Domingo, 08 de Novembro de 2015 - 16:52 (Entrevistas )

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LIVRE

MARINA MENDES SOARES - A FILHA DO SERINGALISTA GREGO JOÃO SURIADAKIS

Marina que bem poderia ser hoje uma pessoa rica, não sabe dizer sobre as terras dos seringais de propriedade do seu pai.


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Há alguns anos tento ouvir a história da minha vizinha dona Marina, uma senhora simpática, divertida, daquelas que diz que não existe tempo ruim. Outro dia, à boca da noite, na banca de comida típica de propriedade de sua filha Elaine deliciando um mungunzá, consegui a história que queria e fiquei surpresa quando ela disse seu nome completo: Marina Mendes Soares Suriadakis. Surpreso por que João Suriadakis foi um dos mais poderosos seringalistas do Vale do Alto Rio Guaporé e pessoa de destaque na sociedade guajaramirense onde tinha uma dos maiores armazéns. João Suriadakis veio para Porto Velho com 18 anos para trabalhar na construção da Madeira Mamoré. 

É uma história fascinante. Marina que bem poderia ser hoje uma pessoa rica, não sabe dizer sobre as terras dos seringais de propriedade do seu pai. “São coisas que acontecem, meu pai foi pra Grécia e por lá morreu e meu irmão Eurípedes morreu também e eu não sei que fim levou nossa herança, é assim mesmo”.

Essa e outras história da dona Marina você fica sabendo na entrevista que segue:

ENTREVISTA

Zk – Vamos Falar sobre sua origem?

Marina – Nasci em 1936, fui criada mais em Costa Marques onde meu pai João Suriadakis tinha seringal, comercio e armazém.  A mercadoria ia de lancha de Guajará pra lá. Minha mãe se chamava Justa Mendes filha de mãe paraense e pai boliviano, por isso tenho sangue grego por parte de pai e boliviano/paraense por parte de mãe. Quando completei oito (8) anos de idade, meu pai me trouxe para estudar no internato do colégio Maria Auxiliadora em Porto Velho.

Zk – O que a senhora lembra da Porto Velho do tempo que estudou no Maria Auxiliadora como interna?

Marina – Aquela área perto do Maria Auxiliadora era tudo igarapé. Quando aprontaram o cine Lacerda (hoje Galeria Lacerda na 7 de Setembro) eu tinha era medo de entrar lá, porque ali era a Vila Confusão.

Depois fui morar em Guajará Mirim onde conheci o Alípio Pinheiro filho da dona Marieta e irmão desse Bainha que é sambista. Ele chegou como cabo do exército brasileiro, depois meu irmão o levou para trabalhar transportando mercadoria para os seringais do meu pai, sei que namorei e me casei com ele.

Zk – A senhora chegou a viver no seringal, aprendeu a cortar seringa?

Marina – Visitei algumas vezes o seringal do papai, mas, não cortei seringa até porque eu era a queridinha a filha do seringalista. Além de seringal meu pai tinha castanhal, poalhal. Naquele tempo eu ainda menina ouvia falar em poalha. Via minha madrinha fazendo saco. Um dia fazendo danação, ouvi aquele barulho: pou, pou, pou fui espiar e era os homens com ‘mão de pilão’ pisando poalha e colocando naqueles sacos. Aquela poalha era embarcada no barco do meu pai e levada para Guajará Mirim de onde pegava o trem pra Porto Velho e era embarcada nos grandes navios e levados para Belém e de lá para o mundo.

NR – A poalha também conhecida como poaia e ipecacuanha é uma planta medicinal, suas raízes contêm alcalóides importantes e valorizados no mercado internacional. Um deles - a emetina - é muito usado na fabricação de xaropes expectorantes, vermífugos e outros medicamentos. Mas não se deve fazer uso doméstico dessa planta, ela serve mesmo para indústria farmacêutica.

Zk – Vamos voltar para quando a senhora estudava no Maria Auxiliadora. Me fale sobre o período de férias de meio e de fim de ano?

Marina – Pra teu governo rapaz, meu pai pagava passagem de Litorina. Litorina só quem viajava eram os categas, quem tinha posse e eu era a filha do seringalista João Suriadakis. Algumas vezes viajava de trem porque tinha umas colegas bolivianas que vinham de Cocha Bamba e Riberalta e eu vinha com elas.

