Quarta-Feira, 17 de Abril de 2013 - 14:59 (Colaboradores)

CRÔNICAS DO VELHO PORTO: O PROBLEMA É O SISTEMA

Um dia, durante a aula, um aluno lhe acertou na testa com um apagador. Caiu desacordado e retomou os sentidos com a ideia de se candidatar a prefeito.


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Era um pobre professor. Pobre pela baixa remuneração. Pobre pela depressão. E mais pobre por saber que não passava de um peão nesse jogo de xadrez. Havia dado aula nas séries iniciais quanto para isso se pedia apenas o antigo magistério, agora era professor dos ensinos fundamental e médio, após formar-se em Língua Portuguesa.

Conhecia todo o sistema educacional de cabo a rabo, sabia seus pontos fracos e consequentemente os poucos pontos fortes. Estava cansado de tudo aquilo, mas toda vez que tentava inovar em sua metodologia de ensino era repreendido pela direção da escola.

Um dia, durante a aula, um aluno lhe acertou na testa com um apagador. Caiu desacordado e retomou os sentidos com a ideia de se candidatar a prefeito.

Candidatou-se. Em sua campanha não distribuiu nem um santinho e como era de um partido pequeno mal tinha tempo na televisão. Toda sua divulgação era verbal, marcava reuniões com os ex-alunos que lhe admiravam, os bons alunos reconheciam um bom professor, e utilizando sua principal arma, a oratória, atraía o povo para junto de si, mostrando os projetos que tinha para a educação.

“Não prometerei que em meu governo não terá corrupção, isso independe de mim, não prometerei obras faraônicas, bolsas isso ou aquilo, a única coisa que posso prometer e que farei cumprir é que a educação será valorizada.”

Para surpresa dos outros candidatos que zombavam do “professorzinho” ele se elegeu no primeiro turno. No dia de sua posse convocou os vereadores, seus secretários e assessores (Nomeou basicamente profissionais de carreira e relacionados à educação e/ou professores. Não que isso garantisse a honestidade, mas pelo menos era melhor do que o critério de nepotismo/apadrinhamento) e discursou sobre as diretrizes de seu governo, assim como fizera durante a campanha, porém em um tom direcionado:

“Em nosso mandato, sim nosso mandato, peço-lhes apenas atenção a uma coisa: EDUCAÇÃO. Se tiverem isso durante todas as suas atitudes não teremos corrupção, não teremos discussões desnecessárias e principalmente poderemos melhorar nossa cidade.

Aos senhores vereadores, antes da rivalidade política lhes peço que verifiquem se os projetos que forem colocados em votação interessam ao povo em primeiro lugar.

Aos meus assessores e Secretários este mandato é pautado na Educação e em mudança do nosso município a curto e longo prazo. No Primeiro ano quero acabar com todos os problemas do ensino infantil, no segundo ano com os problemas do ensino fundamental, no terceiro ano acabaremos junto com o governo do estado com os problemas do ensino médio e ao fim do mandato procuraremos o governo federal para acabar com as mazelas dentro da Universidade em nosso município.

Assim, com uma educação de qualidade teremos cidadãos conscientes para elegerem políticos conscientes. Por sorte me elegi mas os que me sucederem terão que ser por competência. Não quero deixar a cidade às mínguas, vamos dar as manutenções no que temos para que a cidade tenha cara de cidade, mas a prioridade é a educação.

EDUCAÇÃO, SENHORAS E SENHORES, esse é nosso lema.”

Foi aclamado. Ao longo de seu mandato foi odiado pelos políticos corruptos que desejavam a manutenção do sistema, com o velho lema de que povo burro é fácil de manobrar. O que se via eram as crianças saindo do ensino básico para o fundamental com boa iniciação na leitura, do ensino fundamental para o médio com qualidade na leitura e na escrita e do médio para faculdade com ótimo poder de argumentação e visão de mundo.

Foi Governador, o Estado tornou-se modelo.

Eleito Presidente, com todo o sistema em suas mãos, ainda assim sofria, pois o Sistema exigia trocas políticas, o toma lá dá cá, para ter seus projetos educacionais aprovados era obrigado a fazer vista grossa em várias mazelas políticas. E o problema é que o sistema sempre quis um povo burro porque é mais fácil de manipular. Se o povo não estuda, tem pouco poder de argumentação. Vende seu voto por comida quando passa necessidades. E o sistema se mantém, os políticos corruptos se mantém. O problema é que com as inovações educacionais do Professor-Presidente, ou vice-versa, o povo ficou esperto, a lógica dele estava funcionando, um povo com estudo ao longo do tempo seria um povo questionador, com maior poder de cidadania, e consequentemente teríamos profissionais mais capacitados.

O povo estava muito satisfeito com a educação, mas a infraestrutura do País estava ruindo e os benefícios aprovados para os políticos eram cada vez mais estapafúrdios. No terceiro ano de mandato o povo foi às ruas pedir esclarecimentos, e o Presidente-Professor, ou vice-versa, só tinha defesas quanto aos investimentos em educação, todos os outros investimentos ele assinou e cedeu em contrapartida política à sua utopia educacional. ESSE FOI O SEU ERRO. Não fiscalizou, nem sequer combateu a corrupção, acreditando que os fins justificavam os meios, e que a longo prazo seu plano eliminaria os corruptos naturalmente, ele deixou o sistema o engolir.

As manifestações aumentavam e foi em uma inauguração de um novo campus universitário que ele encontrou seu algoz, um ex-aluno (o mesmo do apagador) frustrado com sua gestão arquitetou um plano mirabolante para matá-lo. Acertou-lhe um tiro na testa em meio à solenidade.

Acordou na sala de aula, onde toda a ideia começou, nada acontecera no mundo real, só no mundo das ideias. Acreditando ser possível, foi lá e fez o impossível...

Fonte: RENATO GOMEZ

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