Quarta-Feira, 23 de Outubro de 2013 - 14:51 (Colaboradores)

CRÔNICAS DO VELHO PORTO: A RODOVIÁRIA

Confira!!!


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Com uma mão segurava o telefone ao ouvido e com a outra fazia malabarismo para esmigalhar um pedaço de pão e jogar as migalhas aos pombos que a rodeavam.

Ao telefone falava com outra mulher, a julgar pelo gênero atribuído nas palavras:

-É tudo culpa sua! Se eu estou aqui, assim, nessa situação...

Dá uma longa pausa, desaba no choro e aos prantos continua:

-Se você não tivesse tomado tudo que eu tinha, eu estaria bem, não estaria aqui na sarjeta...

-Sua desgraçada! Você é uma desgraçada! Eu tô na miséria, mas a amaldiçoada é você!

Começa a rir, às gargalhadas, como se estivesse em frenesi:

-É isso mesmo, você é uma amaldiçoada e por isso eu rio de você, você pode ter tudo que era meu, mas não tem a felicidade...

Ela bate o pé no chão, os pombos se afastam, mas permanecem à espreita vendo-a recolher o pequeno pedaço que sobrou do pão, uma vez que os pombos mais se bicaram desordenadamente na briga por uma migalha do que conseguiram alcançar a comida, se levanta e começa a caminhar em círculos e grita:

-Eu vou te matar! E te matar ainda vai ser pouco perto do que você merece! Empurra um transeunte que passa olhando assustado por perto dela:

-Tá olhando o que? To falando com a vadia que destruiu minha vida! 

Mais uma vez pausa as palavras, se senta novamente e chora desoladamente. Bate a cabeça na grade repetidas vezes. Levanta-se arremessa o telefone ao chão para logo em seguida recolhê-lo. Levantou-se e foi embora, alternando as passadas ligeiras e compassadas, com tiques nervosos como coçar freneticamente o ouvido com o dedo mindinho e sacudir a cabeça de um lado pro outro batendo o cabelo ao rosto. Observei-a indo, até perdê-la de vista. Tive a impressão que toda a situação presenciada era rotineira na vida dela e dos demais transeuntes e habitantes da rodoviária da cidade, que mais parece um albergue.

Ah, já ia me esquecendo. Era mais um fim de semana que eu frequentava a rodoviária para mais uma de minhas rotineiras viagens, quando presenciei a história acima. E seria uma história “normal” (dentro dos parâmetros de nossa louca sociedade), não fosse o fato de que o telefone na mão da mulher era nitidamente de brinquedo.

Fonte: Renato Gomez

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