e isto para uma criança de 9 anos era um nojo muito insuportável.

Ela neste instante se agarrou a mim e implorava para que eu tomasse uma atitude. A barata continuou a sobrevoar nossas cabeças por um certo tempo em meio aos gritos de minha irmã.

Eu nervoso me distraía dando uma de fortão e o machão da casa. Minha covardia de tomar uma atitude fazia com que meu senso critico dissesse a minha irmã que era para ela ignorar a barata que nada iria nos acontecer.

Neste instante um novo sobrevoo sobre nossas cabeças, até que na parede lateral rente ao sofá a barata se dispôs a nos observar. Minha irmã apavorada havia começado a chorar.

E eu para acalmá-la comecei a conversar com a barata. Apontei-lhe o dedo e disse umas poucas e boas para a danada. Ameacei o inseto de morte, disse para ele ficar em seu lugar senão sua vida seria finalizada com minha chinelada.

Em um momento o inseto parou para observar meus gestos, apontou as antenas em minha direção. E em um voo síncrono saltou em minha direção no sentido de simbolizar uma afronta à minha atenção de extermínio.

Minha irmã apavorada pulou do sofá e foi aos prantos para o quarto, enquanto eu saltitante pela sala não sabia se continha a barata sobre minha blusa ou se pegava o chinela para dar cabo a sua vida.

Em seguida peguei uma pá para recolher a sujeira, e limpei o chão para quando minha mãe chegar não exigir que eu o fizesse pela minha displicência.

No caminho para a lixeira chamei minha irmã e mostrei a imagem do cadáver para que ela pudesse ficar tranquila e voltar para a sala para me fazer companhia para assistir os desenhos na televisão.

Este fato não nos causou remorso... ficamos em um estado de felicidade por termos nos livrado da aflição que anteriormente havia tomado conta de nosso pensamento.

Logo mamãe e papai chegaram na casa, e contamos para eles o que havia acontecido. Nos dias seguintes eles providenciaram reforço químico para o extermínio dos animais remanescentes.

Max Diniz Cruzeiro

Fonte: Max Diniz Cruzeiro

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