Domingo, 17 de Julho de 2016 - 11:57 (Entrevistas )

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JÚLIO OLIVAR BENEDITO: SANTO ANTÔNIO - A CIDADE QUE NÃO EXISTE MAIS

Olivar foi fundo na pesquisa e nos mostra uma Santo Antonio cheia de vida social, urbana, inclusive com clube recreativo, e mais que ativo na política mato-grossense. Santo Antônio por muitos anos foi considerado o maior município do mundo, assim como o maior produtor de borracha do planeta.


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O jornalista, escritor, superintendente de turismo do estado de Rondônia Julio Olivar Benedito, vai apresentar a sociedade portovelhense, um dos livros mais completos sobre a história de Santo Antônio do Rio Madeira. “A Cidade que Não Existe Mais”. Julio apesar de não ser historiador de formação acadêmica, da um banho de história, de uma história jamais encontrada nos livros sobre a história regional e em especial a de Rondônia. Santo Antônio sempre é lembrada nos livros de historiadores especializados. como uma cidade violenta e imunda, pois todos se baseiam no famoso “relatório” escrito por Oswaldo Cruz quando esteve por aqui contratado pela empresa de Percival Farquar.

Olivar foi fundo na pesquisa e nos mostra uma Santo Antonio cheia de vida social, urbana, inclusive com clube recreativo, e mais que ativo na política mato-grossense. Santo Antônio por muitos anos foi considerado o maior município do mundo, assim como o maior produtor de borracha do planeta.

Tive a honra de ter acesso ao livro, inclusive já o li todo. Posso afirmar que apesar do autor dizer, que a linguagem utilizada em sua concepção é a jornalística, aconselho todos os estudiosos da história de Rondônia e em especial a de Porto Velho, ler a história da Cidade que Não Existe Mais. Pode não ser uma livro de história, mas, é para historiador pesquisar.

ENTREVISTA

Zk – Você é de onde?

Júlio Olivar – Sou de Minas uma cidadezinha chamada Poço Fundo que até hoje tem 15 mil habitantes e fica quase na divisa com o estado de São Paulo. É um universo caipira de onde herdei esse sotaque, esse jeito de ser e de ver o mundo.  Nasci em 1973. Moro em Rondônia desde 1998.

Zk – Por que Rondônia?

Júlio Olivar – Vim pra conhecer. Sempre nas férias eu saia para algum lugar do Brasil a grana era curta e por isso viajava de ônibus e nisso de conhecer, passei por 18 estados. Tinha férias que ia a três, quatro estados. Era uma faculdade informal que fazia e nisso, conheci Vilhena e lá encontrei uma colônia de mineiros, uma gente afinada com a minha cultura e me encantei com a cidade, tanto que em dez dias já estava morando la. Estava com 24 anos de idade.

Zk – Fazendo o que?

Júlio Olivar – Na época já militava na imprensa como jornalista autodidata. Trabalhei na Rede Amazônica, Folha do Sul um semanário que considero o melhor tablóide do interior de Rondônia, escrevi para vários sites enfim, vivi disso durante muito tempo, até entrar na política. Eu morava em Vilhena faziam cinco anos e participei da criação do PC-do-B. Fui candidato a vice prefeito isso em 2004 quando o candidato foi o senador Chico Sartório. E em 2006 fui candidato a vice governador na chapa da Fátima Cleide, foi a eleição que o PT teve a maior votação (190 mil votos) no estado de Rondônia.

Zk – E esse envolvimento com a literatura?

Júlio Olivar – No ano que desembarquei em Rondônia 1998, Vilhena estava fazendo 21 anos de emancipação e então fizemos a 1ª edição de um suplemento que circulou junto com a Folha do Sul que se chamava “Vilhena 21”, um material que a gente fez em cima de depoimentos de moradores antigos da cidade. Sempre tive esse ideal. Por onde passo procuro revisitar a história. “A Cidade que Não Existe Mais” que conta a história de Santo Antônio do rio Madeira que será lançado oficialmente no próximo dia 28 deste mês, é o meu quinto livro, mas já tem outro na editora que é a biografia do Vespasiano Ramos tido como precursor das letras no estado de Rondônia e que está fazendo 100 anos da publicação do livro “Coisa Alguma”. Meu primeiro livro foi “O Mistério do Cônsul” que sobre a história do primeiro cônsul da Suécia/Noruega no Brasil. Junto com D. João VI em 1808 chegou o primeiro cônsul radicado no Brasil Lourenço de Westin e ele está sepultado em Poço Fundo. Depois publiquei “Ruas que Andei”; “O Notívago” primeiro e único livro de poesia; “Caminhos de Rondon” e agora “A Cidade que não Existe Mais”.

