Terça-Feira, 11 de Abril de 2017 - 15:00 (MINHA HISTÓRIA)

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'O CORAÇÃO SÓ FALTA SAIR PELA BOCA DE SAUDADE', DIZ IDOSO AO RECEBER, APÓS MUITO TEMPO, VISITA DE FILHO NA CASA DO ANCIÃO

O projeto Vem Cuidar de Mim tem como proposta realizar reuniões mensais entre idosos e familiares com acompanhamento psicológico e que os familiares assumam o compromisso de fazer visitas pelo menos uma vez na semana ao idoso.


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A Casa do Ancião São Vicente de Paulo abriga atualmente 31 idosos. A instituição de longa permanência é mantida pela Secretaria de Estado da Assistência e do Desenvolvimento Social (Seas) e conta com uma equipe multidisciplinar com promoção de terapia ocupacional e reabilitação. Além de acompanhamento psicológico, a alimentação é acompanhada por nutricionista e cuidadores.

O encontro entre pais, filhos e bisnetos foi marcado por forte emoção. Por mais que a memória em alguns momentos falhe, no olhar de cada idoso é possível perceber que o sentimento de amor ainda está vivo e sólido.

A reunião começa com a entrega do Estatuto do Idoso aos familiares com destaque para o Art. 3º: é obrigação da família, da comunidade, da sociedade e do Poder Público assegurar ao idoso, com absoluta prioridade, a efetivação do direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária.

‘‘Nós não estamos aqui para obrigá-los a levá-los para casa, mas ficaremos felizes se sentirem a necessidade de acolher o familiar novamente, mas o projeto é sim para orientar vocês a dispensar um pouco do seu tempo para ficar aqui com eles. O que queremos é restabelecer o vínculo para que eles não se sintam abandonados pela família. Entendemos que a sociedade não está preparada para o envelhecimento, por isso também queremos ouvi-los’’, disse a psicóloga.

O projeto Vem Cuidar de Mim tem como proposta realizar reuniões mensais entre idosos e familiares com acompanhamento psicológico e que os familiares assumam o compromisso de fazer visitas pelo menos uma vez na semana ao idoso. Também é permitido que esse idoso seja levado para um passeio em família.

Durante o encontro, a psicóloga explicou aos familiares o quanto esse restabelecimento do vínculo familiar significa para os idosos institucionalizados. ‘‘Temos aqui o caso de um idoso que por meio de uma reportagem de TV conseguiu voltar a falar com familiares que moram no Ceará. Há cerca de 40 anos ele não tinha notícias deles’’, contou Rose, sendo interrompida por Paládio Alexandre Assis, 80 anos, que disse: ‘‘Isso é muito triste’’.

Paládio é um dos idosos mais simpáticos da casa. Sempre com um sorriso no rosto e nas palavras demonstra a sabedoria de quem já viveu muitas experiências e aprendeu o que realmente tem valor. ‘‘Não pode demorar para vir visitar porque não sabe o que o pai está passando, a gente só sabe vendo. E se com essa demora eu morro? Os filhos devem estar sempre falando com os pais, não precisa nem dar a benção, mas só diga: oi pai, oi mãe, estou passando aqui. Nós já ficamos satisfeitos’’, revelou Paládio.

A saudade, segundo ele, é o que mais machuca. ‘‘O coração só falta sair pela boca de saudade’’, mas isso deve mudar. Foi o que prometeu o filho dele, Carlos Alexandre do Carmo, 36 anos. ‘‘Eu trabalhava viajando, então tinha pouco tempo, mas agora eu saí da empresa. Vou ter mais tempo para ficar com ele’’, garantiu.

Carlos é o único filho biológico de Paládio, que ainda tem mais dois filhos adotivos. Ao lembrar do passado, ele se emociona. ‘‘Ele sempre foi um pai muito bom’’, reconhece.

A estudante Juliana Gonçalves, 19 anos, também esteve na primeira reunião do Vem Cuidar de Mim. Ao lado do bisavô Lázaro Barcelar de Souza, 78 anos, ela revelou as dificuldades de se cuidar dos familiares quando ficam idosos. ‘‘A minha mãe é que tem visitado ele com mais frequência. Estou aqui representando ela porque, devido a uma cirurgia que ela fez, não pôde vir. Nós já cuidamos de dois idosos lá em casa, inclusive a minha avó que está acamada’’, ressaltou.

Juliana contou ainda que era desejo da família cuidar de Lázaro, mas as circunstâncias os impedem. ‘‘Nós moramos em condomínio, o espaço é pequeno, tem que subir escada. Fora que tem a minha avó, que precisa de cuidados 24 horas’’, ponderou.

Já as visitas devem se tornar mais constantes. ‘‘A gente que é novo não pensa no amanhã, não pensa que vai envelhecer, que vai usar fralda, mas amanhã será a gente nessa situação. O que a gente faz com os pais da gente, pagamos lá na frente. Então a própria Bíblia diz honra teu pai e tua mãe que seus dias serão prolongados na terra. Se você não honra, que exemplo você estará passando para teu filho?’’, refletou.

João Alexandre da Silva, 28 anos autônomo, recordou ao lado do pai Vicente Cândido da Silva, 88 anos, os momentos de cumplicidade dos dois. ‘‘Meu pai sempre foi batalhador, trabalhava vendendo bombom nas praças. Foi ele que me ensinou a vender picolé, até hoje eu vendo. Minha vontade era levar ele para morar comigo, mas não tenho condições financeiras’’, afirmou.

Ele lembrou que só soube que o pai estava vivendo na Casa do Ancião um tempo depois. ‘‘Ele teve um derrame e o amigo dele que levou para o hospital e o trouxe para cá. Agradeço a ele por isso, infelizmente não tive como cuidar dele na minha casa. Agradeço a Deus por ele estar sendo apoiado pelo estado. Sou o único filho dele e agora vou me esforçar mais para estar presente na vida dele”, disse emocionado.

Vicente é de poucas palavras, mas ao ser perguntando sobre o que lembrava do filho afirmou: ‘Quando  ele era jovenzinho e nós dois vendíamos bombons na praça. Me sinto muito bem quando ele vem aqui’’, afirmou, com os olhos azuis marejados, como se passasse em sua mente as cenas de uma vida cheia de bons momentos e de vínculos que nem o tempo e nem a distância conseguem romper.

‘‘O projeto Vem Cuidar de Mim é o meu sonho, o restabelecimento do vínculo familiar dos idosos, dessa convivência que eles necessitam junto da família. Eu vejo a necessidade desse familiar estar presente na instituição e do idoso estar presente no seio familiar. É indispensável para o próprio idoso a presença da família’’, reforçou a psicóloga, destacando que o estado tem cobrado que haja essa iniciativa.

O projeto tem o desafio de ultrapassar os obstáculos criados por uma sociedade despreparada para o envelhecimento. Dos cerca de 20 familiares convidados para o primeiro encontro do projeto, apenas três idosos tiveram a visita de seus familiares. ‘‘É um desafio muito grande, não nego. Eu já estou encontrando obstáculos, mas sei que esse projeto é um passo muito importante. Se o familiar não vier, eu vou até eles e levo o idoso. Eu tenho que fazer com que o familiar se sensibilize’’, destacou.

Fonte: Secom/Gov-ro

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