Sexta-Feira, 03 de Novembro de 2017 - 12:46 (Artigos)

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MORTE AUTOPROVOCADA: QUATRO ILUSÕES, MUITO SOFRIMENTO – Por Wilma Suely Batista Pereira

Ao tentar punir o outro com o autoextermínio, a pessoa projeta no outro a própria percepção de profundidade da dor que sente, frente à perda.


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Para além de todas as sensações que nos desperta, a morte autoprovocada tem sido uma via escolhida por muitos em nosso redor. Mas, por que isto acontece? O que faz alguém escolher se matar?

Arrisco algumas hipóteses, com base em matérias que já vi na mídia e conversas com pessoas que nos procuram para desabafar:

1-  Ilusão de fim de sofrimento: as vezes a pessoa pensa que ao se matar, vai dar fim ao sofrimento que carrega em si, sofrimento que tomou tanto espaço que,para a pessoa, naquele momento, parece se confundir com sua própria existência.

2- Ilusão de liberdade: as vezes a pessoa pensa que é livre e, portanto, pode fazer o que quiser com a sua vida. E se é livre, e a vida não está se mostrando compensatória, então, para que mantê-la?

3- Ilusão de autopunição: Nesta ilusão, a pessoa acha que por ter feito uma ou muitas coisas que magoaram, prejudicaram outras pessoas, não consegue se perdoar e pensa que se matando teve “o fim que mereceu”.

4- Ilusão de vingança: Mais comum quando se trata da dor de relacionamentos rompidos, a pessoa está ofendida, deixada ou magoada por outra e no afã de causar impacto e fazer a pessoa voltar atrás, se mata, para se vingar.

Na ilusão de fim do sofrimento, em que pese as diversas interpretações ofertadas pelas religiões cristãs e não cristãs, a verdade é que não sabemos o que acontece com nossa essência, inteligência, alma, força vital, com o cessar dos processos fisiológicos que mantêm a vida.  A impressão é que quem se mata se jogando de altura, deseja lá no fundo, que haja um grande colchão onde possa aterrissar em paz, nem que seja em outra dimensão.

Na ilusão de liberdade em que a pessoa entende que pode exercer o livre direitode se matar, alguém que está assim sofrendo tanto, não está exatamente livre.Ao contrário, está refém da dor, da desesperança.  A pessoa que se sabe dona de sua existência talvez não esteja se lembrando de que, se pode se autoexterminar, também pode se autotransformar e reorientar os mecanismos que conduzem sua relação com o mundo ao redor.

As ilusões de auto e alo punição traduzem o quanto estamos distantes dos estágios de relacionamento em que as dificuldades pessoais possam ser vistas, discutidas e acolhidas como possibilidades, talvez nem sempre as melhores, mas como possibilidades. As exigências de sermos melhores o tempo todo, quando temos por vezes traumas cuja superação exigiria um suporte terapêutico ao qual não se tem acesso facilmente, reduz e esgota as tentativas de adaptação, implodem a autoconfiança, anula a capacidade de perdoar e recomeçar.Por vezes essas dificuldades culminam em relações expoliativas e finda em planos de morte para si ou para outrem.

Ao tentar punir o outro com o autoextermínio, a pessoa projeta no outro a própria percepção de profundidade da dor que sente, frente à perda.

Sente tanta tristeza e frustração por não mais ter a atenção do outro que o(a) deixou, e essa dor é tão grande que já tomou proporções incontroláveis. Essa projeção lhe faz imaginar que sua morte também proporcionará ao outro a dor no mesmo diapasão.

Mas, se sabe que não é assim. O outro sofrerá, sem dúvida,  coma forma abrupta da ausência, e se questionará, como todos os outros ao redor(há tantos ao nosso redor e nem sempre percebemos) mas a saudade e a culpa daquele a quem se pretende atingir com a morte autoprovocada, não se mostrarão nitidamente por muito tempo, isso ocorrerá na medida da maturidade psicológica e das condições emocionais em que o outro estiver. Depende de o quanto ele/ela tem convicção de que a separação era mesmo a melhor saída, se nutria alguma intenção de retomar contato; se já tinha alguém em sua vida; se estava retomando a vida sob outros aspectos... e o luto, segundo alguns autores é tão variável que pode durar menos do que se espera. São tantas variáveis a serem equacionadas que chego à conclusão de que não vale mesmoa pena querer morrer para se “plasmar” na mente do outro que nos deixou. Isto sem falar que além da pessoa objeto de vingança, há tantas outras a quem se termina magoando sem perceber...

Nenhuma dessas ilusões está longe de acontecer com qualquer um de nós. Não precisa estar louco(a) para sentir ou desenvolver ideias de se auto aniquilar. A vida traz muitos desafios mesmo, nem sempre estamos prontos(as) para encarar. No entanto, a sucessão dos dias nos traz oportunidades diferentes, umas sutis, outras mais “escancaradas”. Às vezes, resistindo à vontade de ficar parados, nos colocamos em movimento e nos vemos diante de novos projetos, novos amigos, novos talentos, novas chances. O inesperado às vezes é um grande antídoto.

Nada miraculoso, nem imediato, mas novo, atraente. Por que não experimentar só por hoje? E cada dia experimentando vai acrescentando sentidos novos para acordar, levantar, tomar banho, nos arrumar, nos perfumar... e logo vamos estar surpreendidos com paz de viver em conexão com este mundo maluco mas, cheio de coisas que valem a pena. Aos poucos, vamos abandonando as ilusões, trocando-as pelas novas e pelas renovadas certezas de que hoje, só hoje, vamos estar bem.

Fonte: 010 - Geovani Berno

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