Zk – Como nasceu o livro A Cidade que não Existe Mais?

Júlio Olivar – Ha uma lacuna na verdade, no entendimento dos próprios historiadores. Quando eles falam que a Estrada de Ferro Madeira Mamoré é o inicio de tudo, sendo que a Madeira Mamoré decorreu da existência de um povoado que existia desde o século XVII fundado por Jesuítas que deu origem a cidade de Santo Antônio oficializada em 1912 e não se falava nada sobre essa cidade é como se ela fosse sempre uma Vila de Porto Velho quando na realidade, era uma cidade co promotoria, judiciário, executivo, com jornal, com destacamento da Policia Militar, com cadeia pública enfim com tudo que existe numa cidade. Os primeiros 08 apenados condenados em Rondônia cumpriram pena em Santo Antônio. O famoso navio Satélite que tem um link com a história nacional. O primeiro livro publicado sobre turismo no Brasil foi escrito por Mário de Andrade por conta de uma experiência que ele viveu no município de Santo Antônio. É bom que se diga que a Estrada de Ferro Madeira Mamoré percorria apenas 7 km em solo amazonense que era o trecho Porto Velho/Santo Antônio e dali pra frente era tudo Mato Grosso (359 km) e Santo Antonio só deixou de pertencer a Mato Grosso quando da criação do Território Federal em 1943. Então Santo Antônio é o embrião de Rondônia e não a Estrada de Ferro. A Mesa de Renda justificava como sendo Santo Antonio o maior município do mundo, logo era o maior produtor de látex do planeta. A área territorial de Santo Antônio (mais de 300 mil quilômetros quadrados) era quase o dobro da Itália por exemplo.

Zk – Quanto durou a pesquisa que resultou na publicação do livro?

Júlio Olivar – Foram dois anos. O instituto de Memória da Assembléia Legislativa de Mato Grosso tem muita coisa sobre Santo Antônio porque tinha deputado estadual eleito por Santo Antônio. José Adolfo que ergueu o obelisco em comemoração ao Centenário da Independência do Brasil em 1922 que existe até hoje, foi deputado estadual. Joaquim Tanajura era vinculado diretamente ao governador Costa Marques por quem foi nomeado prefeito de Santo Antônio.

Tudo que se tem em Porto Velho como a Maçonaria nasceu em Santo Antônio no Distrito de Jacy Paraná, o jornal Alto Madeira teve como embrião o jornal Extremo Norte que era do Tanajura que foi o primeiro jornalista atuante, primeiro médico fora do mundo da EFMM. O primeiro advogado que atuou nessa região Manoel Amaro; Raimundo Cantuária que era capitalistas um dos homens mais ricos da região morava em Santo Antônio, o cunhado dele que era o Aureliano Borges era dono do seringal Canaã que deu origem a Vila dos Papagaios que hoje é a cidade de Ariquemes, onde Rondon se hospedava e criou um posto da linha telegráfico. Forte Príncipe da Beira era Distrito de Santo Antônio. Os maiores seringais do planeta eram localizados no município de Santo Antônio.

Zk – Os seringalistas bolivianos também são destaque em algum trecho do livro?

Júlio Olivar – Nicolás Suarez – El Bigodon juntamente com seu irmão vieram e se radicaram no que hoje chamamos de “Casarão dos Ingleses”. Nicolas Soares participou ativamente do conflito entre Acre e Bolívia. Existe na Bolívia um Departamento com seu nome, ele foi o “Rei da Goma” era um dos homens mais ricos do mundo, ele foi acionista da EFMM. Lembrando que o conflito Acre x Bolívia culminou com a assinatura do Tratado de Petrópolis que fala em Santo Antonio como ponto inicial da Estrada Ferro Madeira Mamoré até porque Porto Velho não existia. Na época que a EFMM começou em Porto Velho todos os jornais se referiam apenas a Rio Madeira, os cartões de visita que tenho cópias de alguns, também se referiam a Rio Madeira e não a Porto Velho inclusive jornais que circulavam em inglês ou era alto Madeira ou Rio madeira

Zk – Por que chamam de Casarão dos Ingleses?

Júlio Olivar – Porque realmente alguns ingleses moraram lá. Aquele local já foi muita coisa Mercearia, Estação da Estrada de Ferro, Posto Telefônico. Esse termo “Casarão dos Ingleses” é uma coisa recente. Eu tenho a planta da edificação e nada consta sobre essa denominação.

Zk – Os historiadores só falam sobre o famoso relatório de Oswaldo Cruz que diz horrores sobre Santo Antônio, porém no seu livro a gente encontra uma outra visão. Como era a vida social na cidade à época?

