Sexta-Feira, 17 de Novembro de 2017 - 16:14 (Geral)

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LIVRE

DOCE VÍCIO - POR JEFRSON SARTORI

Ocorre que fui salvo com a descoberta, de certo acaso, de uma cafeteria adorável no centro de minha cidade.


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As tardes eram vazias e quentes! Vez por outra eu procurava em atividades cada vez mais desinteressantes me ocupar, ter algo de proveitoso pra fazer em cidade provinciana é artigo de luxo. Ocorre que fui salvo com a descoberta, de certo acaso, de uma cafeteria adorável no centro de minha cidade.

Minha consciência não me deixa continuar lhes narrando essa crônica sem que eu diga que há muito tempo penso que a palavra “acaso” é na verdade um recurso que lançamos mão por preguiça ou incompetência de pensar adequadamente nos porquês das coisas da vida. Tudo tem seus motivos, mesmo que não saibamos.

Eu era sempre muito bem recebido por duas mulheres que mantinham a beleza do lugar com algumas preciosidades. Suas próprias belezas com sorrisos de quem nunca estavam trabalhando, era óbvio de como se divertiam com o que faziam, um notável ode à vida. Local sempre limpo, com mesas cuidadosamente dispostas para dois objetivos: Melhor aproveitar o espaço; e também para que os clientes ficassem em boa posição para assistirem os shows exibidos na tv posta ao alto, quase ao centro do salão. Milton Nascimento, Fagner e Djavan eram presenças constantes e vez por outra me distraíam a esfriar o café que fora posto quente em minha xícara.

Devo dedicar aqui maior importância ao bate papo que as mulheres, Margarete e Bel promoviam, era de um prazer raro e doce. É cada vez mais difícil as pessoas dedicarem-se ao deleite de ouvir e falar coisas interessantes. Somos cada vez menos ouvintes e cada vez mais falantes.

Bel, acabara de vencer uma amarga luta contra o câncer e ensinava o valor da vida com a vivência de cada momento em singular alegria, e no vestir uma elegância de encher os olhos. Margarete, mulher de força e singeleza combinadas com carinho, de devota de seus filhos e um capricho cirúrgico na confecção das delícias (desde bolos a outras guloseimas) expostas para à venda e deleite de felizardos.

Era um tipo de redoma, um refúgio contra as mazelas de minhas tardes fora dali. Hesitei longamente dentro dessas lembranças, e fui tomado de um súbito assombro por perceber que passou mais tempo do que gostaria. Certa feita fiquei tão entorpecido pela paz do local que acabei esquecendo um livro que ganhara de presente dias antes, o livro foi guardado e tempos depois realizaram a fineza de me enviar – esse episódio me faz lembrar outro, áspero e triste.

Peço que me seja permitida a graça de ao menos lembrar, ainda que na distância com esmerado zelo e manso carinho dessas tardes. De certo modo eu me sentia um estranho príncipe no reino delas, é uma ilusão que conforta a minha alma na falta que me fazem, com bons momentos que surrupiávamos da vida, tornano-a um doce vício.

Jefrson Sartori
Novembro, 2017

Fonte: Jefrson Sartori / News Rondônia

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