Terça-Feira, 10 de Julho de 2018 - 11:48 (Polícia)

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PAI DE JOVEM LINCHADO DIZ TER FEITO SUA PARTE, MAS SE ARREPENDE DE CONFIAR NA JUSTIÇA

José Gonçalves Cardoso afirmou que, por ser pastor, entregou o filho acusado de estupro e homicídio. Ele também promete cobrar na Justiça o que acredita ser uma falha do Estado: "Não posso ser omisso a isso também"


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“Foi a pior notícia da minha vida”. É assim que José Gonçalves Cardoso, 47, conhecido como Pastor Cardoso, define o ocorrido com o filho Gabriel Lima Cardoso, de 18 anos, na noite desse domingo (8). Suspeito de estuprar e matar com 16 facadas na última quarta-feira (4) uma adolescente de 14 anos, Gabriel foi linchado e queimado em via pública no município de Borba (a 151 km de Manaus).

O linchamento de Gabriel aconteceu após dezenas de pessoas invadirem o quartel da Polícia Militar do município, onde ele estava preso, e o tirarem de lá. Horas após sepultar o filho, na tarde desta segunda-feira (9), o líder religioso conversou com a reportagem do Portal A Crítica, por telefone, e deu detalhes sobre o episódio.

“Eu chamei o advogado para entregar meu filho à Justiça para ele não ficar impune diante da gravidade do que tinha acontecido. Eles deram toda a garantia de que iriam manter a integridade física dele. Ele foi entregue à justiça. Porém, policiais vazaram a informação para a população e a família da moça que tinha sido morta. Graças a Deus, eu estou vivo. Porque eu não fui com meu filho. Só foi com ele, o advogado e o investigador”, contou o Pastor Cardoso.

‘Pastor, mataram seu filho’

O pai de Gabriel não é de Borba. Natural de Novo Aripuanã (a 227 km de Manaus), o pastor Cardoso mora há 24 anos no município, por conta do trabalho religioso. O choque provocado pela pior notícia da vida foi recebido na casa de seu outro filho.

“Ouvi os fogos que estavam sendo soltos pelos lados da delegacia e, quando uma pessoa chegou na casa chorando, eu estava com muito medo porque disseram que iriam invadir a minha casa. Essa pessoa chegou chorando, desesperada e disse: ‘pastor, mataram seu filho’. Foi a pior notícia da minha vida. Eu fiquei em um estado de nervos tão grande, que eu... (pausa) agora eu estou tremendo por dentro”, relembrou durante o telefonema.

‘Eu sepultei meu filho todo quebrado, todo queimado’

Vídeos com as cenas do linchamento começaram a circular pelas redes sociais e aplicativos de mensagens começaram ainda na noite de domingo. Imagens que o Pastor Cardoso prefere não ver.

“Eu confesso que não tive coragem de ver nenhum vídeo do que fizeram com meu filho. Apenas o vi quando fui sepultá-lo hoje. Eu sepultei meu filho todo quebrado, todo queimado. Uma coisa absurda. Quatro vereadores estavam lá presentes e não fizeram nada”, revelou o pai. O corpo de Gabriel foi sepultado às 11h desta segunda-feira.

‘Ele tinha que pagar pelo erro que cometeu. Mas a Justiça não fez a parte dela’

José acredita em uma falha por parte do aparato de segurança do Estado. “Tiraram meu filho, mataram ele brutamente, tacaram fogo nele. Como pai, eu me sinto revoltado. Porque confiei na Justiça, que eles iriam proteger meu filho”, reclamou o pastor, que afirma ter a consciência tranquila.

“Não dei fuga, porque sou pastor. Me sentiria culpado se eu desse fuga para o meu filho. Ele tinha que pagar pelo erro que cometeu. Mas a Justiça não fez a parte dela. Ela falhou. Estou muito indignado com essa falta de responsabilidade. Fiz minha parte e me arrependo de ter confiado neles, mas por outro lado, tenho minha consciência tranquila, por não ter compactuado com o erro do meu filho. Isso me conforta e me consola”, afirmou.

‘Hoje, é com meu filho. Amanhã pode ser filho de qualquer uma pessoa’

Um levantamento feito pelo Portal A Crítica revelou que, nos últimos três anos, ao menos 60 pessoas morreram em linchamentos no Amazonas. Pai de uma das vítimas, o pastor Cardoso teme que cenas, como a desse domingo, voltem a se repetir em Borba.

“É muito complicado. Porque pode gerar problemas maiores. Hoje é com meu filho. Amanhã pode ser filho de qualquer uma pessoa que mora aqui em Borba. A população pode cair no risco de querer fazer Justiça com a própria mão”, alertou.

‘Assim como eu fui sincero com a Justiça, espero que o Estado arque com as consequências’

Dezesseis policiais civis e militares foram enviados ao município de Borba nesta segunda-feira. Agora, a polícia investiga quantas pessoas participaram do crime. O inquérito policial para apurar e identificar os envolvidos no linchamento tem 30 dias para ser concluído. A denúncia de que os policiais vazaram a informação sobre Gabriel estar se entregando também será apurada, segundo a Secretaria de Segurança Pública (SSP-AM).

As pessoas que participaram da ação criminosa deverão responder por uma série de delitos como homicídio, dano ao patrimônio público, ameaça, incêndio criminoso e uso de rojão para constranger policiais.

Confiando no inquérito e na atuação do que chamou de força-tarefa montada pela Polícia, o Pastor Cardoso afirmou que vai buscar a Justiça para conseguir o que afirma ser de direito após o assassinato do filho.

“Eu vou procurar os direitos que meu filho tem. Eu entreguei ele nas mãos do Estado e o Estado não me deu cobertura total. Não me deu proteção. Eu não posso ser omisso a isso também. Assim como eu fui sincero com a Justiça de fazer minha parte, de entregar meu filho, eu espero que o Estado arque com todas as consequências e pague por tudo que fizeram com meu filho”, contou.

Diante de tanto sofrimento, Cardoso argumenta: “É meu direito como pai”.

Fonte: 015 - Acritica

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