Terça-Feira, 01 de Agosto de 2017 - 10:44 (Agronegocios)

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BONIFICAÇÃO AO PRODUTOR INCENTIVA MELHORIA DA QUALIDADE DO LEITE EM RONDÔNIA

Ação pioneira no estado conquista bons resultados aliando pesquisa, transparência nas ações e transferência de conhecimento


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O pagamento por qualidade é ferramenta essencial para a evolução da qualidade do leite. Esta estratégia é realizada há algum tempo por algumas indústrias do País aos produtores de leite, mas ainda é novidade em Rondônia e tem incentivado a melhoria da matéria prima. Ao atender os parâmetros de qualidade definidos pelo laticínio, para contagem bacteriana total (CBT), células somáticas (CCS) e teor de gordura, o produtor pode ganhar até oito centavos a mais por litro de leite. Uma remuneração extra que tem motivado a adoção de boas práticas no campo e tecnologias para o aumento da produção de leite, beneficiando tanto a indústria quanto o produtor e o setor lácteo como um todo. A iniciativa em Rondônia é do Laticínio Jóia, localizado no município de Ministro Andreazza, o único que realiza o pagamento por qualidade do leite no estado.

O incentivo recebido são centavos a mais que, ao final do ano, transformam-se em milhares de reais, fazendo a diferença na renda das famílias que dependem do leite para seu sustento. “Só de bonificação, eu recebi cerca de cinco mil reais no ano passado, por ter um leite de mais qualidade”, conta o produtor Silvio Tenório, de Ministro Andreazza (RO). Ele foi o primeiro produtor a receber oito centavos a mais por litro pela qualidade, atendendo os requisitos exigidos pelo laticínio para a bonificação. “Além do dinheiro a mais, tenho satisfação em oferecer um produto de qualidade, mais saudável”, complementa Silvio.

Para Ailton Pereira de Sena, produtor de leite da região de Espigão D’Oeste (RO), em seus 40 anos na atividade leiteira, é a primeira vez que recebe incentivo financeiro pela qualidade do leite que entrega na indústria. “Eu luto por cada centavo a mais todo mês, o leite é a renda principal da minha família. A cada retorno da análise do laticínio eu fico de olho no que preciso melhorar. Fico mais atento aos problemas”, comenta. Além da melhoria das boas práticas, ele foi além. Conseguiu sair da ordenha manual para a mecânica, está melhorando a genética dos animais e já venceu alguns concursos leiteiros da região. “Fico motivado a fazer melhor, querer mais e satisfeito porque a gente vê que o laticínio está somando forças com a gente”, conclui.

 

O Laticínio Jóia deu início a este sistema de bonificação em julho de 2015, com o apoio de resultados de projeto de pesquisa realizado pela Embrapa Rondônia, apontando pontos críticos e estratégias para a melhoria da qualidade do leite em Rondônia. Os resultados já estão sendo colhidos. O acompanhamento deste trabalho demonstrou a redução significativa da CBT dos tanques de resfriamento após a introdução do sistema de pagamento no laticínio. Este estudo mostrou que os tanques adequados ao limite de 100.000 UFC/mL, previsto pela Instrução Normativa 07 (IN07) para 2019, foi de 7,8% em 2015 para 62,7% em 2016, considerando os mesmos tanques e período do ano (chuvoso). De acordo com o proprietário do laticínio Jóia, Alessandro Rodrigues, o objetivo é de que os produtores se adequem à Instrução Normativa 07, atuando com foco na qualidade. “No futuro, quem não se adequar vai ser penalizado ou ficar de fora” reforça.

Nestes dois anos do sistema de bonificação, o laticínio aumentou em 60% o volume de leite captado e saltou de 300 para 800 produtores associados, um aumento de 167%.  Além disso, o número de funcionários foi de 20 para 60. “Todo este avanço requer ainda mais responsabilidade. Aumentamos o volume de leite e precisamos ter qualidade. Assim como temos mais produtores para atender e também funcionários que agora fazem parte do processo e esperam de nós a dedicação e o relacionamento humanizado que sempre tivemos”, destaca Alessandro Rodrigues. Atualmente, o laticínio capta cerca 40 mil litros leite por dia em seis municípios de Rondônia e seu principal produto é a muçarela, que é vendida em quase sua totalidade para São Paulo.


