Sabado, 21 de Fevereiro de 2015 - 11:36 (Colaboradores)

CRÔNICAS DA NOVA TERRA: O COLONIZADOR DE BOA FÉ

Cometemos o erro de não deixar ninguém de guarda na entrada e quando saímos demos de cara com um Novo Humano que bebia água na beira do Rio.


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Mas o fato colonial é uma pura ideia: conjunto de situações vividas, recusá-lo é ou subtrair-se fisicamente a essas situações ou permanecer e lutar a fim de transformá-las.

(...)

Mas, tendo descoberto o escândalo econômico, político e moral da colonização, e não sendo capaz de esquecê-lo, não pode aceitar tornar-se o que se tornaram seus compatriotas: decide ficar, comprometendo-se a recusar a colonização.

O retrato do colonizador precedido pelo retrato do colonizado Albert Memmi

Me lembro do dia como se fosse hoje, mesmo após esses longos anos que se passaram, mesmo após ele ter sofrido retaliação, me lembro de meu amigo Novo Humano, o único que fiz, um dos poucos entre eles que discorda das atitudes colonizadoras.

Chegamos a um ótimo local, era uma gruta antiga no meio da Amazônia, considerando a proximidade do Rio, provavelmente, alguns antepassados meus da nação indígena Mura estiveram por ali alguns séculos atrás. Os Muras eram conhecidos como índios de corso por viverem a maior parte do tempo em suas canoas e sempre estabelecerem seus acampamentos na beira do rio. Me vislumbrei com a possibilidade de estar acampado ali.

Entramos na gruta para ver se ela comportaria todos os membros de nosso grupo. Cometemos o erro de não deixar ninguém de guarda na entrada e quando saímos demos de cara com um Novo Humano que bebia água na beira do Rio. Cercamos ele e indagamos seus motivos para estar ali. Ele se justificou dizendo que estava apenas caminhando e parou ali para se refrescar ao ver que a água do Rio já havia sido purificada com a tecnologia dos relógios extraterrestres. Decidimos que ele não nos oferecia risco, só não poderíamos mais nos estabelecer ali. Ele suplicou pela sua vida, disse que não falaria nada sobre nós. 

Ao se surpreender com a liberdade, quis ficar. A princípio eu recusei, mas ele argumentou que havia sido enganado sobre nós todo o tempo e que queria ter o direito a nos conhecer de verdade. Eu aceitei. Boa parte dos meus companheiros de revolução olhavam-no com desconfiança, não acreditavam que existisse um deles sem a soberba que lhes é característica. Confesso que um pedaço de mim também germinava uma semente de desconfiança. Mas decidi que ele merecia um voto de confiança. Algo me dizia que ele estava sendo sincero e, ao contrário dos colonizadores, eu lhe daria uma chance. Os colonizadores sempre julgam os colonizados como vagabundos e mentirosos, atribuem-lhes perigos e alcunhas que nem sabem se realmente possuem. Eu não faria isso.

Passou muito tempo vivendo conosco. Foi quando descobri muito sobre o passado e a vida dos Novos Humanos em Habitat, seu planeta natal. Ele, por sua vez, aprendeu muito sobre nós e se sentiu livre pela primeira vez, pois não o forçávamos a nada, não tentamos em nenhum momento fazê-lo se vestir igual a nós por exemplo. No conflito seguinte ele insistiu em nos acompanhar, mesmo contra a vontade da maioria,  achei que ele deveria ir, pois seria a melhor forma de provar que estava do nosso lado.

A reação dos líderes estava estampada em cada olhar ao ver que um deles havia se bandeado para o lado da revolução, uma mistura de amargura, ódio, surpresa e desprezo transparecia na feição de cada um.  Senti que deveria proteger meu novo amigo e pedi para ele ficar atrás do grupo em caso de conflito. Porém, em um ato que deixou claras as suas intenções, a mim, aos meus companheiros e aos próprios Novos Humanos, ele exclamou:

- Hoje não! Hoje não teremos luta. Vejo o incômodo de meus conterrâneos de Habitat com minha presença aqui e sei que, se houver conflito, podem haver mortes e não quero isso. Me entregarei a vocês para que tomem a atitude que sua justiça achar apropriada, mas em troca peço que não haja conflito hoje.

Ele foi levado, não pude fazer nada. Ele quis assim, temeu por todos nós. Colocaram-lhe um relógio controlador. Ele seria manipulado a esquecer o seus verdadeiros sentimentos e pensamentos sobre a colonização e sobre nós. Desde então nunca mais o vi. Deve estar aprisionado.

Se todos os Novos Humanos percebessem que poderíamos viver em paz e dividir o mesmo espaço, talvez tudo pudesse ser esquecido. Mas infelizmente não é assim que funciona. Quando vencermos esta guerra,  libertarei meu amigo daquele maldito controle mental e se ele quiser ficar, será bem vindo...

Continua...

Renato Gomez

Fonte: Renato Gomez

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