Sexta-Feira, 20 de Outubro de 2017 - 11:09 (Colaboradores)

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LIVRE

DIA – LOGANDO: A VIDRAÇA - POR RENATO GOMEZ

Enfim, mesmo que chorássemos ou cantássemos, não seríamos ouvidos de dentro do aquário, tamanha é a incoerência de vidraças que não abrem.


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Eu trabalho no terceiro andar de um prédio que mais parece um aquário sem água. Uma fachada toda feita de vidros que não abrem. Somos peixes de aquário que em vez de “ornamentar”, trabalham. Pensando bem, somos como pássaros presos em um aquário, mas nosso trabalho não é cantar. Se bem, que a quem diga que não é canto, é choro que os pássaros emitem presos nas gaiolas. Enfim, mesmo que chorássemos ou cantássemos, não seríamos ouvidos de dentro do aquário, tamanha é a incoerência de vidraças que não abrem.

Aviões que passam, chegando e partindo, levando, para novos rumos, e trazendo, para novos destinos, pessoas. Pássaros livres voam, em bandos ou sozinhos, chegando e partindo. Os carros estão sempre colorindo o cinza da avenida, mas as cores por mais que sejam belas, são frias, são artificiais, são tintas. As cores naturais são as que realmente chamam a atenção. O branco das nuvens. O sol, que aqui é sempre quente, independente das cores. O céu ora azul, ora cinza, porém, sempre com vida. Os poucos verdes que ainda restam são de árvores que resistem, até quando não se sabe, vez ou outra os temporais ou os homens as derrubam. É irônico vê-las respirando entre os prédios enquanto produzem oxigênio para nós respirarmos.

Os prédios bem que poderiam trocar de lugar entre si, como móveis em uma casa, mas estão dispostos sempre com a mesma imponência, blindando novas paisagens, limitando o que está além. Minha programação diária se limita ao que está entre a “janela” do terceiro andar e os prédios que represam o horizonte. Eles são de diversos tamanhos e formas. Alguns são de órgãos públicos, outros comerciais e os demais residenciais. Daqui, da minha cadeira desconfortável, de trás da vidraça, parecem todos vazios. Não fossem as pessoas que transitam pelos espaços no entorno dos edifícios, não fossem os carros com suas cores artificiais, a cidade, daqui, pareceria deserta. É impossível ver o movimento dentro dessas montanhas de concreto. É impossível imaginar que há vida lá dentro. Mas há. Aliás, a vida acontece escondida nessa prisão disfarçada de Pós-Modernidade. Me sinto como um telespectador que assiste a um programa que não possui personagens. Talvez por isso as pessoas queiram tanto ver shows de realidade em que observam o que outras pessoas fazem presas dentro de uma casa.

Nos fins de tarde, quando estou a contar os minutos para bater o ponto e desligar-me dessa TV, um pouco de vida exibe-se na piscina. Crianças dando suas primeiras braçadas, eufóricas, sem imaginar que a vida se resume a isso: braçadas diárias para manter-se a salvo, para não afundar. Em alguns dias da semana (não sei quais, pois de tão iguais, já não distinguo um dia do outro), são idosos que se exercitam na piscina e mostram que, embora a vida se resuma a manter-se a salvo, ela também pode ser sobre apenas desfrutar de cada momento.

Quando saio do prédio e sinto o sol ou o vento ou a chuva; quando saio do prédio e sinto o clima natural, sem efeitos de condicionadores de ar; quando saio do prédio e vejo muitas pessoas transitando ao redor dele, todas com um semblante de alívio pelo fim de mais uma jornada, pelo fato de abandonarem seus robôs produtivos dentro do prédio; quando saio do prédio e vejo a vida acontecer fora dele, sem um vidro que não abre me bloquear; quando saio do prédio eu deixo de ser telespectador e passo a ser personagem da realidade. Eu sou um pássaro que rasga o céu em um voo de liberdade. E sou um peixe fora do aquário, mas não estou perdido.

Fonte: Renato Gomez/NewsRondônia

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