Implantação do programa de melhoria da qualidade do leite

O proprietário do laticínio relata que foi um desafio colocar o sistema de pagamento por qualidade para funcionar, uma das ações do programa de melhoria da qualidade do leite implantado. “Muito diálogo e apoio fundamental da pesquisa, com o diagnóstico e orientação de boas práticas”, relembra Rodrigues. Foram trabalhados neste processo pelo laticínio três principais pontos: definição dos critérios de bonificação; responsabilidade no procedimento da coleta de amostras de leite para análise laboratorial; e a transparência na apresentação dos resultados das análises junto ao produtor.

Para a bonificação, são considerados os resultados das análises de leite realizadas mensalmente em laboratório credenciado ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), baseados nos critérios da Instrução Normativa 62, atualizada pela IN 7 de 3 de maio de 2016, que define os parâmetros para a qualidade do leite no País.  Os resultados das análises do leite são entregues mensalmente aos responsáveis pelos tanques de resfriamento e os valores referentes às bonificações são descritos nas notas de pagamento dos produtores. Com o conhecimento dos seus resultados e das condições do leite que entregam, os produtores são orientados quanto ao que deve ser melhorado dentro do seu sistema de produção. Um círculo virtuoso pela melhoria da qualidade do leite.

Na parceria do Laticínio Jóia com a Embrapa Rondônia, foi realizado um estudo epidemiológico na área de atuação desta indústria e foi possível identificar pontos críticos e áreas prioritárias de atuação por meio da análise espacial dos indicadores de qualidade do leite, direcionando as ações da indústria para que pudessem ser buscadas estratégias para a melhoria da qualidade. “Para melhorar é preciso conhecer. E o resultado da pesquisa trouxe o conhecimento necessário para que pudéssemos agir e colocar o sistema de bonificação em prática”, acrescenta o proprietário.

Dentre as estratégias de melhoria definidas pelo laticínio está o programa de capacitação de técnicos e produtores. Além da orientação na entrega dos resultados das análises indicando os pontos a serem melhorados pelos produtores, técnicos do laticínio participam de capacitação continuada da Embrapa Rondônia sobre o sistema de produção de leite. Também foi realizada, em julho deste ano, a primeira edição da Oficina Tecnológica do Leite, oferecida em três comunidades e para mais de 60 produtores que já estão trabalhando com foco na qualidade do leite, atendidos pelo laticínio nos municípios rondonienses de Espigão D’Oeste, Ji-Paraná e Cacoal. Na oficina, realizada em parceria com a Embrapa, foram repassados conhecimentos sobre gestão financeira da propriedade, produção forrageira e qualidade do leite. O evento teve o apoio da CrediSIS Leste, Emater-RO e Sebrae. O próximo passo será a implantação de unidades demonstrativas em áreas de produtores, mostrando, na prática, os resultados da adoção de tecnologias para a produção de leite com qualidade.

Para a pesquisadora da Embrapa Rondônia, Juliana Dias, iniciativas como a implementada pelo Laticínio Jóia são de grande importância para a sustentabilidade da cadeia produtiva do leite em Rondônia. “Investir em ações que promovam a obtenção de matéria prima com qualidade, como capacitação de mão de obra, transparência nas ações e valorização do produto, podem levar o negócio do leite a um novo patamar, gerando mais empregos e renda para a economia e famílias de produtores de Rondônia”, afirma.                               

Pesquisa aponta pontos críticos e estratégias para a melhoria da qualidade do leite em RO

Em trabalho realizado em 2013 pela Embrapa, em parceria com laticínios de Rondônia e a Emater-RO, foram avaliadas 275 propriedades na microrregião de Ji-Paraná, principal bacia leiteira do estado. A pesquisa demonstrou a baixa adoção de boas práticas, como higiene da ordenha e controle da mastite, indicando a importância de capacitação de mão de obra e da assistência técnica efetiva.

O trabalho apontou, por exemplo, que a presença de intermediários (carreteiros) na entrega do leite no tanque comunitário aumentava em quase quatro vezes a chance de ocorrência de CBT acima de 300.000 UFC/mL (limite atual definido pela IN62). Dentre os fatores relacionados à presença do carreteiro, pode-se citar o maior período de tempo entre a ordenha e o resfriamento do leite, a deficiente lavagem de latões e o tempo que o latão permanece nas bancadas localizadas na entrada das propriedades. “Estes resultados demonstram a importância de reavaliar a logística de resfriamento do leite para definir medidas de redução dos pontos críticos de contaminação”, esclarece Juliana Dias.

