Sabado, 28 de Março de 2015 - 10:03 (Colaboradores)

CRÔNICAS DA NOVA TERRA: A LIÇÃO

Ao chegar em frente à casa dela, percebi que não sabia o que dizer quando estivéssemos frente a frente. Dei um passo atrás e pensei em voltar, mas era tarde demais. Ela abriu a porta e me viu ali de fronte a sua casa.


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Dias a fio, noites em claro, venho pensando nela como se disso dependesse minha vida. Mas três dias atrás, meu anseio intensificou-se, pude vê-la novamente durante uma expedição para busca de alimentos e água potável, quando chegamos perto de uma das cidades dos Novos Humanos. Lá estava ela, linda como da outra vez, com um semblante sério e guerreiro. Seguindo-a, apenas com o olhar, do alto da montanha de onde eu estava, tomando cuidado para não ser visto, pude ver qual era sua casa.

Então, sabendo onde ela estava, decidi ir até lá para conversar pessoalmente com a dona do meu pensamento. No horário da troca de turno da guarda da cidade, consegui me camuflar em meio à população (vestido como um Novo Humano, com uma roupa que roubara em outra oportunidade). 

Rapidamente, mandou eu entrar antes que alguém percebe-se que eu era um rebelde. Eu ainda estava sem palavras. Ela não dizia nada, mas me transmitia com o olhar, que estava cheia de dúvidas sobre minha presença ali. Então resolvi quebrar o silêncio.

Expliquei que queria ajudá-la a sair de lá e que queria que ela se juntasse às forças revolucionárias, mas não revelei meus sentimentos. Ela simplesmente disse que não iria, seu pai estava sob o controle dos Novos Humanos e ela não sairia sem ele, pois mesmo sem o relógio controlador que ela já havia danificado, ele achava que deveria permanecer ali, era o melhor a fazer. Por mais que ela não concordasse, ficava pelo pai e pelo irmão pequeno, tinha o dever de cuidar deles após a morte da mãe. Me explicou ainda que o relógio controlador nunca funcionara nela. Talvez devido sua enorme força de vontade somada ao desejo de liberdade e seu espírito guerreiro, pensei eu. Os Novos Humanos já haviam percebido isso e ameaçaram sua família, caso ela tentasse fugir.

Eu fiquei indignado com aquilo, queria que ela viesse de qualquer forma, estava tomado pelos meus sentimentos e a razão não conseguia prevalecer. Insisti, questionei e, no auge da minha insatisfação, ameacei levá-la à força. Foi quando ela me deu uma lição de moral e me fez voltar a si.  Indagou o fato de eu querer lutar por liberdade se não consigo sequer respeitar a vontade do outro, como eu quero lutar contra a colonização se ainda tenho atitudes colonizadoras. Fiquei envergonhado e decidi ir embora. Na saída, foi a vez dela de perder o controle. Me abraçou e me deu um beijo. O gosto daqueles lábios ainda está nos meus. A minha cabeça parou naquele lugar e na lição aprendida ali.

Mesmo dentro daqueles que abominam os preconceitos e a dominação colonizadora (e me coloco entre eles) existem alguns sentimentos e pensamentos que, de forma involuntária, tendem a ir no caminho contrário. E acabo de ter a prova disso e de uma forma que eu não esperava. O pior é que em vez de me sentir repelido pela lição que acabo de aprender, ciente de toda a aspereza contida naquelas palavras, eu me sinto ainda mais interessado por tudo que posso aprender e viver com essa mulher.

Meu próximo passo será libertar a família dela e consequentemente libertá-la, pois com ela ao meu lado, serei mais forte. E juntos poderemos vencer essa guerra.

Continua...

Fonte: Renato Gomez

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