Domingo, 16 de Outubro de 2016 - 11:34 (Entrevistas )

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PAULO CORDEIRO SALDANHA: ETERNO PRESIDENTE DO BERON E OUTRAS HISTÓRIAS

'Minha família chegou por aqui em 1912/13 a cidade ainda nem existia e ajudou junto com outras pessoas no desenvolvimento do que hoje é o município de Guajará Mirim. Por que vamos brigar por migalha, estamos aqui no último lado da geografia, então vamos nos unir para que nossa pobreza seja menor'


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Domingo dia 9 passado, cobrindo a XX edição do Festival Folclórico de Guajará Mirim – Duelo na Fronteira aproveitamos a folga matinal e fomos até o Hotel Pakaas Palafitas Lodge com o intuito de entrevistar o seu Paulo Saldanha. De cara o gerente nos informou que ele não se encontrava, mas, perguntou sobre o assunto e após nos identificarmos e dizer sobre o objetivo da nossa visita, resolveu chamá-lo. Foi então que fomos recebidos (eu e o fotografo Roni Carvalho) com um sorriso do tamanho do Vale do Mamoré/Guaporé e aquele abraço longe de ser de tamanduá.

Após alguns minutos de conversa Paulo pediu licença, foi lá dentro e ao retornar, nos entregou os exemplares dos livros de sua lavra: “Crônicas Guajaramirenses” e “O Alferes e o Coronel” recém lançado, mais o livro escrito pelo seu pai Paulo Saldanha Sobrinho, “Fatos, Histórias e Lendas do Guaporé” alertando: “Quando for a Porto Velho vou cobrar a leitura desses livros”. Daqui a pouco chega o motivo da preocupação do gerente do hotel, Euro Tourinho Filho o Eurinho que estava visitando o empresário historiador, agora a conversa ficou mais interessante, pois estávamos diante de dois conhecedores das histórias da região do Madeira/Mamoré e Guaporé.

Bem melhor do que isso, é acompanhar a entrevista com o eterno presidente do Beron Paulo Cordeiro Saldanha.

ENTREVISTA

Zk – A família Saldanha chega a região do Vale do Mamoré/Guaporé quando?

Paulo Saldanha – Meu tio avô veio a primeira vez aqui, quando nossa Estrada de Ferro de saudosa lembrança, chega a Bananeiras pelo lado onde estavam construindo a ponte de ferro e ele veio acompanhando um cidadão que era amigo do Percival Farquar, chamado Geraldo Rocha engenheiro e dono de um jornal chamado “A Noite” no Rio de Janeiro. esse cidadão veio fazer uma matéria sobre a construção da ferrovia e outras informações. Isso aconteceu em 1911. Acontece que meu tio avô depois Coronel Paulo Cordeiro da Cruz Saldanha (meu nome é em homenagem a ele), era militar com a patente de Alferes porém licenciado, e tinha sido deputado estadual pelo Amazonas. Esse homem - eu queria ter sido 2% do que ele foi. Rondônia comete algumas injustiças em relação a ele porque se nós nos transformamos em Território Federal, deve-se a liderança dele. O professor Abnael Machado conhece essa história, mas, os neos historiadores se negam creditar a liderança dele à criação do Território Federal do Guaporé. O movimento nasceu em Guajará Mirim em 1937. É claro que ele foi o líder, porém, muita gente, a população pequena assinou maciçamente o manifesto.

Zk – O senhor falou em 1911 veio pela primeira vez e definitivamente?

Paulo Saldanha – Acontece que antes de assumir o parlamento, mas, já eleito, ele se envolveu num duelo com um cara em Manaus bem na esquina da avenida Eduardo Ribeiro com a Henrique Martins, onde eu trabalhei como gerente do Banco da Amazônia. Ele atirava muito bem e matou o cara. Em consequencia acabou não sendo reeleito e ficou a procura de desafio e o desafio foi dado pelo Percival Farquar que lhe deu a incumbência de criar, instalar e implantar a Guaporé Rubber Company.

Só que Guaporé Rubber transportava mercadoria e transportava gente e o Balbino só mercadoria e aí ele foi ficando e criou a primeira escola: Coronel Saldanha, primeira igrejinha que está la até hoje. Quando Dom Rey chegou em 1932, encontrou a igreja pronta, ele fez a torre e pois o sino, até hoje tem a cruz que foi implantada pelo tio avô Coronel Saldanha. Ele ajudou Dom Rey na construção do primeiro hospital, eles eram uma dupla muito produtiva para beneficiar Guajará, ele trouxe pra cá o professor Carlos Costa que foi também um benfeitor da cidade. Bem! Ele acabou ficando com a Guaporé Rubber por força da amizade dele com o pessoal do Percival e com Geraldo Rocha e depois ele vendeu pro governo federal implantando a linha Guajará Vila Bela.

Zk – É verdade que ele receitava medicamentos para os enfermos?

