Quarta-Feira, 28 de Agosto de 2013 - 13:43 (Colaboradores)

CRÔNICAS DO VELHO PORTO: QUEM MEXEU NO MEU RATO?

O roedor permaneceu estático aguardando o primeiro ataque de seu algoz. Num piscar de olhos a vassoura atingia a pia e o ratinho parecia rir daquilo, já postado na parede.


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O cara levava uma vida monótona. De casa pro trabalho, do trabalho pro sofá da sala assistindo televisão até adormecer por ali mesmo e retomar sua rotina no dia seguinte. Quando a coragem permitia, lavava a louça entre uma ou outra comida de micro-ondas ou enlatada. Não tinha muitos amigos e os poucos que tinha não frequentavam sua casa e nem lhe convidavam a frequentar as suas. Era o típico antissocial.

Errada noite, enquanto dormia no sofá, ouviu um barulho de panelas caindo na cozinha. Levantou-se e foi correndo ver o que acontecia em sua casa sempre tão silenciosa, tendo apenas a televisão como desordeira sonora. Ao chegar na cozinha deparou-se com um pequeno camondongo; novinho, roliço e com o pelo acinzentado. Fitaram-se de cima embaixo, analisando a situação como dois cavaleiros prontos para duelar. O homo sapiens caminhou sorrateiramente para traz em busca de uma vassoura. O roedor permaneceu estático aguardando o primeiro ataque de seu algoz.  Num piscar de olhos a vassoura atingia a pia e o ratinho parecia rir daquilo, já postado na parede. Sentiu-se desafiado. O bicho encarava-o como se não pudesse ser capturado. Repetiu as vassouradas em vão. Puseram-se a encarar-se até que o bípede adormecesse postado à cadeira.

As lutas se repetiram por diversos dias e o ratinho conseguia esquivar-se de tudo que o homem inventava. Ratoeiras, venenos, golpes de vários tipos de “armas”, tiros de arma de pressão, estilingue, zarabatana, arco e flecha, sim ele tentou com arco e flecha e na ocasião conseguiu estourar um cano e inundou toda a cozinha. Passava os dias no trabalho aguardando ansiosamente a hora de chegar em casa e colocar em prática mais um plano infalível para capturar o felpudo inimigo. A Televisão nem sequer era ligada naquela casa há tempos.

Numa tarde, ao chegar do trabalho com algumas parafernálias destinadas à criação de mais uma engenhosidade para capturar o fiel anti-herói, notou algo diferente. O animal não estava na casa. Passou a noite sentado na cadeira aguardando que o animal aparecesse. Faltou ao trabalho. Permaneceu ali por dias, apenas se ausentando para comprar os alimentos que eram da preferência de seu companheiro. Percebeu que, inconscientemente, ele deixava sempre restos de comida para alimentar seu parceiro. Dias se passaram, voltou à antiga rotina para não perder o emprego. Ficou meses sem lavar louça deixando a casa um verdadeiro lixão para ver se outro rato aparecia. Porém, no máximo as baratas se atreviam, eram desprovidas de inteligência e acabavam sendo presas fáceis, não o desafiavam.

Foi ao final da rua onde havia um bueiro. Destampou e entrou no canal de esgoto. Desceu pelas escadas do fétido lugar e avistou milhares de ratinhos. Postou sua lanterna na direção dos animais para vislumbrar-lhes os olhos e escolher seu novo rival. Foi quando um dos animais fitou-lhe como o outro fizera. Imaginou ser o mesmo, mas não tinha certeza. A alegria tomou conta de seus corpo e de sua alma. Tentou capturá-lo, mas assim como outrora, sem sucesso. Há quem diga que, até hoje, todas as noites ele desce ao esgoto.

Fonte: Renato Gomez

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