Terça-Feira, 29 de Março de 2016 - 20:44 (Colaboradores)

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O SER E A VIOLÊNCIA, POR NINA LEE MAGALHAES SÁ

Mas é interessante como nós nunca nos consideramos violentos, a violência sempre é do outro, e não nos lembramos que nossos ódios também são movidos pelo coração.


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Corpos caídos, dilacerados, ocultados. Cada crime que acontece deixa marcas no corpo, na alma, na sociedade, na história. Não importa quem seja a vitima, sua classe social, seu gênero, sua conduta. Importa que, como seres humanos, o respeito pelo individuo deveria ser preservado. Dizemos que o povo brasileiro é um povo cordial, bondoso, generoso e de coração imenso, características que vários visitantes nos deram principalmente no século XIX. Sérgio Buarque, um dos maiores escritores brasileiros, retrata isto de forma clara e convincente. Mas é interessante como nós nunca nos consideramos violentos, a violência sempre é do outro, e não nos lembramos que nossos ódios também são movidos pelo coração.

Não quero lembrar que eu erro também. Um dia pretendo tentar descobrir porque é mais forte quem sabe mentir? Não quero lembrar que eu minto também. Mas, ainda assim, nada, nenhum motivo, nenhuma argumentação justifica o homicídio, o requinte de crueldade.

Crueldades acontecem o tempo todo, de forma verbal, psicológica, física e são ignoradas, porque na maioria das vezes não estão sob nosso teto, ou, não é conosco. Os instintos determinam condutas quase idênticas em todos os indivíduos da mesma espécie, por serem hereditariamente fixadas, conforme debatido dentro da psicologia, da psicanalise e psiquiatria. Porém, diferente dos outros animais, o humano tem a possibilidade de mudar o destino original de suas energias instintivas. Todos nós temos desejos e vontades e, em regra, o que nos diferencia dos animais é a razão.

Amor e ódio. Segundo o mito do bom selvagem de Rousseau, o ser humano era originalmente bom, mas foi corrompido pela civilização e pela noção de propriedade. Algo muito diferente da opinião de Hobbes, de que o homem era naturalmente propenso ao mal e que a civilização serviria para conter seus instintos “criminosos” (o curioso é que, na vida pessoal, segundo a história, Hobbes era muito mais decente e honesto do que Rousseau). Albert Einstein questiona Freud sobre o desejo dos homens em estar à frente da morte e expressa o seu espanto diante do entusiasmo dos homens para a guerra e admitia a possibilidade de um instinto de ódio ou de destruição – Freud (1932) confirma sua teoria de que o ser vivo protege-se dos próprios instintos destrutivos direcionando-os para o mundo externo.

Na tese de John Locke, nascemos tábula rasa e quando se nasce a mente é uma página em branco que a experiência vai preenchendo. Defende ele ainda que o conhecimento produz-se em duas etapas: a) a da sensação, proporcionada pelos sentidos, e b) a da reflexão, que sistematiza o resultado das sensações. Em meio a tantas teses sobre a maldade humana, a história nos dá uma pista, ainda que ambígua, sobre o tema, principalmente quando trata se da inveja e do ódio. Maria da Graça Blaya Almeida atribui à cultura hebraica a figura do bode expiatório, que segundo a história, durante o ritual anual chamado de Dia da Expiação, utilizavam eles um bode como símbolo de purificação e expiação dos pecados e culpas. Simbolicamente os sacerdotes e o povo depositavam no animal os pecados de Israel e depois o abandonavam ao relento no deserto, para que fosse achado por um anjo mau. E deessa forma, acreditavam acalmar o demônio e livrar-se dos próprios erros e males cometidos. 

Sabendo que não posso vencê-lo, torço para que encontre a derrota nas mãos de outrem, como se fosse um troféu, onde fosse inscrito: “eu não tenho, mas você também não!” Prova inequívoca desta afirmativa é a citação de Tácito que diz terem os homens mais pressa em retribuir um dano do que um benefício, porque a gratidão é um peso e a vingança, um prazer. E neste contexto, aquele que obteve o perdão, a compreensão ou um gesto de bondade, tem a falsa necessidade de retribuição, e que não tendo esta natureza boa, é incapaz de compreender a atitude do outro, pensando sempre estar à mercê do testemunho de sua falta ou de sua fraqueza.

Já quando o individuo consegue que o mal seja revidado também com o mal, vê nisso uma equiparação, tendo assim a falsa sensação de igualdade, de que ninguém deve nada a ninguém.

É urgente resolver nossos monstros secretos, nossas feridas clandestinas, nossa insanidade oculta, escreveu Michel Foucault. David Léo Levisky assevera que certas heranças históricas de diversas formas de violência certamente serão transmitidas por nós às próximas gerações com a esperança de atenuá-las, cientes de nossa impotência para eliminá-las. Não tenho muita certeza disso. Aliás, a única certeza que tenho em mundo líquido, onde valores mudam conforme a necessidade, é que Eu, enquanto Ser, sou detentor das minhas escolhas e escravo das consequências. E desta forma, responsável pelas consequências que causo a outros em virtude das minhas escolhas, de meus atos e de minhas decisões.

Fonte: Nina Lee

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