Quinta-Feira, 04 de Janeiro de 2018 - 11:33 (Saude)

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MEDICAMENTO A BASE DE JUCÁ PODE AGIR COMO COADJUVANTE NO TRATAMENTO DA LEISHMANIOSE

De acordo com o doutorando em inovação farmacêutica Bruno Bezerra Jensen, que está desenvolvendo o estudo, a proposta da pesquisa é desenvolver um medicamento alternativo e com uma via de administração mais simplificada, como a via tópica.


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Silane Souza
Manaus (AM)

O jucá (Libidibia ferrea), árvore amazônica utilizada pelos ribeirinhos como remédio caseiro para diversas enfermidades, pode ser transformado em um novo medicamento alternativo, associado à medicação preconizada pelo Ministério da Saúde, o Glucantime, para agir como coadjuvante no tratamento da Leishmaniose. O resultado faz parte de uma pesquisa que está sendo desenvolvida no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTIC).

De acordo com o doutorando em inovação farmacêutica Bruno Bezerra Jensen, a pesquisa está na fase de experimentação pré-clínica e os dados obtidos mostraram que o grupo controle que não recebeu tratamento com a microemulsão (uma formulação translúcida) incorporada com a fração de diclorometano obtida do jucá teve uma evolução clínica das lesões cutâneas de 300% maior do que o período do inóculo inicial (aquele que dá origem às primeiras infecções) do parasita.

Já as lesões tratadas com a microemulsão incorporada com a fração de diclorometano tiveram um crescimento de apenas 25%. Na comparação entre os grupos tratados – um com a microemulsão e o outro com o Glucantime, medicação preconizada pelo Ministério da Saúde (MS) como primeira escolha para o tratamento da leishmaniose –, foi possível observar que não houve diferença estatística quanto à evolução das lesões.

Isto significa, na opinião de Jensen, um aspecto bastante positivo, pois o tratamento da leishmaniose poderia ser complementado com o produto microemulsionado, à base de jucá, aumentando a eficácia do tratamento e reduzindo os efeitos colaterais apresentados a partir da administração da medicação única indicada pelo MS.

“A partir daí surge à necessidade de novas alternativas para buscar um medicamento mais eficaz e com menos efeitos colaterais”, destacou.

Conforme ele, o próximo passo é aguardar o pedido de patente para que possa prosseguir com a pesquisa no desenvolvimento de um medicamento alternativo. Para a criação desse produto, porém, é preciso alcançar algumas etapas, como o isolamento da molécula mais ativa e aprimorar a formulação farmacêutica, pois assim, será viabilizado um medicamento com mais eficácia e com mínimas reações adversas.

“Estamos procurando colaboradores para proporcionar o avanço da pesquisa que vem demonstrando resultados positivos”, enfatizou.


Doutorando Bruno Jensen estuda o jucá como novo fármaco contra leishmaniose. Foto: Luciete Pedrosa/Ascom Inpa

A pesquisa foi objeto de mestrado do farmacêutico Bruno Bezerra Jensen durante um ano de experimentação (2016). Agora, ela prossegue no doutorado em Inovação Farmacêutica da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) com orientação da pesquisadora Antonia Maria Ramos Franco, líder do grupo de pesquisa do Laboratório de Leishmaniose e Doenças de Chagas/Inpa que vem investigando os estudos de frações da árvore do jucá.

Saiba mais

O jucá, árvore nativa do Brasil, amplamente distribuída nas regiões Norte e Nordeste, possui entre outras comprovadas propriedades terapêuticas ações antissépticas, antienvelhecimento, antioxidante e antipigmentação. Também atua como adstringente, antidiarreica, cicatrizante, sedativa, tônica, antiinflamatória, expectorante e afrodisíaca.


Árvore Jucá. Foto: Antônio Lima

Alternativo e mais simples

De acordo com o doutorando em inovação farmacêutica Bruno Bezerra Jensen, que está desenvolvendo o estudo, a proposta da pesquisa é desenvolver um medicamento alternativo e com uma via de administração mais simplificada, como a via tópica.

Ele destaca que as medicações disponibilizadas pelo Ministério da Saúde são aplicadas de formas injetáveis e apresentam inúmeras reações adversas. Outro ponto que deve ser destacado, são os pacientes que são acometidos com doença e residem em áreas mais longínquas, não possuem assistência adequada para proporcionarem a cura dessa enfermidade. “Então, um medicamento com maior eficácia e mais fácil administração estaria solucionando essa problemática”, exemplificou.

Esse medicamento, de acordo com Jensen, possui o papel de facilitar a terapia de pacientes com Leishmaniose, e com as recomendações de profissionais habilitados, poderá ser feito autoadministração, diferente do medicamento disponibilizado nas redes de saúde pública, que necessita de um profissional de saúde para que seja aplicado.

