Quarta-Feira, 21 de Setembro de 2016 - 11:00 (Colaboradores)

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MINI HOLOCAUSTO - Por Max Diniz Cruzeiro

Tínhamos 5 anos, 6 anos, 8 e 15 anos. Escassez absoluta de alimentos, eram abundantes apenas o arroz, o feijão e às vezes os pedaços de carne que eram enlatados e embebedados em gordura de porco.


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Tínhamos 5 anos, 6 anos, 8 e 15 anos. Escassez absoluta de alimentos, eram abundantes apenas o arroz, o feijão e às vezes os pedaços de carne que eram enlatados e embebedados em gordura de porco.

Poucos tinham TV colorida, a nossa diversão era brincar na rua. As brincadeiras eram meia violentas, em meio a revolta pela falta de recursos.

Os mais velhos simulavam a ditadura na forma de brincadeiras cuja principal forma de expressão era denominada CARNIÇA.

A Carniça era uma brincadeira em que os perdedores sofriam humilhações na forma de tapas, beliscões e passavam a ser perseguidos e vítimas de bullying. Os perdedores tinham a opção de serem usados como instrumento de saciedade do desejo sexual dos mais velhos ou deixar que as marcas das pancadas proliferassem sobre o corpo.

Todo o procedimento de tortura era feito longe do alcance dos pais que não tinham consciência do que estava acontecendo.

Enquanto isto, em 1980, uma forte ditadura reprimia ainda mais os revoltosos, razão que as brincadeiras ficavam cada vez mais violentas em que a ira dos mais velhos era revertida sobre os pequeninos.

Um estado de pânico e apavoramento tomou conta de todas as crianças. Os adultos se esforçavam em ser solidários e fazer com que as boas concretizações chegassem para todos.

A CARNIÇA consistia primeiramente em uma regra em que todas as crianças ficavam curvadas com a finalidade de se formar um túnel em que cada um deveria passar por cima do dorso do outro. Quem não conseguia cumprir o objetivo da tarefa era humilhado como demonstração de indignidade perante o clã. A humilhação era tapas e bullying sobre as partes anais do indivíduo perdedor.

Quando os pais começaram a perceber o comportamento hediondo e revoltoso dos mais velhos com o sentido de preservação e pressentindo mudanças no comportamento dos mais aflitos comeram a escalar uma vigília e a chamar discretamente os menores para dentro de casa sem que os mais revoltosos dessem conta da manobra de preservação das crianças.

Era muito comum um processo de chantagem por parte dos mais velhos do oferecimento do pênis como forma de um processo natural de comportamento.

Que se convertia em seguida em um processo doloroso de culpa, onde os incitantes começavam a tecer relações de extermínio, repressão, maus tratos e toda a sorte de humilhações para que os fatos fossem escondidos.

Ao mesmo tempo que o horror se instalava uma atração pela compreensão do clamor popular aproximava as vítimas dos seus sequestradores de alma.

Isto gerou uma atratividade em prol de satisfazer o desejo libidinoso dos mais velhos e a fazer com que os menores cada vez se ajustassem em situações em que o fator de repressão estaria presente a fim de que o próprio corpo fosse oferecido em sinal de agrado para os “heróis” que lutavam contra um sistema bárbaro e servil.

Isto tudo aconteceu no Brasil, e ninguém ficou sabendo. Ondas e mais ondas de extermínio na forma de humilhações que justificavam a agressão do corpo de forma continuada e servil.

As crianças pela falta de recursos passaram a sentir atração pelo roubo ou pelo furto.

E mesmo quando repreendidas, muitas delas voltavam a repetir os atos de insanidade. Fator desencadeado pela elevação da expectativa que quase sempre era frustrada, seguida de uma onda de merecimento que aproximava a percepção de que o objeto poderia ser furtado.

Era muito comum o delírio provocado pela carne de porco contaminada pela Teníase. E os tratamentos eram demorados e o temor da fase demoníaca encarregava-se ainda mais de tecer sobre a mente das crianças ondas de medo que faziam com que muitos adentrassem em movimentos religiosos à procura de socorro.

Enquanto isto a repressão na rua continua cada vez mais a se alastrar. Os pais mais excitados replicavam as ondas de raciocínio em afetações em que um vício de agressividade claramente fazia afetar os seus filhos em torno de uma disciplina rígida, vista na forma de açoites através de cinto, corda e chinelo e madeira a fim de que a postura fosse a mais parecida com o modelo militar da época.

A tensão era cada vez mais instalada. Com o envelhecimento a falta de emprego deslocou para uma profissão de subtração milhares de pessoas onde a prática do roubo, latrocínio e descaminho passaram a incorporar muitas práticas cotidianas.

Se instalou um “jeitinho” para tornar práticas certas como uma forma de incluir a memória da privação. Uma memória que havia de ser carregada em sinal de uma mágoa que não deveria ser apagada, mesmo que isto representasse uma revolução em que fosse a terra limpa dos seres humanos que participaram deste processo de elevação da privação da sociedade.

O desejo de mudança não fora mais contido e em 1988 foi realizada uma nova constituição, em que muitos foram convidados para participar e propor regramentos que considerassem universais e de bom grado para toda a sociedade.

Muitos ficaram pelo caminho, principalmente no processo da educação. A diminuição da consciência humana foi fator relevante diante deste processo, ao aproximar pessoas cada vez mais da linha de afetação da existência. Mesmo com todas as dificuldades todos se ajudavam, se ressentiam quando a igreja interviu e partiram para processos dolorosos de pedidos de perdão e desculpa, uma vergonha que todos queriam esquecer que jamais deveria ser dita, mas que não pode ser apagada para não ser repetida.

Fonte: Max Diniz Cruzeiro

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