Domingo, 29 de Janeiro de 2017 - 12:58 (Entrevistas )

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EDSON FELICIANO MARCONDES: NEGO DE OURO – ALÔ POVÃO AGORA É SÉRIO

'Amo essa cidade, se não tivesse nascido no Rio de Janeiro gostaria de ter nascido em Porto Velho'


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Considerado um dos melhores interpretes de samba enredo das escolas de samba do Rio de Janeiro, Nego este ano será o tema da escola de samba “Independente de Nova América” da cidade de Nova Iguaçu onde nasceu Edson Feliciano Marcondes ou simplesmente Nego.

Nego veio a Porto Velho participar da festa dos 102 anos da instalação do município que ocorreu no último dia 24. “Amo essa cidade, se não tivesse nascido no Rio de Janeiro gostaria de ter nascido em Porto Velho”. Quem viabilizou a vinda do Nego foi o também cantor e compositor Beto Cezar. Muito considerado pelos sambistas da capital de Rondônia por ter sido o interprete em 1997, do samba da escola Acadêmicos do Grande Rio “Madeira Mamoré - A volta dos que não foram” cujo refrão é: “Cacagibe, Orum de Oiá, Oiá, Oiá. O Guaporé está em festa. Os vudus vêm pra brincar...” e pela simplicidade. Nego também se apresentou sexta-feira passada na Fina Flor do Samba projeto que acontece no Mercado Cultural toda sexta feira.

Essa entrevista foi gravada no na Roda de Samba do Bar do Vasco quinta feira onde Nego deu uma canja. As fotos são da Ana Célia.

ENTREVISTA

Zk – Na era Marquês de Sapucaí (Sambódromo), você e o saudoso Jamelão são os maiores vencedores do carnaval carioca. Vamos falar sobre esses troféus?

Nego – Como compositor, ganhei dez sambas de enredo na Marques de Sapucaí, Estandarte de Ouro tenho cinco eu e o Jamelão, isso vem desde de 1976 com o primeiro campeonato da Beija Flor. Nunca soltei Pipa, o samba sempre foi a minha vida.

Zk – Um pouco da sua trajetória como interprete e compositor de samba enredo?

Nego – Abrir o desfile na Marques de Sapucaí não é fácil e em 1993, abrir com o samba “No Mundo da Lua” pela Grande Rio. A Beija Flor depois que voltei meu sobrinho ganhou cinco sambas enredo e dois campeonatos, o último foi “Sou Nego na Raça no Sangue e na Cor”. O samba pra mim é religião, minha grande paixão é a música.

Zk – Qual o nome de batismo e como você se sente ao ser este ano tema de enredo de escola de samba?

Nego – Meu nome de batismo é Edson Feliciano Marcondes. Sou nascido e criado em Nova Iguaçu – Baixada Fluminense. Devido eu ter voltado para Nova Iguaçu e ter os sambas compostos pela família entre eles, dois deram o campeonato a Beija Flor “Roberto Carlos” e “Nego na Raça” o povo de Nova Iguaçu ficou muito feliz e então resolveu me homenagear com o enredo “Nego de Ouro”. Isso me deixa muito feliz, porque é o lugar onde nasci, fui criado e amo e tem mais, a escola de samba fui eu quem fundou.

Uma escola que está no Grupo de Baixo e de repente aparece no Grupo “A” e daqui a pouco pode aparecer no Grupo Especial, e tudo é da minha cidade. Tenho orgulho em dizer, que eu e o Neguinho da Beija Flor meu irmão, somos exemplo pra toda aquela população onde muito deles também já ganharam samba no Grupo “A”. Outro filho importante de Nova Iguaçu é o Zinho jogador da seleção brasileira responsável pela criação do time da cidade, assim como algumas escolas de samba foram criadas por causa de Neguinha da Beija Flor e Nego.

Zk – Quem levou quem para o Samba, o Neguinho ou você?

Nego – O Neguinho porque é o mais velho. Eu como caçula sempre o acompanhei. Levei muito cascudo para não estar no meio dos mais velhos, porém, sempre ficava, até que teve um tempo que não teve jeito. Em 1981 formamos (Eu e Neguinho) parceria com o Dicró e ganhamos nosso primeiro samba “Quem tem olho grande não entra na China”, depois ganhamos “Piná êh, êh, Piná” e cantamos juntos na Marquês de Sapucaí e a Beija Flor foi campeã. Em 1984 ganhamos de novo (Neguinho e Nego). Fui pra Unidos da Tijuca e lá ganhei quatro sambas de enredo isso me deixa muito feliz.

Zk – Quais escolas de samba você é considerado como responsável pela subida para o Grupo Especial?

Nego – A Grande Rio e a Tijuca: “Então eu sou Grande Rio amor...” e tem também pela escola de Caxias: “Ô luar ô luar...”. Na Tijuca: “Brasil oh Brasil”.

Zk – Aliás, o presidente da Tijuca patrocinou aulas de canto e até fonoaudióloga. É verdade?

Nego – É verdade sim. O Horta e o Mestre Maçal me ajudaram muito. Eu tinha o dom de cantar, mas, faltava alguma coisa que tinha que consertar, eu comia algumas palavras ou versos, até hoje faço aula de canto.

Zk – Você é casado, tem filhos?:

Nego – Casei em Nilópolis, separei, depois arrumei uma menina com quem tenho um filho que estar com 18 anos, um de 36 e uma filha de 29 anos de idade e tenho uma neta com 12 anos. Estou com cinqüenta e poucos, nasci em 1955. Comecei muito cedo! Quando fiz meu primeiro filho era praticamente um garoto.

