Sexta-Feira, 27 de Junho de 2014 - 10:05 (Colaboradores)

PENSO, LEIO E ESCREVO, LOGO EXISTO (OU NÃO)!

É estranho, mas essa é a graça de pensar, de ler, de escrever, sem precisar existir.


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Quando comecei a me aventurar nos papéis com minhas canetas, eu imaginava que poderia enfim fazer parte desse mundo. É! E aconteceu exatamente o contrário, criei meu próprio mundo. Decidi que eu não queria mais existir para o mundo em que vivo, e sim para aquele em que eu realmente existo. Refleti e me senti aflita. Tive medo de que não entendessem o que eu queria dizer com o que escrevia, e logo depois percebi que no fundo era exatamente isso que eu queria, queria perder todo o sentido, monotonia e mesmice de sempre, e dentro do sem sentindo achar todo o sentido da “coisa”. É estranho, mas essa é a graça de pensar, de ler, de escrever, sem precisar existir.

Logo abaixo tem o primeiro “capítulo” de As Crônicas de Maria Poesia, é uma história bem solta e leve, vou postá-las de vez em quando, espero que gostem.

As Crônicas de Maria Poesia

Maria adora tomar chá na varanda de casa, principalmente em dias chuvosos. Sentava na escadaria e deixava a chuva fria e rala molhar seus pés. Às vezes, Maria comparava as pessoas com a chuva, alegando que existem aquelas pessoas que assim como a chuva, vêm quando menos se espera, ou aquelas que vêm com tanta força que parece que não vai acabar, que nunca vai embora, e existem aquelas que mesmo sem perceber, estão sempre ali, como um sereno à noite, ou um chuvisco durante as manhãs de inverno. Maria tinha uma grande mania de fazer as pessoas parecerem uma chuva, uma pedra no meio do caminho, e até uma poesia:

Ela é uma Maria Poesia, quer achar sentindo em tudo ou simplesmente perdê-lo no vento, gosta de acordar de manhã e pensar que não vive em um mundo tão sombrio, gosta de acordar, suspirar e fazer seu dia valer a pena. Maria é amorosa, é chorosa, é risonha, tem todo jeito Maria de ser. Quando aparecem os dias ruins, só se deixa pensar que o tempo bom teve um pequeno atraso ao sair de casa, e que logo virá ao seu encontro, e enquanto isso Maria divaga nas páginas dos seus livros de páginas amareladas, tentando achar alguma brecha entre as linhas que torne feliz novamente o seu dia. Maria é curiosa, é moça de respeito. Anda de vestido rodado pelas praças, o vento adora as fitas que usa no cabelo, para fazê-las dançar junto de seu balançar saltitante na rua em plena primavera. No fim do dia Maria suspira e caminha de volta para sua casa com as sandálias nas mãos, e sente o chão frio sob seus pés. A chuva ameaça aparecer e ela logo pensa: -“E aí, qual dos meus amigos vem me visitar hoje? Os que me veem toda manhã de inverno, ou os que já haviam prometido que viriam e só puderam chegar agora?”. E Maria dormiu com a brisa gelada que adentrava seu quarto quente, sabendo que o melhor da vida sempre vem de graça.

Ilustrações: Foto 1 : Antônio Ocampo Foto 2: Di Cavalcanti A Mulher e o Caminhão

Fonte: Herta Maria

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