Domingo, 15 de Outubro de 2017 - 14:34 (Entrevistas )

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BENTO DA MOTA BRAGA: NO TEMPO DO BAZAR E DA SERRARIA SANTO ANTÔNIO

É com prazer que apresento a história do seu Bento da Mota Braga contada por seus filhos e netos.


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Na véspera do dia em que o município de Porto Velho completaria 103 anos, nos reunimos na residência do senhor Jorge Braga em torno de um tambaqui do Vale do Guaporé assado na brasa, para ouvir as histórias de vida, do senhor Bento da Mota Braga.

Seu Bento que vai completar 90 anos no dia 16 de novembro próximo, apesar da ótima saúde, não lembra muito bem do tempo que trabalhou nos seringais do Acre, do Bazar Santo Antônio e das serrarias Santo Antônio, Transamazônica e Ibemalta entre outros empreendimentos. Assim sendo, ouvimos suas histórias, através de seus filhos Jorge e Elvan além do neto George.

É com prazer que apresento a história do seu Bento da Mota Braga contada por seus filhos e netos.

ENTREVISTA

Zk – O senhor é de onde?

Bento - Sou da Boca do Acre, nasci no dia 16 de novembro de 1927. Fui casado com a dona Iacira de Freitas Braga. Sou filho de João Leocádio Braga que veio do Ceará para Boca do Acre em 1890.

Zk – Me disseram que o senhor é excelente cantor. Tem alguma canção na ponta da língua por aí?

Bento – “Vai boiadeiro que a noite já vem/Guarda o teu gado e vai pra junto do teu bem...”. Gosto muito da música do Carlos Galhardo - E o Destino Desfolhou - O nosso amor traduzia/Felicidade e afeição/Suprema glória que um dia/Tive ao alcance da mão/Mas veio um dia o ciúme/E o nosso amor se acabou, ou, ou/Deixando em tudo o perfume/Da saudade que ficou...

Zk – O senhor é considerado pioneiro como criador de peixe em cativeiro, inclusive de tartarugas e tracajás?

Bento – Realmente, tive uma propriedade na Estrada do Areia Branca onde desenvolvi a atividade de aquicultura, com registro no IBDF. Comecei criando tartaruga e tracajá.

Eu era o fiel depositário dos órgãos do governo responsáveis pela preservação das espécies, chegamos a ter em nossa responsabilidade mais de 12 mil quelônios. Na mesma propriedade cheguei a criar pirarucu mais não vingou.

Participação do neto George Alessandro Braga – Secretário da SEPOG:

Zk – George fala alguma coisa sobre teu avô?George Braga – Ele é um pioneiro. Amava muito a vovó, ao ponto de largar tudo que tinha, para tratar de um maldo qual ela foi acometida, foi pro Rio de Janeiro e a internou no sanatório. É um homem que ama muito a família. Seu lema é a honestidade.

Conversa com o Elvan o filho que até hoje trabalha no ramo madeireiro.

Zk – Vocês chegaram a ser perseguidos por trabalhar com a exploração de madeira na época?

Elvan – Madeireiro na época era visto como herói, como empresário bem sucedido. Depois foi que passaram ser visto como bandido devastador etc.

Zk – Você acha que o sistema de manejo funciona?

Elvan – Funciona sim, é mais que correto. Se não tivessem implantado esse sistema, o madeireiro tinha acabado a Amazônia. Era tudo pasto para gado, soja & tal.

Jorge Braga o filho mais velho:

Zk – Conta um pouco da história do teu pai?

Jorge – Papai é filho de cearense, nasceu em Boca do Acre (AM). Saiu de casa com 12 anos de idade.

Zk – Você lembra o ano que vieram para Porto Velho?

Jorge – Eu tinha dez anos de idade, foi em 1960. Meu pai tomava conta de seringal la no Acre e resolveu vir pra Rondônia que segundo ele, era melhor do que onde estávamos. Ele sempre teve o tino de comerciante, comprou umas mercadorias e colocou uma lona na rua Henrique Dias.

Zk – Você lembra os comerciantes da Henrique Dias na época?

Jorge – Entre a José de Alencar e a Presidente Dutra tinha o Tufy Matny e a Padaria do Raposo, do outro lado da Presidente tinha o Banco do Brasil, a Associação Comercial e um terreno sem nenhuma construção que ia até a hoje Rogério Weber.

Zk – O que o seu Bento da Mota Braga vendia na lona?

Jorge – Tinha tudo quanto era bugiganga balde plástico para água, bacia, toalha enfim, naquele tempo, esse estilo de comerciante era chamado de Marreteiro. O negócio ali no chão foi crescendo até que...

Zk – O que aconteceu?

