Sexta-Feira, 17 de Maio de 2013 - 15:04 (Colaboradores)

CRÔNICAS DO VELHO PORTO: AMNÉSIA

Voltou para o quarto e revirou as coisas pra ver se achava algum documento que lhe dissesse pelo menos seu nome. Documentos não achou, mas encontrou uma arma, não sem antes encontrar alguns ratos e baratas em meio aquele pulgueiro.


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Acordou em um apartamento estranho não reconhecia nada ali. A cama era das mais desconfortáveis, dava para sentir o estrado de tão fino que era o colchão, isso lhe atribuíra uma tremenda dor na lombar. Aliás dor parecia ser comum a ele, pois a cabeça latejava a ponto de culminar uma explosão. A boca seca, a sensação de soco na boca do estômago e a moleza no corpo caracterizavam a ressaca.

Avistou a comoda e vislumbrou um porta-retratos com a foto de um homem e uma mulher desconhecidos, as roupas nas gavetas não lhe eram familiares. Foi ao banheiro e no espelho estava o mesmo homem da foto mais cabeludo e barbudo de certo, não se reconhecia, não sabia quem era ou que fazia da vida, se era casado, se era com a moça da foto, enfim, nada sabia sobre si.

Voltou para o quarto e revirou as coisas pra ver se achava algum documento que lhe dissesse pelo menos seu nome. Documentos não achou, mas encontrou uma arma, não sem antes encontrar alguns ratos e baratas em meio aquele pulgueiro. Ficou assustado.

Olhou pela janela e deu de cara com a Estátua da Liberdade. “Como pode? O que faço nos Estados Unidos?”

Sentou e pôs-se a refletir “Será que sou um criminoso? Um terrorista? Assassino?”. Chorou. Não conseguia realmente lembrar de nada. Olhou pelo corpo e nada de tatuagens ou cicatrizes. Era um homem aparentemente bem cuidado, com exceção daquela barba e daquele cabelo.

De repente, alguém colocou um jornal por debaixo da porta. Correu abriu a porta e já não avistou ninguém no corredor. Sentou-se na cama e abriu o jornal em busca de algo familiar. O jornal estava em inglês. Ele sabia ler inglês, mas não achava que era sua língua materna. Parou e pensou. Ao pensar percebeu que pensava em Língua Portuguesa (sim porque até nossos pensamentos são revestidos de linguagem e essa linguagem expressa através de um língua) e num rompante gritou: SOU BRASILEIRO!

Na coluna internacional do Jornal, notícias sobre o Brasil: “Procura-se Fulano de Tal, político, acusado de ter desviado milhões dos cofres públicos, destinados à Saúde, à Educação e à Segurança Pública. Está foragido da polícia desde de que foi decretada sua prisão preventiva.” A constatação. Era ele. É certo que mais arrumado, de terno e gravata e com o cabelo e a barba bem aparados.

Entrou em parafusos. Para um ser desprovido de memória a moral e a ética passam a ter um peso maior do que para muitos que possuem lembranças. Era aceitável ser assassino, ladrão, terrorista, mas não um político corrupto. Colocou a arma em sua boca e sem exitar puxou o gatilho.

Fonte: RENATO GOMEZ

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