Sabado, 30 de Dezembro de 2017 - 20:54 (Colaboradores)

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LIVRE

EM UMA CIDADE DISTANTE E ESTRANHA

Andar em cidade desconhecida e ver gente que não conheço dá um vazio existencial, um tipo de solidão em meio a multidão, certa nudez na alma.


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Nessa longínqua cidade, recebo um amistoso sorriso. Fico confuso e em resposta baixo os olhos num claro gesto de embaraço. Organizo os pensamentos, levanto os olhos mas já é tarde, o velho que me cumprimentou sentiu meu desconserto e seguiu seu caminho. Seu bigode amarelado em tom de fumaça lembrou-me que tenho uma carteira de cigarros no bolso da camisa. Não sei porque comprei, acendi quatro ou seis cigarros e não fumei a nenhum, resolvo acender outro, logo desisto...

Ainda estou pensando no velho, agora nem mesmo posso avistá-lo. O que tenho visto muito neste lugar são ruas e rostos desconhecidos, casas e corpos, fachadas e roupas, tudo é estranho pra mim. Andar em cidade desconhecida e ver gente que não conheço dá um vazio existencial, um tipo de solidão em meio a multidão, certa nudez na alma. Estranhamente dá uma sensação de imensa liberdade. É como se as ruas, praças, locais de nossas cidades, cidades que nos conhecem e nossa gente e pessoas de nossa família e nossos amigos nos prendessem naquilo que pensam a nosso respeito, como se fôssemos condicionados pelo que acreditam que nós somos.

É o que minha gente pensa a meu respeito que, de certo modo, me deixa um tanto desanimado. A impressão que tenho é que sou uma crônica mal escrita, ou pelo menos, mal lida e não compreendida. Todos nós somos textos expostos à leitura. Alguns mais fáceis, outros mais difíceis, mas todos legíveis. Crianças por exemplo, são como pequeninos poemas de Mário Quintana, trazendo graça às nossas vistas. Algumas pessoas são contos sombrios como os de Edgar Allan Poe. Há sempre aquela mulher que, por ter a alma de menina, em sua vida ler-se-á uma linda fábula a postos para um final feliz. Temos sempre algum parágrafo ou capítulo inteiro que não queremos que seja lido. São páginas que tentamos esconder sempre e sempre em vão.

Uma pessoa apenas parece haver conseguido ler até mesmo o que não está escrito, ou seja, as entrelinhas. Compreendeu a intensidade de meus adjetivos, os movimentos de meus verbos, e a fugacidade de meus pronomes. Leu e ficou feliz. Logo em seguida furou seus próprios olhos, cabisbaixou-se, deu-me as costas e foi-se na penumbra, atrás dos muros de sua teimosia.

Num último esforço busco a imagem daquele velho e seu gentil sorriso nessa estranha e quase hostil cidade. Definitivamente não encontro, jogo o cigarro aceso no chão, apago com a sola do sapato sem que ao menos tenha dado uma única tragada.

Jefrson Sartori

Fonte: Jefrson Sartori / News Rondônia

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