Quarta-Feira, 16 de Novembro de 2016 - 10:25 (Colaboradores)

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QUANDO AS ASAS PENDERAM PARA O SUL - Por Max Diniz Cruzeiro

Era meio-dia quando meu amor se perdeu em meio as carruagens, aonde os carros transitavam em Viena.


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Era meio-dia quando meu amor se perdeu em meio as carruagens, aonde os carros transitavam em Viena. Sua vida transeunte, se encontrou numa alameda onde vagavam gaivotas na parte mais sul da cidade. Quando me viu, o entusiasmo foi tamanho que não se atentou para os bondes que circulavam pela praça central, foi aí que a fatalidade se abateu sobre ele.

Não abateu sobre mim uma espécie de autorrecriminação pelo acontecido, mas um estado de luto que navegava em minha alma e ao transitar havia tirado toda minha paz. Então os médicos se apressaram por me dar calmantes, naquele fatídico ano de 1920. Mas seria mesmo necessário aliviar minha dor daquela maneira? Meu coração: figura despedaçada, minha alma perdida por não mais ter a possibilidade de tê-lo em meus braços.

Eu Esther estava perdida na vida, sem rumo, sem chão, sem algo a que me apoiar. Tamanha devastação de mim mesma. Era uma ausência que passou a tomar conta de mim, uma falta do que não poderia mais possuir.

Então tentei buscar um tratamento que me tirasse da angústia e da depressão. E indo ao analista tive de desembolsar 1.062 marcos em anos de terapia ocupacional.

Meu consolo: a minha escrivaninha que me permitia capitular o meu luto. Era simples e aconchegante, me fazia lembrar de meu amado, a luz sempre disposta na lateral de um canto dava suporte para que eu posicionasse os objetos de composição lúdica de minha trágica história pudesse ser posicionada sobre a bancada. Do outro lado estava minha máquina de escrever, onde repassava meus rascunhos para serem uma realidade impressa. Às vezes, a angústia era tanta que acima da escrivaninha catava um livro de romance para entreter os meus pensamentos. Ou quando a depressão era profunda, no segundo nível eu buscava livros de autoajuda. E quando minha dor era mais severa ainda na prateleira mais elevada buscava minha coleção do filosofo Nietzsche.

Minha crítica para minha situação é relativa a cultura, quando está medicalizando o sofrimento humano é um forte viés cultural. Por que nada supria a sua ausência, e não tinha plena convicção do que havia perdido que estava dentro de você que me deixou desolada.

Sentia uma constante falta de energia, alteração no sono, tristeza, profunda identificação com os acontecimentos passados, uma baixa reatividade das coisas e das pessoas, ...

O meu luto por você ser uma pessoa muito próxima a mim, estava voltado para uma dor que me consumia toda energia, onde esta se voltava para me incorporar a um conflito que não terminava.

Se ao menos não tivesse naquele local, e naquela hora exata, talvez estivéssemos juntos neste momento. O meu luto sintetizada a perda da pessoa amada, em um tipo de predisposição patológica.

Então minha dor evoluiu para uma melancolia, que se configurava em um abatimento doloroso, numa cessação do interesse pelo mundo exterior, em que se estabeleceu uma perda da capacidade de amar, inibição de toda a atividade, e da minha autoestima, em que as autorrecriminações por ter sido responsável pela perda de sua identidade me fazia sentir constrangida e culpada pelo seu falecimento.

Soube pelo médico que as pessoas quando estão enlutadas se inibem, agora na minha fase melancólica era muito mais intensa uma questão de quantidade. Onde esta quantidade se expressava por um comodismo do meu psiquismo em colaborar para que aspectos cada vez mais profundos de minha depressão surgisse em meu interior.

Do lado de fora da minha casa tinha uma chaminé, no qual eu consumia os restos de madeira a fim de provocar o aquecimento pela tubulação para dentro de minha casa. O desgaste do tempo havia corroído a laje e quando chovia as gotas da chuva penetravam pela argamassa e se infiltravam no objeto. O concreto da bancada era firme, e se posicionava abraçando a lareira, mas as gotas da chuva me faziam lembrar minhas lágrimas e era o momento que uma nostalgia tomava conta de mim para me lembrar dos momentos que tínhamos passado juntos, porém que não era mais possível.

Quando apenas o luto tomava conta de mim a minha libido por você tinha um foco e era superinvestida em sua lembrança. E em cada momento sucedia o desligamento desta libido, na tentativa de me recompor diante do mundo sem você.

Reafirmo: não sabia exatamente o que perdi, não tendo mais a expectativa de ter você ao meu lado, era como se uma conexão sua em minha mente precisasse ser ativada a fim de que eu tivesse o indulto da ação em mim mesma.

