Sexta-Feira, 04 de Outubro de 2013 - 11:53 (Colaboradores)

CRÔNICAS DO VELHO PORTO: NOVENTA E NOVE ANOS

O povo marcado pelo sol, pela poeira e pela lama, continuou um povo lutador com o passar dos anos. Sem esmorecer, dedicando-se à labuta e às mazelas de uma cidade cada vez mais abandonada.


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Viveu naquele lugar desde que nasceu. Filho da terra, filho do boto, nasceu por sobre a dormente da Maria Fumaça, cresceu confundindo seus ciclos de vida com os ciclos da borracha, tinha de vida o que a cidade tinha de história. Desde o começo amadurecia esperando o mesmo daquela cidade, esperando viver ao cem anos com a perspectiva de ver nela uma grande capital desenvolvida.

Ao chegar da experiência, por vezes decepcionou-se com a frustração de seus sonhos para a amada cidade. Via o lugar ser povoado por migrantes em busca da exploração de suas riquezas. Ponderava os pontos positivos e negativos dessas explorações e se decepcionava com a falta de planejamento do poder público para tais situações.

Viu com pesar no peito a perda de algumas riquezas naturais e históricas durante os ciclos exploratórios. Era como se um pedaço de sua própria vida e história submergisse nas águas das usinas que ali instalavam-se. Perdeu inclusive sua casa à beira do rio, onde viu a lenda do pai boto nascer, onde viu a mãe terra sustentar-lhe e o próprio rio lhe arremessar os peixes durante a piracema.

Em sua caminhada diária e matinal, nosso protagonista contemplava o povo em seu percurso do mercado central ao mercado do “quilômetro 1”. O povo marcado pelo sol, pela poeira e pela lama, continuou um povo lutador com o passar dos anos. Sem esmorecer, dedicando-se à labuta e às mazelas de uma cidade cada vez mais abandonada.

Quando visitava a estrada de ferro, sentia uma oscilação de sentimentos que o levavam às lágrimas também em contraste, ora de tristeza, ora de felicidade. O povo também estava ali, as crianças correndo, os jovens e seu show acústico. Era um momento de lazer e felicidade. Tudo era belo. Menos o descaso com o lugar.

Hoje, aos noventa e nove anos, vislumbra que muito do que sonhou não passou de utopia, mas muito do que viveu deve àquele chão. Se a cidade não é mais do que é, a culpa não é exclusivamente do povo, pois seu único pecado é não saber votar, aliás convenhamos, é difícil escolher a laranja menos podre num cesto de laranjas podres. Mas, mesmo com o cenário atual, o Ancião não deixa de sonhar e vê na cultura, que encontra-se em estado emergente visível, o ponto forte para o desenvolvimento da cidade.

Então rezemos para que a cidade se torne o que sonhou nosso protagonista, nem que para isso leve mais noventa e nove anos e ele vislumbre a realidade de uma utopia de longe...

Fonte: Renato Gomez

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