Paulo Saldanha – Nas horas vagas, quando ele ia ao Rio de Janeiro, se “internava” num hospital, pra recolher as últimas informações sobre medicina, de lá trazia remédios. Lembro que minha família falava na Tebrina e Paludam. Ele procurava curar as pessoas sem cobrar nada, aprendeu a fazer pequenas incisões e também era dentista. Naquele época não tinha, só depois chegou Mendonça Lima, Rocha Leal que tinham formação acadêmica.

Zk – A Guaporé Rubber era especializada no transporte de que?

Paulo Saldanha – Ela foi criada para transportar borracha, mas embarcava também Ipecacuanha, Castanha, Poaia e Couro. Na época esses produtos davam o lucro que ela precisava para se auto-sustentar.

Zk – Como foi o relacionamento dele com o Cândido Mariano da Silva Rondon?

Paulo Saldanha – Nesse meio tempo, ele que já conhecia Rondon e o recebeu em Guajará. Ele usava o poder político que tinha, por exemplo, para unir os dois países Brasil/Bolívia, pois, sempre tinha conflito por conta da alfândega. Ele cunhava a seguinte frase: “Por que vamos brigar por migalha, estamos aqui no último lado da geografia, então vamos nos unir para que nossa pobreza seja menor”. Ganhou em função do apoio que dava a saúde do outro lado, a maior comenda do governo da Bolívia a Medalha “Condor dos Andes”, eu soube que ele se emocionou muito com o discurso do presidente boliviano que veio a La Banda entregar a medalha.

Zk – Qual o envolvimento da família com esporte, já que existem dois estádios de futebol com o nome Saldanha. Em Guajará o João Saldanha e em Porto Velho o Paulo Saldanha?

Paulo Saldanha – Você vai para a história do Clube Ypiranga e ver que meu tio avô Paulo Saldanha foi presidente não lembro se em 1916 ou 17 e mandou construir o muro e as arquibancadas do estádio de futebol que depois recebeu o seu nome.  Ele tinha influencia em Guajará Mirim, na Bolívia, no Amazonas, no Mato Grosso e em Porto Velho.

Zk – Como foi a história da primeira eleição para deputado federal do Território Federal do Guaporé. É verdade que ele ganhou mais não levou?

Paulo Saldanha – Se você se dar com o Luiz Tourinho ou com o Euro Tourinho que estão aí vivos, eles vão lhe dizer que houve fraude naquela eleição em cima da ingenuidade do meu tio avô, que acreditava que não haveria fraude na eleição. Um personagem muito respeitável participou da troca de cédula (votos).

Zk – Tem alguma coisa de antes dessa eleição que o senhor quer acrescentar?

Paulo Saldanha – Em 1932 meu tio João Saldanha veio pra Guajará e ficou ajudando Paulo Saldanha na navegação, 1934 ele foi servir o exército em Manaus em 1935 meu pai Paulo Saldanha Sobrinho e aí chegou a Núzia Saldanha minha tia que foi secretária por muitos anos da prefeitura, minha tia Corina que está viva aos 96 anos em Porto Velho e a família foi se consolidando, meu pai casou com minha mãe Eremita Cordeiro Saldanha, João Saldanha casou com uma moça do Pará se separou e casou com a Dalila que era prima da minha mãe que era professora.

Desceram de Pedras Negras de Rolim de Moura e outros lugares do Guaporé, aprenderam a lecionar, se tornaram mestres educadoras, catequistas e enfermeiras. Depois outras professoras como minha querida Izabel e a turma dela foram saindo e outras escolas sendo implantadas por Dom Rey. Guajará teve a sorte de ter benfeitores como Manoel Alípio da silva o Capitão Alípio depois já mais recente o padre Alexandre Bendoraite pra mim, um injustiçado. Ele e Dom Rey implantaram a Rádio Educadora de Guajará, o Hospital Bom Pastor, o Barco pra levar saúde aos indígenas e ribeirinhos.

Zk – Em fim?

Paulo Saldanha – Minha família chegou por aqui em 1912/13 a cidade ainda nem existia e ajudou junto com outras pessoas no desenvolvimento do que hoje é o município de Guajará Mirim.

Zk – Agora vamos falar do Paulo Cordeiro Saldanha o bancário e empresário?

Paulo Saldanha – Sou ex-aluno do colégio Nossa Senhora do Calvário, das irmãs calvarianas, depois fui pro colégio Dom Bosco em Porto Velho em 1956. Foi quando vi o Bacu, o Ney Simões, Chafon, Mário Teixeira jogar bola, isso na primeira vez que fui a Porto Velho. Quando fui estudar no Dom Bosco viajei de Litorina. O Fio Maravilha tinha uma arcada dentária mais bonita que a minha e eu tive que fazer um tratamento ortodôntico no Rio de Janeiro e lá estudei no colégio salesiano chamado Santo Agostinho foi quando minha mãe morreu e as coisas ficaram difíceis e tive que voltar e fui trabalhar na Pernambucana e depois fiz concurso em Porto Velho para o BASA passamos dois de Guajará Mirim eu e o Luiz Rodrigues da Cruz e ai comecei minha carreira de bancário. Quando entrei no Basa o nome era Banco de Crédito da Amazônia, na realidade ele começou como Banco da Borracha e hoje é Banco da Amazônia S/A – BASA.

