Domingo, 22 de Maio de 2016 - 11:32 (Entrevistas )

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CARLOS RODRIGUES CATACA: A FOTOGRAFIA ALÉM DAS FRONTEIRAS VISUAIS

Walteir conta que no inicio (2013) o projeto contou com o apoio da Seduc, porém, sem explicação nenhuma, de uma hora pra outra a Seduc retirou o apoio e ainda exigiu que o professor Walteir voltasse para a sala de aula o que por alguns meses, inviabilizou a sequencia das oficinas de fotografia. Foi mesmo que receber um jeb na cara.


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Casado há 47 anos com dona Lizete Portugal Cataca com quem tem quatro filhos, dois homens e duas mulheres. Carlos Cataca em consequência da Diabetes perdeu um membro inferior (perna esquerda) além de ter ficado cego. Pois, justamente por ser deficiente visual, nos últimos dias vem sendo destaque em tudo quanto é mídia. “Virei artista de televisão”, isso em virtude do trabalho desenvolvido pelo fotografo Walteir Costa que convidado pela direção da Associação dos Deficientes Visuais do Estado de Rondônia – ASDEVRON desenvolveu o projeto cujo objetivo, é a qualidade de vida facilitada pala captação de imagem através da fotografia. “Soubemos que o Walteir havia formado em fotografia uma turma de deficientes auditivos e então pensei, se os surdos podem, nós podemos também e então o convidamos para desenvolver nosso projeto”.

Walteir conta que no inicio (2013) o projeto contou com o apoio da Seduc, porém, sem explicação nenhuma, de uma hora pra outra a Seduc retirou o apoio e ainda exigiu que o professor Walteir voltasse para a sala de aula o que por alguns meses, inviabilizou a sequencia das oficinas de fotografia. Foi mesmo que receber um jeb na cara. Por conta disso tive que parar com o projeto. Este ano voltamos a batalhar, até que o secretário adjunto solicitou da coordenadora um parecer técnico e ela argumentou que eu era professor e tinha que estar em sala de aula em virtude da Lei 6.800 e que nosso projeto era de cunho social e que não tinha atendido nenhuma criança e por isso naquele momento não estava podendo me dispensar da sala de aula.

Essa é a visão de uma pessoa formada e que inclusive foi quem autorizou a parceria com a Seduc, Este ano com apoio de alguns deputados, Ministério Público com ela mesmo conseguimos voltar com o projeto. Hoje tendo como gestor a Asdevron e um novo título “A fotografia alem das fronteiras visuais” mostramos que é possível sim cego ser fotógrafo”, desabafo de Walteir.

Vamos à história do seu Carlos Rodrigues Cataca.

ENTREVISTA

Zk – Você nasceu aonde:

Cataca – Nasci e me crei aqui em Porto Velho na rua Almirante Barroso perto do cemitério dos Inocentes.Minha infância foi toda no Mocambo. O primeiro colégio que estudei foi o Zenóbio da Costa que ficava no Morro do Querosene, depois fui pro Jardim de Infância Central no bairro Caiari e depois fui estudar no colégio Dom Bosco. Fiz curso no SENAI na área de construção civil e consegui emprego no governo na época do Teixeirão. Hoje sou aposentado por tempo de serviço, só, que o ordenado que ganho é uma mixaria.

Zk – E a Porto Velho do teu tempo

Cataca – Era uma cidade muito gostosa pra se viver. Tinha a escola de samba do Caiari. Era uma época bem divertida, a rivalidade era uma rivalidade sadia. Joguei futebol no Esporte Clube São Francisco que era do Chicorote a gente jogava no campo da Baixa da União.

Zk - O que se disputava no campo da Baixa da União

Cataca – Era muito bacana. Ali a gente participava do campeonato disputado entre os times dos vários bairros da cidade como Triângulo, Areal, Mocambo e outros. As disputas eram acirradas e muitas vezes o bicho pegava de verdade.

Zk – Você frequentou o Clube Imperial

Cataca – Claro, foi lá que comecei minha vida boêmia quando ainda era adolescente, a gente chamava de clube do seu Zinco porque o dono era o seu Geraldo Siqueira que tinha o apelido de Alumínio e não gostava quando a gente o chamava seu “Zinco”. O Imperial também era conhecido como Cai N’água.

Zk – Por que?

Cataca – Acontece que seu Alumínio construiu o clube com madeira Pinho de Riga que conseguiu com a direção da Madeira Mamoré, só que o local onde ele levantou o casarão do clube alagava durante o inverno e por isso o barracão foi construído no sistema PALAFITA, o salão de dança ficava a mais de três metros do chão em cima de esteios. Quando acontecia confusão e isso era frequente e era tempo de cheia do rio Madeira, acontecia de alguém ser jogado lá de cima e caia dentro d’água, daí o Imperial também ser chamado de Cai N’água. Vamos pro Cai N’água ou hoje tem festa no Cai N’água. No carnaval tinha o bloco do Imperial que desfilava na Presidente Dutra e no mês de junho tinha a Quadrilha que dançava no Arraial do Imperial ou do seu Alumínio.