Júlio Olivar – Tinha banda de música, clube recreativo, o Joaquim Augusto Tanajura que foi o primeiro prefeito era boêmio, inclusive seus adversários políticos diziam que ele era chegado ao “copo” a boa mesa, ele tinha mordomo. A primeira escola instalada em Rondônia foi em 1914 em Santo Antônio. Falando em Tanajura ele era muito intrépido com os adversários ele mandava bater literalmente, existem diversos registros policiais que hoje fazem parte do arquivo do Tribunal de Justiça do estado de Rondônia dando conta de um perfil bastante truculento do Tanajura. Ele chamava os adversários de “perrengues” como foi o caso de Vulpiano Machado o primeiro Promotor de Justiça que atuou em Santo Antônio que tomou posse no mesmo dia da posse de Tanajura como prefeito em 1912. Entre o afrontamento político entre os dois houve a morte de um soldado esse caso de verdadeiro bang bang está no livro.

Zk – Existia rivalidade entre o Amazonas e Mato Grosso?

Júlio Olivar – Existia. Manaus era a capital de tudo, por exemplo: a prelazia que atendia Santo Antônio era de Humaitá até porque a viagem à Manaus era feita em seis/sete dias e pra ir a capital de Mato Grosso Cuiabá se levava 72 dias porque tinha primeiro que chegar a Vila Bela da Santíssima Trindade de barco e depois no lombo de mulas até Cuiabá. A influencia da cultura dos português que vinham de Belém e Manaus era muito intensa enquanto que Joaquim Tanajura por ser maçom utilizava a igreja para as reuniões da maçonaria. Em 1922 o padre chegou de Humaitá para rezar a missa e encontrou uma verdadeira festa dentro da igreja com banda de música e tudo mais era festa da maçonaria, inclusive havia tido um baile na noite anterior. O padre excomungou a localidade e foi embora, dizendo que não voltava mais. Essa história está no livro de tombo da igreja católica.

Zk – Vamos parar de falar sobre o que consta do livro se não o povo não vai comprar. Quando será o lançamento?

Júlio Olivar – Vai ser no dia 28 deste mês de julho na Biblioteca Francisco Meirelles.

Zk – Agora vamos falar da sua função como superintendente de Turismo do Estado de Rondônia. Ultimamente você tem desabafado sobre a falta de apoio ao setor. Por exemplo, ninguém relaciona o Memorial Rondon que esta instalado justamente em Santo Antônio com a SETUR Por quê?

Júlio Olivar – Esses dias estava assistindo um comercial na Televisão a Usina dizendo que o Memorial foi feito em parceria com o exército e a Universidade Federal – Unir. Eu queria saber qual o papel da Unir naquele espaço. O museu foi feito com recursos de compensação da Usina destinado ao estado e ao município, foram 3 milhões empregados e depois ainda houve um aditivo no valor de 400 mil através de uma emenda coletiva dos deputados estaduais para compra do acervo. Portanto não tem nada com Universidade Federal.

Estamos fazendo um trabalho de reconhecimento de dívidas para pagar as contas atrasadas e assumir pra Setur o desafio que consiste em manter o espaço aberto condizente com aquilo que foi pactuado com a Usina que é manter a limpeza mais a vigilância por dois anos e nós assumirmos sua administração porque se trata de um espaço cultural, político; faz parte do Marco Zero da cidade. Tem no Sítio Arqueológico Vila de Santo Antônio uma extensão da própria Estrada de Ferro Madeira Mamoré. A Estrada de Ferro propriamente dita é da prefeitura de Porto Velho ainda assim a gente tem feito intervenções pontuais, brigado para que eles também nos inclua na agenda da EFMM que acho que é uma iconografia importante pra trabalhar a questão do atrativo turístico, só que, de direito não temos obrigação para com a Madeira Mamoré porque a concessionária é a prefeitura.

Zk – E o prédio do Relógio?

Júlio Olivar – O prédio do Relógio que também faz parte da área do entorno pela catalogação do IPHAN a gente tem como objetivo montar o Memorial de Porto Velho. Porque Porto Velho em sendo uma capital diferenciada de todas as outras porque faz divisa com outro país, com uma dimensão territorial maior que muitos estados não ter um memorial sobre sua história é algo descabido. No prédio do Relógio que é grande temos como meta criar o Memorial de Porto Velho. Na prefeitura de Porto Velho não existe uma galeria de ex prefeitos. A grande pegada de Porto Velho é trabalhar sua imagem enquanto município tradicional, porque é o único município de Rondônia que tem mais de cem anos que tem ainda preservada algumas arquiteturas de seus casarios. Nós a Setur brigamos pela preservação da casa dos Resks que ia ser demolida. Brigamos judicialmente para que isso não acontecesse. Tem muitas coisas que a gente tem feito sem propalar muito na mídia. É bom que se diga com um  orçamento pífio com pouca gente trabalhando. Quando faço esses desabafos faço rifando minha própria cadeira. Não quero fazer da Setur um cabide de emprego, quero trabalhar, quero destravar o turismo, fazer as coisas avançarem, mas, preciso de ajuda.

