RELATOS DE UMA MENTE AFOGADA - News Rondônia Acho que vovó me ama, sempre me traz bolinhos de chocolate e olha para mim com aqueles olhos cansados e penosos, sempre passa as mãos nos meus cabelos e me diz que sou sua preferida, e que me entende.

Porto Velho,

Quinta-Feira , 04 de Dezembro de 2014 - 07:58 - Colaboradores


 


RELATOS DE UMA MENTE AFOGADA

Acho que vovó me ama, sempre me traz bolinhos de chocolate e olha para mim com aqueles olhos cansados e penosos, sempre passa as mãos nos meus cabelos e me diz que sou sua preferida, e que me entende.

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Capítulo I

Minha mãe só percebeu aos 12. O médico aos 15. Eu ainda acho que os loucos são eles, não eu. Ficar naquele consultório pálido e sem graça por mais de duas horas vendo minha mãe e o médico atrás do vidro não ajudava em nada, eu só tinha 13 anos e queria ir para minha casa fazer algo que não fosse ficar olhando a cara de medo e desaprovação de minha mãe, e principalmente, o olhar desafiador daquele velho barbudo que papai contratara para me diagnosticar. Tentar parecer normal.

Huum, não, nenhum relato de esquizofrenia na família, de acordo com vovó. Frescura? Talvez, as pessoas têm frescuras. Falta do que fazer? Meu tempo é muito bem ocupado, sempre foi, tenho certeza que isso não é. Falta de amor? Eu sempre fui amada. Não sei por quem, mas em algum momento da vida, fui sim. Acho que vovó me ama, sempre me traz bolinhos de chocolate e olha para mim com aqueles olhos cansados e penosos, sempre passa as mãos nos meus cabelos e me diz que sou sua preferida, e que me entende. A parte do entende eu não acredito muito, mas vovó é o ser mais lindo que conheço, portanto, tudo que ela fala é válido. 

Aos cinco anos eu já gostava muito de viver trancada em meu quarto com as minhas pinturas, livros e amigos imaginários. Odiava quando mamãe me mandava para as festas de aniversário dos meus supostos amiguinhos da escola. Eu sempre ficava sentada em um canto enquanto os outros brincavam de pega-pega ou esconde-esconde, sequer gostava dessas brincadeiras. Gostava de escrever em diários, lembro-me bem quando vovó deu-me o primeiro. Era de couro marrom e tinha umas flores desenhadas à mão. Sempre gostei de flores. Ela me disse: "Isso pode ser seu refúgio, minha pequena sonhadora, escreva tudo que pensar e tiver vontade, ninguém pode lhe impedir". Escrevia tudo que acontecia em minha rotina não muito badalada, e a partir daí comecei a depositar todos os meus medos de monstros, ou seja lá o que assusta uma criança. Os anos se passavam e eu era cada vez mais fechada. Aos 7 perdi o medo dos monstrinhos que me assombravam diariamente, acho que ficaram com pena de mim e decidiram em conjunto que seriam meus amigos. Não posso reclamar, é melhor do que ficar sozinha.

Lembro-me de um trecho que vai perpetuar em minha mente, não importa quanto tempo passe e quão louca eu ficarei.

15.07.1996

"Hoje mamãe me colocou na cama

E me perguntou se eu queria a luz apagada ou acesa

Pensei por milésimos de segundos

E vi que luz apagada ou não ele estaria lá

Debaixo de minha cama

Ou atrás da cortina

Pronto para me fazer gritar por dentro

E desejar não dormir nunca mais

Pois estaria no meu travesseiro

Debaixo dos meus lençóis 

Dentro dos meus sonhos

Me transformando em uma pequena monstrinha.

Pedi que deixasse o abajur aceso

E que a porta ficasse meio aberta

Mamãe consentiu e saiu

Me cobri com o lençol até a cabeça

Mas a presença dele era iminente

Eu ouvia a respiração quente no meu ouvido

E sabia que não poderia gritar

Muito menos fazê-lo sair dali

Fechei os olhos e fiz o possível para dormir

E ter um sonho normal

Logo menos,

O monstro estava deitado ao meu lado

Era menor que eu

E tinha uma cara parecida com meus ursinhos de pelúcia

Bonitos

Mas sem vida

A primeira coisa que fiz quando o vi assim

Tão de perto

Foi deixar que ele se aconchegasse junto de mim

E foi assim

O monstrinho e a monstrinha

Sonhando juntos

O dia em que seus medos serão só pesadelos 

Iguais filmes de terror

Em que um beliscão no braço sempre ajuda a acordar."

Ninguém nunca chegou perto de ler algo dos meus diários, a única pessoa que sabia da existência deles era vovó, e ela também nunca pediu para ler. E nem eu ofereci. Não queria que a única pessoa que ainda acreditava em mim tivesse a certeza de havia algo errado. Todas as minhas aparições, medos, inseguranças, alucinações e paranoias ficaram guardadas na parte mais escura e densa de minha mente. Aquela parte onde ninguém ousa adentrar.

O que aconteceu para que eu fosse parar em uma clínica ainda é algo que meu corpo tenta digerir. A loucura é minha, mas e a culpa? Também? A enfermeira de olhos azuis profundos como o oceano poderia me responder, talvez. Ou não. Pretendo perguntar na próxima sessão de entupimento cerebral de pequenas cápsulas feitas por alguém que achava que a esquizofrenia poderia ser tratada assim. E pode, em partes. O que não fizeram ainda é um remédio que apague também as marcas de uma guerra interior sangrenta, cheia de raízes profundas que se agarraram à minha alma.

####

Nota:

A mente humana ainda é pouco entendida. O que acontece atrás dos bastidores poucos conhecem. É tudo tão frágil, a qualquer momento pode romper, é uma infinita linha tênue! Pretendo postar os capítulos seguintes dessa "obra" (ainda é algo indefinido) em semanas alternadas, para que assim como eu, as pessoas procurem entender mais os detalhes de sua própria "loucura". 

*É uma história fictícia.

Datilografando a datilografar

E eu datilografei: “Mais uma vez estava flutuando em uma fina película tênue sobre um grande lago verde-musgo, como um elo prestes a quebrar, a qualquer momento romper... E eu afundaria...

Ou cairia...

Desceria lentamente pelas vielas escuras que marcavam meu corpo sem pena. Meu corpo nu estava marcado. Profundas marcas de uma fragilidade quase gritante. As mãos pareciam pequenos galhos secos. O peito arfava como o de um passarinho tentando voar. Os olhos derramavam o oceano... Levava ao mais profundo,

Profundo

Pro fundo dos mares.

A alma já vagava no pântano denso. Procurando o corpo pálido. Já afundado na própria loucura”

Herta

Espero que gostem! Abraços.

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Fonte: Herta Maria

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