Quarta-Feira, 17 de Junho de 2015 - 11:14 (Colaboradores)

MORADORES DE JACY-PARANÁ PAGAM UM PREÇO ALTO PELA FALTA DE POLÍTICAS PÚBLICAS

As mortes que ocorrem no vilarejo não é mais pela grilagem de terra, más, pelo domínio do tráfico de drogas. Bem vindos a cracolândia da Amazônia. O nome é alusão a uma região de consumo de crack na cidade de São Paulo.


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Com a vida de milhares de homens para o distrito de Jacy-Paraná o número de crianças que nasceram em meio aos tórridos romances aumentou. E com o fim das frentes de trabalho esses mesmos homens foram voltando para seus locais de origem, deixando para trás não apenas um relacionamento casual, más, a lembrança do que ficou dele. Outra disparidade trazida com a migração para Jacy foram ás drogas e a criminalidade. Você vai conhecer a história de um garoto que aos nove anos foi apresentado ao ‘crack’, droga extremamente viciante. Hoje aos 17 ele luta pra se livrar da dependência química. É o que você acompanha agora na ultima parte da série: OS ESQUECIDOS. Reportagem de Emerson Barbosa, com imagens de Raymundo Brito.

As marcas da passagem deixadas pelo progresso com a construção das usinas hidrelétricas do rio madeira estão por todos os lados. O desmatamento para dar vazão à água do rio é uma dessas tristes conseqüências. Em jacy a passagem dos progressos um século depois da obra faraônica da Estrada de Ferro Madeira Mamoré ainda se encontram, passado e futuro se digladiando.

E como em qualquer lugar que não é preparado para receber construções gigantescas como as hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau, consideradas na época as maiores obras hídricas brasileiras, a migração populacional foi catastrófica para um distrito que já teve cara de cidade. As mortes que ocorrem no vilarejo não é mais pela grilagem de terra, más, pelo domínio do tráfico de drogas. Bem vindos a cracolândia da Amazônia. O nome é alusão a uma região de consumo de crack na cidade de São Paulo. 

É nesta casa construída com recurso compensatório para as famílias que habitavam em áreas propensas a alagação após o fechamento das comportas de Santo Antônio que mora o nosso mais emblemático personagem. Daqui a alguns dias ele entra na maioridade. A vida do garoto que carrega no físico esguio a aparência e fala de criança começou aos noves anos, quando foi apresentado as drogas.

Nossa conversa acontece pela primeira vez na frente dos irmãos e  primos que também moram na mesma casa e todos criados por dona Maria Doraci. Essa idosa de personalidade forte que aos 73 anos tem passado dias difíceis por conta do vício do neto. Agora bem mais tranqüila depois que ele pediu ajuda das autoridades para se livrar da dependência química. Porém não por completo. 

“Meu neto ficou muito ruim por causa das drogas. Com ajuda de um programa do governo levaram pra se tratar no Mato Grosso. Há três anos não ele vem resistindo. Ultimamente acho que vem querendo se meter nisso outra vez. E tudo por causa de uns amigos dele que chamam ai na frente e ele pega e sai com essas pessoas”, declara dona Maria Doraci preocupada com mais uma recaída do neto nas drogas.

Enquanto conversamos o neto de dona Doraci destaca os tipos de drogas que ele chegou a usar no início. A avó escuta e chega a questionar o nome. “O que é ‘beck’?” Pergunta a aposentada para o neto, que responde se tratar de maconha droga que ele afirma somente experimentar. Mesmo não sendo homossexual o adolescente chegou a praticar sexo com todo tipo de gente, de funcionários das usinas a caminhoneiros. E tudo para alimentar o vício das drogas. 

“Aos nove anos eu tinha um cabelo grande igual de uma menina. Os caras gostavam disso e acho que por isso que saiam comigo por eu ser criança. As outras vezes eu batida na porta dos caminhoneiros, eles abriam daí entrava fazia o que tinha que fazer me pagava e saia me drogar.”, relata o adolescente Adão C.B. de 17 anos.

O sofrimento da aposentada que nos pedi para que aconselhe o neto até seria insignificante caso tivesse que disponibilizar seu tempo somente para cuidar dele. A mãe do jovem que é filha de dona Doraci também é viciada em drogas. O pai abandonou o filho logo nos primeiro meses de vida. 

 

“Meu primo foi quem me levou para as drogas aos nove anos. Sem dinheiro pra comprar pedíamos fiado nas bocas fumo. Aqui em Jacy em toda esquina tem uma. Primeiro foi a mela, depois me convenceram usar maconha. Cara, eu fiquei muito ruim a primeira que usei. Houve uma vez que fiquei seis dias sem tomar banho e vim pra casa só usando droga com os caras que vinham aqui e comprava mim. Aos 14 anos eu não sabia mais o quê fazer da vida, daí pensei! bom já que vou morrer é melhor que seja nas drogas mesmo”, declara ele.

Por trás desse rosto existe um sofrimento que o rapaz quer esquecer, mas, ouvindo seus relatos é preciso mais que força de vontade pra resistir os perigos que rondam a mente e a casa dele. Quase todos os tios são dependentes químicos. E da forma que pode dona Maria Doraci tentar sozinha desviar o restante dos netos do violento mundo das drogas e da criminalidade, mesmo ela sabendo que isso pode ser uma tarefa complicada para uma pessoa já na sua idade. 

“Não tenho mais idade para sonhar. Me resta lutar para que meus netos não tenham o mesmo fim dos tios que caíram nas drogas”. Ela começa a chorar: “eu choro porque me deixa triste. Nunca pensei na minha vida passar por isso de ver meus filhos e netos no meio de disso”, declara dona Maria Doraci.

As obras das estatais continuam más, o número de operários diminuiu gradativamente após o fim das várias linhas de montagens. Dos vários relacionamentos ocorridos nesse período nasceram muitas crianças, que vieram ao mundo e hoje são criadas por mães solteiras ou pelos avôs, como é o caso da aposentada Maria Doraci. São os chamados filhos de ‘barrageiros’ em alusão aos funcionários das estatais. Crianças que a partir de agora dependem exclusivamente da sorte para sobreviverem a um lugar com poucas perspectivas. 

“Muitas. Aqui em Jacy é um reduto de crianças que vivem abandonadas e agora morando com mães solteiras ou os avós. São várias as conseqüências para isso. O Conselho Tutelar funciona mas de acordo com o investimento que o município faz. Não temos muito a fazer”, denuncia a ex-assistente social Hélia de Jesus Bernardo.

As conseqüências da chegada de milhares de pessoas a Jacy – Paraná com a vinda das usinas hidrelétricas é por enquanto um dado e um cenário paliativo do que realmente poderá acontecer com o local após a conclusão das obras. Mas, a princípio o que constatamos não é nada agradável para um distrito que surgiu em meio à faraônica construção da Estrada de Ferro Madeira Mamoré. Jacy-Paraná um vilarejo carregado de história tornou-se uma terra de bravos resistentes, de pessoas que já não se importam nem mais em mostrar o rosto pra denunciar as várias mazelas que foram obrigadas a aceitar. Um pedaço de chão que tão pouco retornará ao seu estado de antes.

Edição de Vídeo: Leandro Collins

Fonte: NEWSRONDONIA

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