Segunda-Feira, 08 de Janeiro de 2018 - 09:41 (Colaboradores)

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LIVRE

SOBRE VIAJAR - POR JEFRSON SARTORI

Unimo-nos pois em viagem, cada um com suas particularidades, mas com o comum objetivo de chegarmos ao mesmo destino (ao menos o destino físico).


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Era necessário voltar, a tarde ganhava ares de noite e para esta finalidade eu havia ligado para o taxista – o mesmo que me trouxera na manhã daquele mesmo dia em Guajará-Mirim. Depois de me buscar, o chofer encontrou o único outro passageiro que nos acompanharia daquela viagem de pouco mais de 300 km até Porto Velho, era uma mulher, aliás, um belíssimo exemplar da estirpe feminina. Sua generosa geografia era coroada com grandes olhos verdes e um sorriso leve e fácil.

Unimo-nos pois em viagem, cada um com suas particularidades, mas com o comum objetivo de chegarmos ao mesmo destino (ao menos o destino físico). É um mal necessário ficar trancafiado em veículo por horas durante o deslocamento e com pessoas que não conhecemos. Coisas da vida moderna. Ao longo de nossos dias criamos essas aflições que nos obrigam a percorrer essas distâncias o mais rápido possível, sempre com urgência, como se o tempo passasse tão rápido quanto as paisagens do lado de fora da janela do veículo.

Tive sorte, o motorista era boa praça, não corria demais e nem de menos; a mulher, uma balzaquiana, de uma docilidade adorável.

Mergulhamos em assuntos diversos que foram (todos eles) ricamente ilustrados com relatos de experiências de nossas vidas. Coisa estranha essa que fazemos de confiar assuntos de foro íntimo dos mais pessoais, sendo pouco a pouco, gradativamente soltos em conversas despretensiosas durante a viagem. Como se fôssemos conhecidos de longa data, sentimo-nos que aquela intimidade durará para sempre, e que aquela agradável transferência física de um local para o outro jamais terminará e ficará – e ficaremos -, naquela doce harmonia para sempre. Ocorre, claro, que chegamos sim e num súbito, todos nos afastamos e aquele mundo construído em movimento dentro do veículo, desfaz-se quando estáticos, encerramos o translado e voltamos a ser estranhos, com uma leve e boa lembrança de havermos estado lado a lado.

A vida que nem sempre – ou quase nunca – dirigimos e acaba chegando a destinos improváveis ou em situações inverossímeis, destas que nos lembraremos sem tristeza, apenas um pouco melancólicos quando estivermos no final de nossa grande viagem da vida, em alguma distante estação, de uma não conhecida cidade.

Jefrson Sartori

Fonte: Jefrson Sartori

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