Zk – Não seria ideal se eventos como o Arraial Flor do Maracujá em Porto Velho e o Festival Duelo na Fronteira de Guajará passasse a ser da alçada da Setur?

Júlio Olivar – Estive quarta feira com o superintendente da Sejucel o Ilmar Esteves que me parece uma pessoa muito bem escolhida pelo governador porque é nascido aqui, conhece de memória e é uma pessoa ilibada, idealista. Vamos fazer alguns termos de cooperação que não implica só a questão cultural, por exemplo: Porto Velho é a única capital brasileira que tem a pesca esportiva como atrativo turístico e como a Sejucel atua na cultura e no esporte vamos fazer alguns eventos relacionados a pesca esportiva. Na questão da cultura, informalmente a gente já atua junto veja: Enquanto que em Guajará ele promove a festa propriamente dita, nos entramos com a infra-estrutura porque os barracões dos dois bois que demos a ordem de serviço há duas semanas um negócio que vai ficar em torno de 3 Milhões é da esfera da Setur. Então, estamos trabalhando na questão da infra-estrutura e promoção do destino turístico de Guajará e ele na promoção da festa.

Zk – E o Arraial Flor do Maracujá?

Júlio Olivar – O Flor do Maracujá tem quase 700 Mil de recursos do estado e a Setur tenta transferir desde o começo como promoção do evento como sendo turístico e não consegue, porque está nas mãos de uma federação que faz a captação do recurso, faz a festa  e a festa termina assim mesmo. Nós do turismo, por exemplo, diferentemente da cultura, não fazemos o evento pelo evento. A cultura promove o livre evento, todo mundo vai se diverte e vai embora. Nós do turismo temos que mensurar o depois. Subiu enquanto o índice de ocupação do setor hoteleiro em decorrência de uma festa? Se não subiu nada aquele evento não é turístico. O Flor do Maracujá, por exemplo, tem uma importância na cultura de Porto Velho mais não faz crescer o movimento na cadeia hoteleira no município de Porto Velho, agora, há um potencial pra ser trabalhado no viés da comunicação da promoção. O Flor do Maracujá precisa ser vendido primeiramente internamente, ou seja, no estado de Rondônia, Tem que ser divulgado lá em Vilhena e nos demais municípios. O Flor do Maracujá hoje é só Porto Velho o que é um equivoco porque é uma festa de um brilhantismo tal que podia ser vendida internacionalmente por todas suas particularidades, pela sua beleza cênica. Temos que trabalhar a questão da promoção porque investimento já há do estado.

Zk – Como está o andamento do Museu de Gente?

Júlio Olivar – O Museu de Gente é uma idéia excelente do ponto de vista institucional porque nunca se fez algo no sentido de coletar depoimento das pessoas pra que elas reflitam e expressem a sua verdade, não é a história, mas, um ponto de vista dos atores dessa história. A dona Maria de Nazaré Silva que é uma militante da cultura, já coletou aqui em Porto Velho 40 depoimentos e no interior 35. Vamos criar um portal pra disponibilizar esses audiovisuais. Vai ser uma fonte de informação tal qual a existe em São Paulo no museu da imagem e do som ou no museu da pessoa que tem a mesma filosofia nossa. Vai servir de fonte de pesquisa de futuros trabalhos de ordem acadêmica.

Zk – Vamos encerrar falando sobre o lançamento do livro “A Cidade que Não Existe Mais”?

Júlio Olivar – Vai ser no dia 28 deste mês de julho às 19 horas na Biblioteca Francisco Meirelles. Teremos apresentação da orquestra da faculdade Fimca/Metropolitana agradeço ao Dr. Aparício Carvalho e a professora Lucineide Monteiro coordenadora do curso de música. Vai ser uma bela oportunidade para a gente falar da história de Porto Velho e de Rondônia. O livro apesar de não ser historiador, mas diria que é uma reportagem com olhar historiográfico. A linguagem que emprego é jornalista. Escrevi um livro apenas com o interesse que as pessoas conheçam essa história que jamais foi tratada em nenhum livro de história regional. Tem como objetivo não deixar esquecida a história de Santo Antônio do rio Madeira. 

Fonte: Zé Katraca

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