Domingo, 17 de Setembro de 2017 - 17:56 (Entrevistas )

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FRANCISCO MENDES - HISTÓRIAS DO TEMPO DA USINA DO SAALFT

Se fosse hoje, Chico seria considerado “Marido de Aluguel”, pois apesar de ser profissional especializado em mecânica de motores e eletricidade, sempre era contratado pelas madames categas e parentes, para fazer serviços tipo instalação elétrica, trocar botija de gás e reparos em carpintaria.


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Por Zé Katraca

Hoje aos 83 anos de idade, Francisco Mendes dos Santos mais conhecido como Chico, mora na Vila Tupi com sua filha Wanda. “Viemos morar aqui após uma enchente que alagou nossa casa no bairro Triângulo na década de 1970”. Se fosse hoje, Chico seria considerado “Marido de Aluguel”, pois apesar de ser profissional especializado em mecânica de motores e eletricidade, sempre era contratado pelas madames categas e parentes, para fazer serviços tipo instalação elétrica, trocar botija de gás e reparos em carpintaria.

Porém, no início da década de 1960, encabeçou o movimento que culminou com o enquadramento no quadro de funcionários da União dos trabalhadores do Serviço de Abastecimento de Água, Luz e Força do Território – SAALFT. “Isso quando o governador era o Dr. Mafra e o Goleiro era o chefe do SAALFT”. Nesse episódio foi suspenso e terminou por ser convidado pelos professores Lourival Chagas e Abnael Machado seus colegas de Dom Bosco para lecionar nas escolas do governo. “Isso demorou pouco porque conseguimos o enquadramento e o Goleiro foi exonerado”.

São história que o Chico conta na entrevista que segue:

Zk  - Vamos começar pela sua identificação?

Chico – Meu nome é Francisco Mendes dos Santos, porém sou conhecido como Chico. Nasci em São Carlos do Madeira no ano de 1935, meus pais são Narciso Mendes dos Santos e Raimunda Mendes dos Santos. Casei-me com a Zeneude Anastácio Macedo dos Santos – Zezé, no dia 25 de agosto de 1962 e vivemos juntos até bem pouco tempo, quando ela faleceu.

Zk – O que você lembra do Triângulo daquele tempo?

Chico – Era muito bom, naquele tempo o trem corria pra cima e pra baixo, a gente tinha como vizinha a família da professora Elisa Corsino que depois se casou com o sargento Chore e a gente se dava muito, a Zezé sempre ia pescar na beira do rio com o Chore e a Elisa.

O Periquito se fantasiava de mulher com aquela saia pequena, se maquiava todo e desfilava com sua escola que por sinal, era formada apenas por meninas.

Zk – Você trabalhou na Estrada de Ferro ou no Governo do Território?

Chico – Comecei a trabalhar na Madeira Mamoré. Estudava no colégio Dom Bosco, meu pai viajava e me colocou como semi-interno no Dom Bosco. Meu tio trabalhava na Usina de Luz que naquele tempo pertencia a Madeira Mamoré e esse tio arranjou emprego pra mim e eu ficava limpando os tornos. Vale salientar que eu não ganhava nada, a não ser uns trocados que os mecânicos me davam. Até que fui trabalhar na Usina com meu tio e então passei a ter vencimento. Eram dois motores a Gasogenio e um a Disel.

Zk – É verdade que naquele tempo a luz ia embora antes da meia noite?

Chico – A gente ligava  as seis horas da tarde e quando era 15 pra meia noite piscava a luz que era para o pessoal acender a lamparina ou candeeiro. Quando dava meia noite a gente desligava tudo. Cinco horas da madrugada voltava a virar o motor e ligava a energia que ficava até as 16 horas (quatro horas da tarde).

Zk – Por que desligava quatro horas da tarde?

Chico – Acontece que era preciso fazer limpeza nos motores, principalmente no motor principal que era americano a disel, que deu problema no eixo e como não tinha como mandar retificar porque era muito grande então tínhamos que tirar. Como eu era o menor da turma (Chico é baixinho), era quem entrava praticamente dentro do motor pra tirar as Bronzinas para o mecânico encher de metal, retificar no torno pra colocar de novo. Isso tudo tinha que estar pronto antes das seis horas da tarde. Isso acontecia todo dia. Até que um dia compraram dois motores holandês.

Zk – Você está falando de qual usina?

Chico – Era a usina administrada pela Madeira Mamoré que funcionava ali na Sete de Setembro justamente onde hoje é a Ceron. Depois passou para o governo do Território Federal do Guaporé/Rondônia com o nome de Serviço de Abastecimento de Água, Luz e Força do Território – SAALFT.