Jorge – Seu Mário Monteiro um empresário que morava no Rio de Janeiro e tinha muita terra aqui, começou a construir naquela área, quatro lojas, pegou amizade com meu pai e certo dia falou: “Bento tu não quer sair aqui do chão pruma loja? - Querer eu quero, mas não posso – “Estou construindo essas quatro lojas e uma é tua, pode escolher”. – Não tenho dinheiro pra pagar! – “Você me paga do jeito que puder”. A primeira loja foi a Casa Manicoré do Eneas Cavalcante, aí vinha o Bazar Santo Antônio de Bento da Mota Braga; a terceira loja era a do Jamil e a última loja era a Sapataria do seu Antônio e dona Isaura. Tem um detalhe, meu pai andava de bicicleta. O certo foi que o negócio cresceu e um dia ele disse: Vou comprar um carro e foi a São Paulo e comprou pick up Willians.

Zk – Nessas alturas o negócio ia de vento em popa?

Jorge – Então ele comprou uma terra onde hoje é a estrada da Coca Cola (Areia Branca), na época era apenas uma picada e então, resolveu abrir uma estrada. Essa estrada foi aberta na foice, no machado e na enxada. Lembro que nessa empreitada estava o Walter Bártolo, João Café que faziam parte de um órgão do governo conhecido como Fomento. Seu Edésio do balneário e o Antônio Tapioquinha também ajudaram muito.

Zk – E como foi que seu Bento se envolveu com serraria?

Jorge – O Banco do Brasil viu que ele estava bem e ofereceu crédito. Como lá no Acre ele havia tido uma serraria manual, conseguiu financiamento e montou a Serraria Santo Antônio que ficava onde hoje é o Caipirão. Foi a primeira grande serraria particular em Porto Velho. Vendeu para o Emil Gorayebe e montou a serraria Transamazônica ali onde hoje fica a garagem da Eucatur na Jorge Teixeira, essa foi em sociedade com o Luiz Tourinho. Depois montou a Ibemalta no Km 8 em frente a AABB na BR 364 sentido Cuiabá.

Zk – O que aconteceu pra ele parar com o ramo madeireiro?

Jorge – Ele ficou muito bem de vida, construiu um edifício na José de Alencar ao lado da Caixa Econômica isso entre os anos de 1978/79, tinha algumas casas, aí veio a ambição.

Zk – Ambição?

Jorge – Era o auge do garimpo de ouro do Madeira e ele entrou no garimpo sem conhecer nada. Nesse tempo estávamos estudando em Belém. E foi tirando da serraria e jogando no garimpo. Resultado, perdeu tudo! Ainda montou um mercado mais também perdeu. Depois disso, se reconciliou com Deus, ficou bem espiritualmente, não tem medo de morrer, vai fazer 90 anos agora em novembro. Hoje é aposentado.

Zk – Fala sobre o amor do seu Bento pela dona Iacira?

Jorge – Ele conheceu a mamãe novinha, lá em Rio Branco (AC). Quando se casaram ele tinha 20 anos e ela 16. O amor deles era tanto, que quando morávamos no seringal “Limeira” ela começou a tossir e foi piorando, ele a levou para Rio Branco eu fiz essa viagem com eles. minha mãe numa maca puxada por burro, porque não tinha estrada, era só a vereda, foram aproximadamente 20 Km e o médico diagnosticou tuberculose. Isso foi em 1953/54. Ele conseguiu levá-la para o Rio de Janeiro num avião da FAB. Ela passou dois anos no sanatório e se curou. No Rio mesmo com mamãe doente ainda tiveram dois filhos. Mamãe foi e é, o amor da vida dele.

Zk – Qual o nome dos irmãos?

Jorge – Eu sou o Jorge, aí vem o Elvan, Aluízio Sérgio (falecido) gêmeo com Acira, Maria Eliana, Maria José, Rita de Cássia e a Maria Arlene. Tem o Francisco Constâncio que é irmão só por parte de pai.

Zk – Para encerrar. E o George secretário de governo que é seu filho?

Jorge – Casei em janeiro de 1971 com a Dulce Gonçalves filha do seu Olinto que foi cozinheiro de vários governadores, desde de Aluízio Ferreira até o Marques Henrique e em outubro do mesmo ano, nasceu o George, menino estudioso meio danadinho porque ninguém quer filho homem quieto. 

Durante a campanha pra governo no 1º mandato, o Dr, Confúcio criou um site no qual solicitava que os eleitores lhes enviassem sugestões para ser implantadas caso fosse eleito e o George enviou várias sugestões, Confúcio gostou e o convidou para ser secretário da SEPOG, cargo que exerce até hoje.

Zk – E você faz o que nos dias de hoje?

Jorge – Sou engenheiro agrônomo aposentado, mas, temos uma cooperativa de agrônomos, técnicos agrícolas, pessoal da zona rural. Da qual sou presidente.

Fonte: Ze Katraca/NewsRondônia

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