Zk – É verdade que o Mocambo era o reduto dos garimpeiros de cassiterita

Cataca – O garimpo manual de cassiterita foi quando correu mais dinheiro aqui em Porto Velho. Acontece que as minas eram la pro lado de Ariquemes mais as sedes das empresas que compravam a cassiterita era em Porto Velho e todo final de semana os garimpeiros desciam pra vender o produto e quando recebiam a bolada iam pros puteiros fazer festa, tinha deles que fechava a casa, colocava o dinheiro em cima da mesa e a mulheradas fazia festa.

Segunda feira a maioria estava sem nenhum tostão e voltava pro garimpo para tentar ganhar dinheiro novamente e ganhava. Esse pool do garimpo manual de cassiterita parou porque o governo entregou a mineração para as grandes empresas multinacionais no final da década de 1960.

Zk – E como foi que você se transformou em fotografo após perder a visão em consequência da diabetes

Cataca – Surgiu de uma ideia nossa, conversando com o Walteir e com o Alberto que é presidente da Associação. O Walteir tinha dado um curso em 2010 para os surdos e eu questionei, por que não pra nós também e então passamos a trabalhar em cima disso aí. Aconteceram as oficinas e fomos gostando e agora estamos tirando foto até de casamento.

Zk – Conta essa história pra gente

Cataca – O Juiz chegou ao Cartório Godoy perguntou se alguém iria tirar as fotos da solenidade e eu me apresentei e por ser cego ele não acreditou que eu era capaz de fazer as fotos do casamento. “Como é que o senhor vai tirar as fotos” e eu disse, assine aí que vou fotografar. Ele se preparou e eu cliquei tchec. Quando ele viu ficou admirado “não acredito”. Depois disso tomei mais gosto pela fotografia.

Zk – Conversando com o instrutor Walteir. Como funciona a técnica que você utilizado com os cegos

Walteir – Primeiro tivemos que rever alguns conceitos da fotografia. O objetivo do curso é a melhoria da qualidade de vida das pessoas com limites visuais, não chamo deficientes, todos nós temos limites. Aí veio a ideia de ampliar a essência da fotografia. Na verdade o nosso olhar é todo construído e todos nós compartilhamos. Lemos um livro, assistimos a um filme, é o olhar de alguém é a compreensão de alguém. Treinamos várias posturas que ele pode conseguir uma imagem sem ninguém ao seu lado, mesmo sem ter certeza o que é. Ele tem a história da ração pros peixes que ele fotografou.

Zk – Como é essa história dos peixes

Cataca – Foi uma história engraçada. Fomos visitar o Parque da Cidade e o Walteir saiu me falando: Aqui tem a tartaruguinha, aqui tem ganso tem num sei o que e disse: O cara vai dar comida pros peixes e eu disse: quero fotografar quando for botar comida pro bicho comer. Dei sorte que peguei a ração no ar. Essa foto faz parte da exposição que está na UNIR.

Zk – Depois dessa foto quais outros trabalhos fotográficos que você fez

Cataca – Fiz na Estrada de Ferro Madeira Mamoré, fiz no Parque Ecológico, na Ponte do Rio Madeira. Vou perguntando o que é isso aí se me interessar, peço pro guia enquadrar e eu só faço apertar Tchec. Assim essa atividade foi me incentivando a viver. Dizer que ainda tenho alguma coisa para oferecer.

Walteir – Aí está o objetivo do projeto, melhoria da qualidade de vida. Começamos o projeto com oito e apenas cinco concluíram e um deles é visual que é o interprete de imagem que era motorista do Cataca na época o Ronaldo. Lembro que o projeto é aberto para visuais para poder ter pessoas que digam pra eles, a luz ta pra cá, o que está à frente.

Zk – Independente desse intérprete, você sente que a luz é boa para clicar.

Cataca – Não! Sinto, por exemplo: quero te fotografar me aproximo e pelo que a pessoa vai falando me preparo e clico. A exposição vai ficar na UNIR até o dia 31 deste mês. Já recebemos convite de outras instituições, o Emerson está vendo a possibilidade de expor na Uniron. A ideia de levar pra UNIR foi mais pra mexer com esses conceitos de fotografia, de concepção de imagem e da possibilidade de atender a esse nível de deficiência, ou melhor, limite visual. Tem o ditado: O pior cego é aquele que não quer ver.

Zk – Quem quiser contratar o Cataca para fotografar casamento, aniversário e outros eventos liga pra onde.

Cataca – (69) 9338-3619

Fonte: Zé Katraca

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