Zk – Poucos interpretes de samba enredo permanecem na mesma escola de samba por muito tempo, exemplo: Neguinho da Beija Flor e Jamelão. Por quê?

Nego – Tenho a minha escola de coração, porém, antes do amor vem a necessidade, a família, daí termos que ir pra onde nos pagam melhor. Das grandes escolas de samba do Rio de Janeiro ainda não fui interprete oficial na Portela, Mangueira. A São Clemente foi eu que levei pro Grupo Especial também.

Zk – Como você analisa nos dias de hoje a disputa de samba enredo nas escolas do Rio de Janeiro?

Nego – É o seguinte: Hoje existe o “Escritório” que faz samba para todas as escolas e oferece um caminhão de dinheiro e com isso, é difícil você ganhar deles, tentamos em todos os sentidos e já ganhamos algumas vezes. É importante pra gente, saber que existe o “Escritório” e que podemos lutar pelo nosso objetivo que é bater essa instituição, ganhar e voltar a ser como era antes, ou seja, cada um por si e Deus por todos.

Zk – Como é que funciona o “Escritório”?

Nego – Eles concorrem em todas as escolas. É o seguinte: Junta três compositores de verdade que compõem os sambas, o restante entra com o financeiro pra contratar torcida, patrocinar gravação, divulgação em tudo quanto é meio de comunicação, inclusive carro de som, panfleto e o lanche da torcida, essas coisas.

Zk – Vale a pena o investimento. Aliás, qual é a premiação de um samba vencedor?

Nego – 600 Mil. No meu tempo dava menos. O samba que entra no CD do Grupo Especial ganha 10% (Dez Por Cento) sob a arrecadação dos bilhetes vendidos na Sapucaí. Mesmo com o escritório dividindo com muitos, dar pra sobreviver.

Zk – Além do Rio de Janeiro você puxa escolas em outros estados durante o carnaval?

Nego – Canto também há 15 anos, em Alegrete no Rio Grande do Sul. Lá os desfiles das escolas de samba são “Fora de Época”. Em Uruguaiana cantei 16 anos. Em São Paulo cantei na Vila Maria e na Vai Vai.

Zk – Qual sua ligação com a cidade e o carnaval de Porto Velho?

Nego – A primeira vez que estive aqui cantei na escola de samba Pobres do Caiari na época, o irmão do Paulo Santana o Buchada fazia parte do carro de som. A escola fez um grande desfile. Comigo veio da Grande Rio, estou falando do ano de 1997, a Porta Bandeira e o Mestre Sala, quem nos trouxe foi o Dr. Aparício Carnaval a época presidente da Caiari. É uma pena a Pobres Caiari ter parado de desfilar, era e é uma grande escola de samba. Aí moçada, tragam a Caiari de volta pra avenida! Olha, eu amo essa cidade, se eu não nascesse no Rio de Janeiro gostaria de ter nascido em Porto Velho.

Zk – Você não está no CD do Grupo Especial este ano. Por que?

Nego – Esse ano não gravei porque desenvolvemos um Projeto de Samba em Manaus. Resgatei alguns sambistas de Manaus e gravamos um CD que será tocado no Rio de Janeiro. Juro a você por tudo que é mais Sagrado que amigo meu, é pra vida toda. Conheci Manaus através de um samba de enredo que cantei em 1995 homenageando o Teatro Amazonas e a partir de então, todos anos estava em Manaus e formamos um time.

O sonho dos meus amigos compositores de lá é concorrer num concurso de samba de enredo numa escola do Rio de Janeiro e eles vão concorrer comigo no próximo ano. Olha só, levei um compositor chamado Alemão do Cavaco pra Mangueira e ele ganhou: “Mangueira é nação, é comunidade...”. Depois ganhou o samba que a Mangueira foi campeã no ano passado. Ele é de São Paulo e hoje mora no Rio e é meu amigo, ta ganhando muito dinheiro. É assim, muitos me consideram “Pé de Coelho” porque dou muito sorte àqueles que me procuram.

Zk – Quem quiser contratar o Nego entra em contato de que maneira?

Nego – Aqui, é só entrar em contato com o Beto Cezar que é um artista da cidade. O Beto independente de ser um grande cantor, grande compositor é meu amigo.

Zk – Para 2018 já tem algum projeto artístico?

Nego – Já! Vou pegar uma grande escola do Rio de Janeiro. Uma escola em busca de títulos.

Zk - Como foi que você se tornou o Nego da Grande Rio?

Nego – Na época o Laila era diretor de carnaval e a escola não tinha Ala de Compositores não tinha nada. Quando cheguei lá a escola não era essa escola de hoje, aí fui fazer o samba “Ô Luar ô Luar” com o Laila dentro de um Centro Espírita e eu fui pro Roncó já que não tinha Iaô nenhum, terminei o samba e entreguei pro Laila e ele disse, você criou o maior e melhor samba do carnaval!

Zk – E o bordão “Alô povão agora é sério” como nasceu?

Nego – Aconteceu porque fui pra Unidos da Tijuca e a escola desceu para o Grupo de Acesso e eu me senti na responsabilidade de colocar a escola de novo no Grupo Especial a aí ela subiu com o samba “As Três Faces da Moeda” do compositor Piedade. Ele ganhou o samba sozinho, mas, eu estava pro trás. O Fernando Horta presidente da escola descobriu que eu tinha feito aquele samba e então mandou eu compor o samba enredo para a escola se segurar no Grupo Especial e então compus “Brasil, Bar Brasil”.

Fonte: Zé Katraca

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