Com os resultados desta pesquisa, a Embrapa Rondônia, no ano de 2015, estabeleceu parcerias com indústrias lácteas para identificação de áreas prioritárias de atuação, com a caracterização dos produtores e da logística de resfriamento do leite nestas áreas. Com isso, foi possível subsidiar a tomada de decisão pela indústria com foco na redução da CBT e melhoria da qualidade da matéria prima.

Esforços têm sido observados por parte do governo, empresas de lácteos e produtores em relação à melhoria da qualidade do leite cru no estado principalmente após a entrada em vigor da normativa em 2007. Foram realizadas ações como a aquisição de tanques de resfriamento, melhoria das estradas, qualidade de energia elétrica e ações visando a sanidade do rebanho. “Para que possamos evoluir na melhoria da qualidade do leite no estado é fundamental o envolvimento de todos os elos da cadeia produtiva: pesquisa, extensão rural, indústria, produtores e poder público”, explica a pesquisadora.

Segundo Juliana Dias, com base na pesquisa realizada, podem-se citar dois grandes desafios para a qualidade do leite em Rondônia: a adoção de boas práticas, pois a qualidade da matéria prima depende do manejo adotado na ordenha e das condições de resfriamento dentro da propriedade; e a logística de resfriamento do leite até o tanque coletivo, pois cerca de 90% do leite resfriado produzido em Rondônia está armazenado em tanques com esta característica. “É preciso que as tecnologias e conhecimentos já disponíveis cheguem aos produtores e sejam adotados”, reforça Dias.

 
Produção do leite em RO

O Estado de Rondônia é o maior produtor de leite da região Norte, com cerca de 45% da produção, e o nono do País. Esta atividade possui grande relevância social e econômica, sendo importante fonte de geração e distribuição de renda. Segundo dados da Agência de Defesa Sanitária Agrosilvopastoril de Rondônia (Idaron, 2016), 34 mil produtores estão diretamente envolvidos com esta atividade caracterizada como de base familiar, em que 84% produzem menos de 100 litros de leite/dia.

Quanto à produção de leite em Rondônia, apresentou crescimento de 28% na última década, entretanto, a produtividade, que é de 1.225 litros/vaca/ano, está abaixo da média nacional (1.609 litros/vaca/dia, IBGE, 2015). O crescimento deve-se, principalmente, pelo aumento de áreas exploradas e de rebanho, mas a produção ainda é considerada de baixo nível tecnológico, o que impacta na baixa qualidade do leite produzido.

Rondônia também possui o maior parque industrial de processamento de leite da região Norte. Isso significa que, com o aumento expressivo da produção o estado tem capacidade instalada para atender essa demanda. São 51 plantas industriais com do Serviço de Inspeção Federal (Mapa, 2015) e 23 com Serviço de Inspeção Estadual (Idaron, 2015) instaladas no estado, contribuindo para a modernização do setor.

Parâmetros da qualidade do leite

A qualidade do leite envolve fatores como a garantia de alimento seguro e de qualidade nutricional para o consumidor, aumento da vida de prateleira e rendimento industrial de derivados lácteos. Devido à baixa qualidade do leite demonstrada em vários estudos e a desestruturação do setor, em 2002 o Mapa publicou a Instrução Normativa 51 (atualizada pela IN 62 e IN 07) estabelecendo normas para essa cadeia. Veja na tabela abaixo os parâmetros:

 


O leite, para ser caracterizado como de boa qualidade, deve apresentar: composição físico-química adequada, reduzida contagem de células somáticas (CCS), baixa contagem de bactérias (CBT) e ausência de agentes contaminantes (antibióticos, pesticidas, adição de água e sujidades).

A contagem bacteriana é o número total de bactérias presentes em 1 ml de leite e reflete a qualidade microbiológica do leite. O resultado indica os cuidados de higiene ao obter e manusear o produto. Altas contagens indicam falhas na limpeza dos equipamentos, na higiene da ordenha ou problemas na refrigeração do leite. Já as células somáticas são células de defesa do organismo, com a função de combater infecções e ajudar na reparação da glândula mamária. Altas contagens de células somáticas indicam que a vaca está com infecção (mastite) ou sofreu lesão na glândula mamária.

Fonte: 010 - Embrapa Rondônia Comunicação

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