Quinta-Feira, 06 de Julho de 2017 - 12:04 (Meio Ambiente e Ecologia)

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CONSIDERANDO ESTRATÉGIAS DE MANEJO, PESQUISADORES AVALIAM CONFLITOS ENTRE RIBEIRINHOS E JACARÉS AMAZÔNICOS

Estes dados compõem parte dos resultados de uma pesquisa mais ampla, de caracterização socioeconômica dos pescadores da reserva, a fim de delimitar estratégias para o manejo de jacarés.


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Qual o preço dos conflitos causados por jacarés à população humana em uma comunidade ribeirinha da Amazônia? Pesquisadores do Instituto Mamirauá estão buscando respostas para essa e outras questões sobre a relação entre os moradores de uma unidade de conservação do Amazonas e os jacarés. Segundo os pesquisadores, os resultados preliminares indicam que os prejuízos apontados podem ser absorvidos pelo manejo participativo de jacarés por meio da geração de renda, auxiliando na resolução de conflitos, como uma medida compensatória.

Este é um dos trabalhos apresentados no 14º Simpósio sobre Conservação e Manejo Participativo na Amazônia, realizado até dia 7 de julho na sede do Instituto em Tefé (AM). Os pesquisadores observaram que o principal prejuízo causado pelos jacarés é o econômico direto, que representou 60% das respostas dos entrevistados. Os outros 40% são de prejuízos não financeiros, como o ataque aos animais domésticos. Se forem contabilizadas as médias das perdas de todas as categorias avaliadas pelos pesquisadores, o prejuízo médio anual por pescador seria de cerca de R$600,00. O trabalho está sendo executado na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá.

"Percebemos que os problemas principais que causam conflitos são a perda ou dano de apetrechos de pesca, a predação de animais domésticos e a perda de pescado", contou Diogo de Lima Franco, pesquisador do Instituto Mamirauá - que atua como unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações.  Foram contabilizados os grandes reparos aos apetrechos de pesca, que representariam o custo médio de 625 reais por ano; os pequenos reparos, que representariam 511 reais em um ano; e a perda total de redes de pesca, que representariam o prejuízo de 1.470 reais ao pescador. Também foram contabilizadas as perdas de pescados que seriam comercializados, entre 35 e 300 reais. "Entretanto, a baixa taxa de visualização dos causadores de danos nessas ocorrências (em apenas 30% dos relatos os jacarés foram avistados no momento) pode indicar uma superestimação das ações danosas à apetrechos por parte dos jacarés", completou Diogo.

Estes dados compõem parte dos resultados de uma pesquisa mais ampla, de caracterização socioeconômica dos pescadores da reserva, a fim de delimitar estratégias para o manejo de jacarés. "É importante caracterizar essas questões de conflito que podem gerar dados para mitigar ou controlar esses conflitos futuramente. Uma forma é inserir esses custos de perda ou reparo de material na futura valoração dos produtos de manejo", disse Diogo. A pesquisa continua sendo desenvolvida até 2018 e conta com o financiamento da Betty and Gordon Moore Foundation.

Manejo sustentável

A proposta de realização de manejo sustentável de jacarés no Amazonas não é recente. A partir de um estudo realizado em 1998, o pesquisador Ronis da Silveira já ressaltava que "o estado do Amazonas possui o maior potencial para ser o embrião do manejo desta espécie, em função das pesquisas aqui realizadas". As informações estão no livro Conservação e Manejo de jacarés e crocodilos na América Latina. O Programa de Pesquisa em Conservação e Manejo de Jacarés do Instituto Mamirauá realiza pesquisas científicas, desde 2006, que demonstram que as populações de jacaré-açu (Melanosushus niger) e o jacaretinga (Caiman crocodilus) têm se mantido estável ao longo dos anos, em concentrações de até 250 animais por km em alguns locais.

Na legislação, a atividade já é autorizada para áreas de uso sustentável dos recursos naturais, como é o caso das Reservas de Desenvolvimento Sustentável. Legislações estaduais regularizam o manejo participativo do jacaré, dispondo sobreaspectos básicos do manejo, como a cota e tamanho mínimo para abate (resolução n°008/2011 do Conselho Estadual de Meio Ambiente do Amazonas) e sobre as questões técnicas, estruturais e metodológicas do abate e do processamento das espécies (IN n°001/2011 da Secretaria de Estado de Produção Rural e Comissão Executiva Permanente de Defesa Sanitária Animal e Vegetal do Estado do Amazonas).

No entanto, para realização do manejo participativo comunitário os pesquisadores explicam que são necessárias algumas etapas precedentes. "O mapeamento participativo e as contagens comunitárias são processos que possibilitam o estabelecimento de critérios básicos para o manejo participativo. Para ter um sistema viável, é importante a participação de todos. E, junto a isso, estamos fazendo as pesquisas para gerar critérios técnicos e científicos que subsidiem o sistema de manejo", comentou Barthira Rezende, também pesquisadora no Instituto.

O mapeamento participativo é realizado com participação dos moradores das comunidades ribeirinhas que indicam áreas de presença ou ausência de ninhos e de jacarés, que posteriormente são validadas pela equipe técnica e de pesquisa do Instituto. Estes dados corroboram a criação do zoneamento das áreas do sistema de manejo, estabelecendo áreas de  uso e proteção, por exemplo.

Já a contagem é realizada para o estabelecimento da cota de retirada dos animais, além de subsidiar com informações sobre a população das espécies animais. Os comunitários estão sendo capacitados para que futuramente eles mesmos sejam os detentores deste conhecimento e possam repassar para outros comunitários envolvidos no manejo. As duas atividades estão sendo desenvolvidas no setor Jarauá, demarcação administrativa da reserva.

O manejo é apontado como uma estratégia para aliar conservação e sustentabilidade e manter a população natural das espécies, além de se configurar como uma fonte complementar de renda para os moradores que vivem nestas comunidades pertencentes à unidade de conservação.

Barthira enfatiza que o manejo só obterá resultados positivos se houver o envolvimento dos moradores da reserva em todas as etapas da atividade, garantindo a participação deles nas tomadas de decisão e na aplicação das estratégias de conservação das espécies. "As pesquisas têm demonstrado que é viável e que precisa ter o comprometimento da comunidade para manter isso. E o envolvimento deles tem sido grande. Com as informações que a gente tem tanto do mapeamento, quanto das contagens comunitárias, a participação dos comunitários nas atividades é satisfatória.", completou a pesquisadora.

Essa pesquisa conta com recursos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) para pagamento de bolsas de estudo.

Simpósio

A exposição dos trabalhos acontece no 14º Simpósio sobre Conservação e Manejo Participativo na Amazônia, que é realizado anualmente pelo Instituto e reúne pesquisadores e especialistas para minicursos, palestras e apresentações. Neste ano, o evento acontece entre 5 e 7 de julho. Antecedeu a sua programação o 3º Seminário do projeto Mamirauá - Conservação e Uso Sustentável da Biodiversidade em Unidades de Conservação (BioREC), no qual foram apresentados relatos de experiências de manejo e pesquisa científica desenvolvidas pelo Instituto no projeto Biorec, com o financiamento do Fundo Amazônia, gerido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). 

Fonte: ascom

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