Hoje algumas pessoas me questionam, ‘poxa Marina teu pai era rico e você não tem nada’. Só respondo: é assim mesmo, meu pai foi pra Grécia e por la morreu e nós ficamos aqui sem eira nem beira. Meu único irmão Eurípedes Suriadakis morreu também e eu estou aqui, por essas coincidência da vida que ninguém sabe explicar, moro na rua Bolívia em Porto Velho.

Zk – E quando foi que a senhora resolveu fixar residência em Porto Velho?

Marina – Quando me separei do Alípio! Fiquei com vergonha de voltar a morar em Guajará, naquele tempo mulher separada era tratada com desdém pela sociedade, quando a gente chegava no ambiente às outras mulheres diziam: “vixe lá vem a separada”. Era assim, ninguém queria ter como amiga uma mulher separada. Para os pais a vergonha era maior. Por isso resolvi ficar morando em Porto Velho.

Zk – Quantos filhos a senhora teve com o Alípio?

Marina – Foi bem uns oito; Aníbal, Mimina, Neca, Ailton, Bene, Neno, Alice e Maria e agora tem mais de outro casamento; Eliete, Isabel, Lane e Moisés.

Zk – Já que estamos falando da região do Alto Guaporé. A senhora aprendeu a preparar tartaruga, tracajá?

Marina – Ave Maria a gente comia muito esses bichos de casco, porém eu nunca aprendi a preparar não, pra ser mais sincera, até me casar eu não sabia fazer nada, nem lavar e nem cozinhar. O negócio era tão rígido naquele tempo que eu tinha uma amiga que estudava no Auxiliadora e ela engravidou e o pai botou ela de casa pra fora. Naquele tempo menina que emprenhava não ficava em casa, ou casava ou ia embora pra rua.

Zk – Vamos lembrar quando a senhora veio morar em Porto Velho já casada?

Marina – Onde hoje é o Mercadinho do KM-1 era uma lagoa só. A gente morava no terreno da casa da dona Marieta mãe do Alípio, depois construíram o Murilo Braga, abriram a avenida Sete de Setembro e a cidade foi avançando. Depois fui morar numa estância que era de uma Boliviana na rua Bolívia, acho que foi daí que colocaram o nome de rua Bolívia (rua da boliviana) era tudo mato e nós fomos, eu a Nazira e a Julia Botelho na prefeitura, no tempo que o prefeito era o seu Castiel e ganhamos os terrenos onde moramos com nossas famílias até hoje. Depois que me separei, fui trabalhar no Cai N’água e apareceu um cidadão se dizendo dono do meu terreno, até o IPTU ele apresentou no nome dele, foi uma luta pra passar pro meu nome de novo. Até hoje esses terrenos não estão legalizados de fato na prefeitura, estamos lutando para conseguir o título definitivo.

Zk – O que a senhora fazia no Cai N’água?

Marina – Tinha bar e restaurante que era freqüentado por marítimos que vinham de Manaus e pelos pescadores. Quando chegou o garimpo de ouro não gostei era muito perigoso, era muita gente tanto de dia como a noite fiquei com medo e então vendi. 

Zk – A senhora era cutuba ou pele-curta?

Marina – Era do Renato (Pele-Curta), a Marieta comandava a ala feminina do Aluizio Ferreira, mas, a mim, ela não dominou não. Naquele tempo tinha comício no meio da rua e a gente cantava: “Doutor Renato será o vencedor” e para instigar os cutubas a gente saia em passeata cantando: “Se conforme com a Marize canela de sabiá...” a política naquele tempo era mais legal.

Zk – A senhora ainda freqüenta o grupo de 3ª Idade do Sesc. Como está a saúde?

Marina – Eu freqüentava todas as entidades de idoso Sesc, Recanto do Vovô e da Vovó, Igreja São José e Zequinha Araujo. No Sesc a gente viajava muito pelo Brasil afora, hoje ando doente não posso viajar por causa da pressão, do coração; não agüento nem dançar mais e olha que no Sesc eu dançava quadrilha, carimbó e muitas outras danças.

Antes gostava muito de ir dançar no Danúbio Azul Bailante Clube que era onde hoje é o Porto Shopping na Tenreiro Aranha. Até bem pouco tempo freqüentava o Flamengo aos domingos.

Zk – Para encerrar?

Marina – No tempo do seringal do meu pai, eu gostava de brincar no terreiro, pulando por cima das pelas de borracha. Hoje continuo brincando, pois o melhor da vida é viver! 

Fonte: Zé Katraca

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