“Vale lembrar que a corrida para o desenvolvimento de uma terapia alternativa foi dada largada há algumas décadas, pois a medicação de primeira escolha no Brasil, o Glucantime®, é utilizada a mais de meio século”, disse.

O doutorando revelou que o estudo com o Jucá foi motivado pala presença de inúmeros benefícios farmacológicos já comprovados, como a atividade anti-inflamatória, antimicrobiana e cicatrizante.

“Quanto a atividade antileishmania, foi identificada através de experimento anteriores, por integrantes do nosso grupo de pesquisa, como a Drª. Claudia Dantas que utilizou essa espécie vegetal para estudos pioneiros para a elaboração de sua tese de doutorado. Portanto, a partir dos resultados positivos, nos motivou a continuidade dessa pesquisa”, contou.


Antonia Franco (Inpa), Clauda Dantas e Bruno Jensen. Foto: Luciete Pedrosa Ascom Inpa

Importante e de extrema necessidade

A pesquisadora Antonia Maria Ramos Franco, líder do grupo de pesquisa do Laboratório de Leishmaniose e Doenças de Chagas do Inpa, disse que o desenvolvimento de novos fármacos para o tratamento da Leishmaniose é importante e de extrema necessidade para um País que necessita reduzir os custos com relação ao tratamento de uma doença considerada negligenciada – aquelas causadas por agentes infecciosos ou parasitas e que afetam, principalmente, as pessoas de menor poder aquisitivo do mundo.

“Somos especialistas na realização de pesquisas científicas envolvendo este tipo de enfermidade, que é considerada um grande problema mundial, não só no Brasil”, afirmou a pesquisadora.

“Agora, estamos iniciando uma nova etapa que vem a ser a busca por parceiros que tenham interesse em produzir esse fitoterápico à base de jucá em escala industrial, como método alternativo auxiliar no tratamento da leishmaniose e estamos abertos para novas parcerias”, ressaltou.

Casos da doença aumentam no AM

Em 2017, foram notificados 1.604 casos de leishmaniose no Amazonas, um aumento de 73,7% em relação ao mesmo período do ano anterior, quando foram notificados 923 casos da doença. Do total de 2017, 348 foram registrados em Manaus. Os dados são da Secretaria de Estado de Saúde (Susam), que oferece tratamento específico e gratuito para a doença.

De acordo com a diretora de ensino e pesquisa da Fundação Alfredo da Mata (Fuam), Monica Santos, a leishmaniose é uma doença causada por protozoários e é transmitida aos mamíferos por insetos vetores. A principal forma de evitar sequelas é buscar o tratamento adequado, que pode ser iniciado em qualquer unidade de saúde do Sistema Único de Saúde (SUS).

No Amazonas, os casos identificados são encaminhados para tratamento nas Fundações de Medicina Tropical (FMT) e Alfredo da Mata.  “O diagnóstico é feito através de três tipos de exame: clínico, direto para pesquisa do parasita ou histológico. O tratamento é feito com medicações injetáveis, sendo que os principais são o antimoniato de glucantime e a pentamidina”, explicou Monica.

Prevenção e combate

A Fundação de Vigilância em Saúde (FVC) recomenda como forma de prevenção evitar construir casas e acampamentos em áreas muito próximas à mata; fazer dedetização periódica; evitar banhos de rio ou de igarapé, localizados perto da mata, após as 17h, horário em que o mosquito costuma picar para se alimentar; se precisar entrar na mata, a trabalho ou a lazer, utilizar roupas de mangas compridas e passar repelente; utilização de telas protetoras de janelas e portas e repelentes para dormir.

De um modo geral, a doença pode ser dividida em leishmaniose tegumentar americana (cutânea), comum na região amazônica, e a leishmaniose visceral (calazar). Esta última não tem vetores aqui no Amazonas, no entanto, costuma ser a mais grave e pode levar à morte, conforme explica o diretor presidente da FVS, Bernardino Albuquerque.

Ele destaca que os parasitas causadores das leishmanioses são transmitidos ao homem por insetos vetores e pessoas com a faixa etária de 20 a 40 anos são mais suscetíveis, pelo fato de ser um agravo de transmissão silvestre onde pessoas com hábitos de extrativismo, caça, pesca e lazer são mais expostas. “No Brasil, existem seis espécies de protozoários responsáveis por causar doença humana e no Amazonas há registro de quatro, sendo eles: L. Guyanenses, L. Brasilienses, L. Amazonenses e L. Naiffi”. Ainda de acordo com o especialista, esses insetos têm hábito predominantemente diurno, atacando o homem e os animais.

“Os sintomas mais são comuns nos casos de tegumentar são úlceras, podendo atingir as mucosas nasais e assim causar deformidades irreversíveis”, revelou Albuquerque.  

Fonte: acritica

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