Zk – É verdade que a usina teve um administrador conhecido como “Goleiro” que desativou os motores e jogou as peças no mato?

Chico – Vou te contar um pedacinho dessa história. A gente tava trabalhando eu com o finado Dico. Nessas alturas eu já era mecânico pois fiz o curso pela National Escola da América do Norte eu e o Aragão da Usina de Borracha. Fui ligar a chave de tensão sem luva e peguei uma descarga elétrica muito forte, bati a cabeça e fui fazer tratamento em Manaus.

Os professores Lourival Chagas e Abnael Machado de Lima souberam que eu estava sem trabalhar e como a gente havia estudado junto no Dom Bosco me chamaram para trabalhar na Educação como professor. O Goleiro foi reclamar pro governador e o negócio fedeu a chifre. Terminei voltando pra Usina. Foi quando o Manoel Barros foi vitima de um tiro, quando estava caçando no Campo do Mário Monteiro (hoje 5º BEC) caiu e o rifle disparou atingindo sua perna. Aí descobrimos que não tínhamos direito a tratamento médico e nada, terminou que ele morreu ali.

Zk – O que você fizeram?

Chico – Como eu era o mais letrado e sabia datilografar a turma me elegeu líder e a noite, produzi uma carta de reivindicações e todo mundo assinou. O governador era o Dr. Abelardo Alvarenga Mafra e fomos entregar o abaixo assinado à noite em sua casa.

Ele prometeu que iria resolver. Todos nós éramos contratados como assalariados extra e ele realmente conseguiu nos colocar como funcionário federal do quadro da União. Fomos convocados a ir ao palácio Presidente Vargas assinar nossa nomeação. Foi então que dona Maria Tourinho talvez a título de brincadeira contestou nossa nomeação, dizendo, que a gente tinha entrado pela janela, quer dizer, não fizemos concurso para conseguir ser enquadrado como Federal.

Zk – E o Goleiro?

Chico – Como disse, existiam dois motores a gazogenio que eram movidos a caldeira que queimava lenha e quando chegaram os motores holandeses o Goleiro mandou desmontar os gazogênicos e jogou as peças no meio da rua do Coqueiro ou seja ao lado da Usina do SAALFT e a imprensa bateu forte dizendo que ele havia jogado os motores fora. O Goleiro não sei por qual motivo, mandava e desmandava no governo, só se deu mal com a nossa turma, na questão do abaixo assinado.

Zk – Então vamos contar?

Chico – Nossa turma pode se dizer, foi a fundadora da CERON, aí eu tinha feito um curso de eletricista. Quando a Ceron chegou foi preciso fazer o padrão das casas, o engenheiro era o Dr. Gaioto e ele selecionou seis eletricistas pra fazer o trabalho e eu fui um deles. Fui responsável pela instalação padrão de todo o bairro Caiari eu e o Areia. Essa foi  minha vida no governo de Rondônia,

Zk – Você era Cutuba ou Pele Curta?

Chico – Rapaz eu era Pele Curta, Os Cutubas eram aqueles caras metidos como o Goleiro e outros. O Pele Curta era do tempo do Renato Medeiros e o Renato também defendeu nosso enquadramento. Naquele tempo aquela parte alta (Caiari) era tudo Cutuba e nós  aqui de baixo era tudo Pele Curta.

Zk – Você se aposentou por tempo de serviço?

Chico – Me aposentei com 62 anos de idade. Acontece que aquele acidente da descarga elétrica me deixou três anos em tratamento quando voltei a trabalhar não aguentei mais e então me aposentei.

Zk – Por que vocês se mudaram do Triângulo para a Vila Tupi?

Chico – Houve uma alagação muito grande; Nossa casa ficava pro lado da beira do rio. Um dia já com á água dentro de casa, minha filha Dora acordou assusta dizendo que um bicho tinha tentado morder sua mão, então resolvi sair de lá. Tinha o João Maranhense que era comerciante forte e eu havia feito toda a instalação elétrica do seu comércio que era no Morro do Querosene. Só sei que o João soube do ocorrido pegou o caminhão e foi bater lá dizendo, vocês não podem ficar aqui vamos embora pra minha casa e nos levou mesmo. O Macedo ficou tomando conta da casa.

Zk – E a Vila Tupi?

Chico – Eu tinha um dinheirinho guardado na poupança e falei pro João que queria comprar uma casa e então fomos procurar e encontramos uma na Vila Tupi uma casinha coberta de palha, paguei a vista e até hoje moro aqui.

Fonte: Ze Katraca

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