Quarta-Feira, 30 de Agosto de 2017 - 08:25 (Internacional)

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TRUMP DEFINE NOVO ENGAJAMENTO POLÍTICO-MILITAR NO AFEGANISTÃO

Com este enfoque, o presidente Donald Trump anunciou na última segunda-feira, 21 de agosto, uma nova fase intervencionista no Afeganistão.


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“Nós não iremos construir uma nação novamente. Nós iremos matar terroristas”. Com este enfoque, o presidente Donald Trump anunciou na última segunda-feira, 21 de agosto, uma nova fase intervencionista no Afeganistão.

Ao defender sua política externa para a região, analistas políticos acreditam que Trump seguiu o conselho de seus principais assessores que entendem que a administração de Barack Obama, em 2011, permitiu o surgimento do autoproclamado Estado Islâmico (Islamic State of Iraq and Al-Sham na sigla em inglês), ao retirar uma parcela significativa das forças militares do Iraque.

Dentre as justificativas usadas por Trump, “uma retirada apressada criaria um vácuo” que grupos terroristas como o Estado Islâmico, também conhecido como Daesh, em árabe, e a Al-Qaeda preencheriam, tal como o ocorrido nos ataques de 11 de setembro de 2001.

No entanto, sem dar maiores detalhes sobre a nova empreitada militar na região em seu discurso, o Presidente, segundo a imprensa norte-americana especializada, considerou o uso de empresas privadas para executar a missão, através de uma proposta feita por Erick Prince, fundador da empresa de segurança Blackwater, com apoio do até então Estrategista-Chefe da Casa Branca, Steve Bannon.

Com a demissão de Bannon da administração, na última semana, o apoio a essa opção foi suprimido, por ora, pelas alternativas apresentadas pelo Assessor de Segurança Nacional, H.R. McMaster; o Secretário de Defesa, Jim Mattis; e pelo Chefe do Estado-Maior Conjunto, o General Joseph F. Dunford Jr; assim como por todos os generais envolvidos na Guerra ao Terror, em momentos distintos.

Como justificativa, apontaram que já existem muitos empreiteiros no Afeganistão, cerca de 26 mil, contra 10 mil homens das tropas dos EUA, com base no relatório intitulado “Department of Defense Contractor and Troop – Levels in Iraq and Afghanistan: 2007-2017”, do Serviço de Pesquisa do Congresso (Congressional Research Service, na denominação oficial, em inglês) e que, em virtude do histórico irregular dos contratados, há riscos diplomáticos para a Casa Branca, pela eventual necessidade de responder a condutas ilegais e resgates, uma vez estivessem ameaçados por ataques, ou mortes.

Ao endossar os planos do Pentágono, Trump deverá enviar 3.900 soldados, número solicitado pelo general John W. Nicholson Jr, Comandante Sênior da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO, na sigla em inglês) em Cabul. Também é provável que outros aliados enviem reforços para participar da missão da OTAN, com o objetivo de assessorar e apoiar as Forças de Defesa e Segurança do Afeganistão (ANDSF, na sigla em inglês).

Para James Stavridis, Almirante de Quatro Estrelas da Marinha dos Estado Unidos e Comandante da OTAN em Cabul, de 2009 a 2013, as opções para o Afeganistão são ruins, dado o dispêndio de aproximadamente US$ 1 trilhão desde a invasão, além da perda de 2.400 homens.

Para o General, uma abordagem mais robusta, com a volta de 150 mil soldados seria parte de um engajamento direcionado mais adequado, com base no plano proposto pela Casa Branca, no entanto, o profundo desgaste político e econômico de mais de uma década de conflito sem resultados concretos inviabiliza essa alternativa.

Desse modo, ainda com base no General Stavridis, algumas medidas complementares devem ser avaliadas, dentre as quais:

Envolver a OTAN e outros parceiros da coalizão, como Austrália, Nova Zelândia e Geórgia nos combates. Para isso, exigirá do Secretário de Defesa e de Estado pressão sobre os membros da coalizão;

Desenvolver uma aliança com a Rússia, haja vista que Moscou não aceitará um Estado com governança descentralizada aumentando a produção de ópio ao sul de suas fronteiras, apesar dos indícios de que há comercialização de armas diretamente ao Teleban;

Aprofundar as relações com a Índia, com intuito de pressionar oPaquistão a cooperar com os esforços estadunidenses na luta contra o terrorismo. A adição de Nova Deli na equação regional impõe a Islamabad o recrudescimento das tensões com o vizinho ao sul, em troca de tecnologia, treinamento e novos armamentos. Sem o apoio financeiro dos EUA, há um desequilíbrio de forças na região que favorece Nova Deli;

Formação, organização e planejamento de um corpo de forças especiais afegãs se faz necessário, pois, uma vez aumentadas de tamanho, podem lidar com a ameaça Taleban, que não dispõe de um grande e organizado efetivo em suas fileiras.

Ao tratar especificamente a questão afegã pela perspectiva militar, os esforços em reconduzir o país sem a influência insurgente do Taleban resultou no declínio do poder governamental a partir de novembro de 2016, com Cabul controlando apenas 57% do país, o que em parte explicaria a incapacidade dos EUA em estabilizar a região.

Nesse sentido, outros fatores também são observados. Para especialistas consultados, o Governo é parte integrante do recrudescimento do papel do Estado, pois sua composição privilegia as elites, em detrimento de líderes que permeiam apoio em massa. Nenhuma ideologia, partido político, ou líder carismático une os afegãos.

Conforme vem sendo disseminado, as fileiras do governo são notavelmente corruptas e violentas, com registros de abuso, extorsão e estupro, fatores que conectam com a falta de lealdade, independentemente do líder, impondo um problema estrutural.

Em complemento, os fracassos governamentais geram falhas e a incapacidade dos oficiais de controlar a corrupção, estabelecer regras na forma de lei, providenciar segurança, ou desempenhar funções de governança leva os afegãos a recorrerem a governantes locais, milícias e ao Talibã, o que deslegitima a influência governamental.

Nesse sentido, o compromisso e a perseverança do Taleban justificam o reconhecimento. Após anos da invasão ocidental, em contraste com o Governo afegão, os Talibãs oferecem uma forma de justiça com menos corrupção, o que também leva os habitantes locais a confiar mais nos insurgentes do que propriamente no governo central, em Cabul.

Diante desse quadro, o reforço de tropas não dará aos EUA uma vitória. Na melhor das hipóteses, apontam especialistas, essas tropas podem ajudar a fortalecer as forças da coalizão e ajudar os aliados afegãos a preservar o impasse, fazendo com que a guerra continue sem um fim.

 

       

Fonte: 010 - uol

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