Me lembrava de quando enciumada me fazia de neurótica exigindo de você compromisso, através do olhar, de uma citação ou de um tom de voz mais severo, então quando eu estava nesta neurose existia em mim uma perda do nível de realidade e quando meus pensamentos ficavam em devaneio, a psicose tomava conta de mim, então acontecia uma ruptura da realidade, onde só conseguia pensar que você estivesse me traindo do outro lado da cidade.

Então na minha fase melancólica depois do luto o meu eu estava em conflito com o supereu, e me tomei conta que nestes momentos de ciúme quando a neurose tomava conta de mim estava em conflito com o eu e o id. E quando fantasiava você nos braços de outra, o meu conflito era da ordem do meu eu com a realidade.

Ufa, já estava melhorando, com raiva de você por ter me deixado. Minha perda melancólica nesta fase já era conhecida. E se projetava em todos os momentos que deixei de viver ao seu lado. Sabia exatamente quem era você numa representação interna de mim, o que era capaz de sinalizar para a minha completude, ao mesmo tempo não tinha plena convicção do que havia perdido dentro de mim em que estava você representado.

Não era possível ver para mim o que absorvi de forma tangível de sua personalidade. Era uma sombra de você que estava ecoando em mim o tempo todo, mesmo sem sua presença.

Agora compreendi que a pessoa enlutada está voltada para dentro, no sentido do conflito que está consumindo, como se a energia estivesse sendo esgotada por este sentido. Este momento foi uma instância crítica moral, porque percebia que não era possível viver sem você.

Foi um momento em que uma parte do eu contrapôs-se a outro eu, em que minha libido estava recuada para o eu. Onde a perda de você representava a perda deste eu, num conflito do eu e a pessoa amada, você! Numa cisão que é função de um conflito colocado dentro da porção interna.

Agora quando o meu luto se atenuou, e veio a melancolia, passei a me relacionar com a sua representação dentro de um mecanismo de devoção como um culto à oralidade.

Se o amor por você foi tão significativo para mim, ao ponto de jamais eu renunciar a este sentimento que sinto por ti, mas mesmo sabendo que na minha forma terrena, e você na sua forma alada, eu tinha que renunciar temporariamente ao seu amor para sobreviver, sabia que tinha que refugiar em mim em uma identificação narcísica.

Onde a construção de um ódio, desprezo e insignificância da representação deste amor vago, deveria atuar em relação a este amor substituto, que havia de destronar o amor eterno que sinto por ti, que passava a este sentimento represado uma necessidade de me insultar, de rebaixar este eu, que me permitisse perceber que estava sofrendo, e ao mesmo tempo estava a obter satisfação sádica em relação a idealização deste amor. Porque sem ti era necessário que eu sobrevivesse, então o insulto a minha pessoa era uma forma de fazer com que eu me libertasse, mesmo que narcisicamente de sua presença incessante em minha mente.

Isto me fez recordar novamente a minha fase melancólica dentro deste processo em que o retorno do investimento sobre este amor me conduziu diversas vezes a um processo de hostilidade contra mim mesma. Em uma manifestação ambivalente dessas relações amorosas, onde ora queria me aprisionar as tuas lembranças e hora queria me libertar do sentimento que me represava a ti, num total enamoramento e suicídio, em vias que disjuntas se cindiam cada vez mais até que uma se sobrepôs-se a outra dentro de minha jornada de autoconhecimento.

Na minha melancolia a batalha em torno do seu amor, se constituía em um traço mnêmico das coisas. Na fase anterior o meu inconsciente fazia diversas tentativas de desligamento desse luto, mas este último nada fazia impedir que os elementos significativos de nossa vivência fossem ativados por via de representação sobre o meu consciente. Onde em minha segunda fase, a melancolia, o caminho do meu agir era bloqueado para o trabalho, numa ação conjunta das coisas.

Compreendi que na fase de melancolia consegui abandonar o luto que sentia deste amor que sentia por ti. E você não seria capaz de imaginar o qual foi difícil para mim representar por meio desta analogia a diferenciação entre o meu luto e a melancolia.

No luto tive que renunciar a você, em que se estabeleceu um conflito de ambivalência, num processo de desinvestimento deste amor, para conseguir alcançar o fim de meu abatimento.

No processo melancólico tive que cuidar para me fortalecer diante desta renúncia, em que meu conflito ambivalente deu margens para o surgimento de um processo de depressão, em que minha energia e forças pareciam se esvair, então tinha que encontrar alguma coisa em que me apoiar, para fazer convergir novamente a energia para ser canalizada para uma ação que despertasse minha vontade de viver.

Foi aí que me libertei deste surto, de um pesadelo que se abateu sobre mim durante anos, e quando o relógio badalou 14:00 na capela da Cripta Imperial de Viena tive o alívio confortante em Deus que nosso projeto havia sido apenas adiado, porque ele é eterno. Te amo e te amarei sempre: Esther.

Fonte: Max Diniz Cruzeiro

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