Zk – E a presidência do Beron chegou como?

Paulo Saldanha – Quando estava como gerente do Basa em Manaus, fui convidado pelo Coronel Jorge Teixeira para ser diretor do Beron, aceitei na hora, pois viria trabalhar na minha terra e sob as ordens do Texeirão. No dia da implantação do banco o Teixeira me chamou em seu gabinete e disse com aquele vozeirão: Paulo Saldanha decidi que o Presidente do Banco vai ser você e eu falei: e o Janes? E ele, eu não o convidei pra ser presidente, convidei pra ele organizar a empresa. Então respondi: Coronel estou surpreso, só quero que o senhor saiba, que tenho orgulho muito grande em trabalhar sob suas ordens.

Zk – Depois do Beron?

Paulo Saldanha – Saí quando ele saiu, voltei para o Basa, nesse meio tempo fui chefe de departamento em Belém, depois recebi uma missão difícil, que foi liquidar o banco de Roraima e nossa equipe conseguiu fazer o banco dar lucro e ele foi ressuscitado com o nome de Banco do Estado de Roraima e eu fui seu primeiro presidente.

Zk – Qual sua opinião sobre o fechamento do Beron?

Paulo Saldanha – Deveria ser federalizado ou então privatizado nunca liquidade. A tônica da política do presidente FHC era acabar com os bancos estaduais, sob argumentação de que nos Bancos estaduais tinha corrupção. Eu acabaria com a corrupção. O Beron financiava a Micro empresa, agricultura, pecuária, comercio, habitação. Quando há desvios, tem que se punir os desvios e não punir a sociedade encerrando as atividades das empresas que foram criadas para gerar as oportunidades que são socioeconômicas.

Zk – No governo Piana?

Paulo Saldanha – Quando o Oswaldo Piana assumiu o governo me convidou e eu aceitei retornar a presidência do Beron o banco já estava com muita dificuldade, mas, nós administramos quatro anos pra salva-lo. Nós tínhamos um programa que ganhei de presente do Unibanco através do vice-presidente Israel Cablin, só o Unibanco e talvez o Itaú tivesse esse programa através do qual, eu sabia quanto custava um cliente para o Banco. Criamos um centro de micro filmagem no Ulisses Guimarães onde instalamos uma micro agencia. Eu partia da idéia de que, valorizar o parceleiro de Extrema a Cabixi era valorizar nossa economia emergente. Tínhamos que chegar à frente porque se não, os bancos aventureiros podiam tomar o nosso espaço. Chegamos aos cinquenta e poucos pontos. Lamentei que o banco não tivesse sido privatizado ou federalizado.

Zk – E a dívida que até hoje o governo estadual paga ao Banco Central?

Paulo Saldanha – Você fez uma pergunta oportuna. Tenho gravado na Assembléia Legislativa de Rondônia uma entrevista com o Hercules Góes perguntando de uma forma até meio esquisita: Qual é o rombo do Beron? O Beron na minha gestão não teve rombo, teve déficit. Um dos diretores disse que o banco precisava de R$ 11 milhões. Eu tinha pedido e o governo Piana orçamentou 15 Milhões de Dólares. Eu trabalhava com planejamento prospectivo, se a inflação fosse X precisaríamos do capital Y, se a inflação fosse Z precisaríamos de um DX a mais. Concluímos em maio ainda de 1994 que precisaríamos de 12 a 15 milhões em janeiro, porque estava havendo perda sobre o Plano Real. Todo banco perdeu dinheiro. O governo que sucedeu o Piana não cobriu o orçamento que era capitalizar o banco em 15 milhões de dólares ou 15 milhões de reais na época era um por um. O Banco Central estava tomando conta do Beron aceitou candidamente e deixou o Banco morrer a míngua. Se eu não dou água, oxigênio para o corpo, ele morre.

Zk – Uma das histórias transformadas em crônicas?

Paulo Saldanha – Outro dia estava sozinho, não tinha hospede no hotel e vieram dois sanhaçus (passarinhos) que estavam construindo o ninho, publiquei a crônica “O ninho do sanhaçu”. Aí transitei pela bíblia, pela teologia porque vi que eles eram organizados inclusive, eles podem servir para as obras do governo brasileiro. Saia um chegava o outro com o ramo no bico para montar o ninho. Não os vi pedindo bolsa escola, bolsa família e nem um desses programas sociais, de repente, eles pararam de trabalhar, fui ver a hora e era meio dia (eu estava a mais de duas horas observando), eles foram almoçar. Tem uma passagem na bíblia onde Jesus fala: “Vejam os pássaros, eles não se preocupam em acumular riqueza nem comida, porque o criador vai dar pra eles”, foi aí que lembrei que tinha que almoçar também.

Fonte: Zé Katraca

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