Quarta-Feira, 12 de Abril de 2017 - 19:14 (Entrevistas )

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AFONSO LIGÓRIO: O ARTISTA QUE PRECISA SER MAIS VALORIZADO

Com discursos de caráter efusivo, participantes e autoridades denunciaram o histórico negativo de acidentes no trânsito da Capital e em cidades do interior rondoniense como parte de um ‘sistema irresponsável atribuído a condutores’.


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Seu nome está firmado na entrada da Galeria de Artes da Casa da Cultura Ivan Marrocos, porém, a foto foi retirada sem nenhuma explicação. Pra completar, nenhum funcionário da Casa sabe alguma coisa sobre a história do artista Afonso Ligório. Assim sendo, para atender a solicitação do Superintendente da Setur Júlio Olivar que está divulgando Rondônia numa Feira de Turismo em São Paulo, passei praticamente dois dias, correndo atrás de quem sabia sobre a vida do artista. Até que me informaram que na rua D. Pedro II subesquina com a Joaquim Nabuco, onde funciona uma academia de musculação. “Você vai encontrar a sobrinha do Afonso Ligório senhora Terezinha de Jesus Oliveira Macedo, ela sabe tudo da vida dele”. Ao chegar ao endereço fui recebido com a maior gentileza e então fomos direto ao assunto, afinal de contas, o Júlio estava esperando a história em São Paulo.“Tudo dele é parecido, nasceu no dia 04 do 04 de 1934 e faleceu no dia 8 do 08 não lembro direito se em 79 ou 80”.

Aproveitamos a deixa, para também saber sobre a vida de dona Terezinha que foi criada pela mãe de Afonso Ligório e tinha em seu tio artista, a garantia da proteção.“Ele me trouxe nas costas dentro de um jamanxim de Ji-Paraná até Porto Velho a pé”.

A partir de agora, a história do artista plástico que pintou a cúpula da catedral de Porto Velho, fez as pinturas da igreja N.S. de Fátima, o teto da lanchonete J. Lima e muitas outras obras, passa a ser do conhecimento de todos.

ENTREVISTA

Zk – Nossa missão é divulgar a história do Afonso Ligório. O que a senhora sabe a respeito desse artista que empresta seu nome à Galeria de Artes da Casa da Cultura Ivan Marrocos?

Terezinha – Fui criada pela mãe dele Francisca Duarte de Souza. A família dele veio de Areia Branca uma cidade do Rio Grande do Norte. Ela contava que o pai do Afonso morreu quando ele tinha apenas 8 anos de idade e então vieram para a Amazônia. Afonso segundo sua mãe, sempre teve o dom da escultura desde criança, ele nunca teve um mestre pintava por dom.

Zk – Existe alguma obra dele criada naquele tempo?

Terezinha – Acontece que naquele tempo, o material era muito escasso, a gente era pobre. Tinha muito trabalho bonito e como o material não era bom tudo se perdeu com o tempo.

Um dia na Catedral de Porto Velho, uma menina me chamou e disse: “Os padres mandaram passar tinta nas pinturas do Afonso, isso não pode acontecer”. Fui lá olhar e vi.Como as pinturas foram feitas nas paredes que estavam com infiltração, não tinha como salvá-las.

Zk – A senhora sabe a data do nascimento dele?

Terezinha – Por coincidência, no dia 4 de abril, fiz uma ficha e quando coloquei a data me lembrei: Ele nasceu no dia 4 de abril de 1934 se não estou enganada. As datas da vida dele são assim interessantes, veja ele morreu no dia 08.08.1979/80. Fui criada pela mãe dele vivi parte da minha infância junto com ele.

Zk – E a relação dele com a igreja católica?

Terezinha – Ele sempre trabalhou com os padres, veio desde o Ângelo Cerri porém, o principal foi o padre Humberto. Pintou muitas obras, que estão na Catedral, inclusive aquela que está na cúpula da igreja, tem obras na igreja Nossa Senhora de Fátima. O padre Mário gostava muito dele.

Zk – A senhora sabe informar qual foi o último trabalho do artista Afonso Ligório?

Terezinha – Claro que sei, foi a imagem de São João Bosco encomendada pelo pároco da Igreja Catedral de Ji Paraná. Essa escultura ficava na torre da igreja. Me disseram que iam demolir a igreja para construir outra, não sei se nessa outra igreja de São João Bosco, vão colocar a imagem esculpida por ele.

Zk – Como era a vida do artista Afonso Ligório, aonde vocês moraram em Porto Velho?

Terezinha – Como já disse, todo artista tem uma parte de doido. O dia que não estava para trabalhar, saia visitando a casa dos amigos e parentes, era o dia todinho assim, porém, quando estava para pintar, ele sentava, entrava pela noite, amanhecia o dia, pintando sem parar.

 

Ainda bem que a maioria de seus dias foi pintando. Moramos na D. Pedro II aí nosso padastro vendeu e o dinheiro não deu pra comprar outra casa, então fomos morar de aluguel, no Areal na Campos Sales, na 13 de Setembro. O Afonso ainda chegou a construir uma casinha ali na rua Rio de Janeiro, mas, como ele era meio perturbado, metia os pés pelas mãos, vendeu a casa e ninguém sabe o que fez com o dinheiro.

Zk – Ele teve filhos, com quem ele foi casado?

Terezinha – Teve apenas um filho, estava em Goiânia quando soube que esse único filho do Afonso havia morrido. A mulher com quem ele casou e lhe deu esse único filho chamava-se Raimunda Silva Souza. Depois ele teve diversas mulheres (amantes), uma época ele viveu com uma professora que se chamava Elza. O interessante era que apesar de praticamente sua vida artística ter sido feita dentro da igreja católica, ele não era de frequentar missa, novena essas coisas da religião. O negócio dele era pintar os santos e os anjos.

Zk – Quando a família dele veio para Rondônia?

Terezinha – Eles vieram pra cá no tempo que estavam recrutando os Soldados da Borracha. Foi assim: O pai dele faleceu quando ele era muito criança então, o marido da tia irmã da mãe dele, foi recrutado como soldado da Borracha e trouxe toda a família inclusive o Afonso Ligório.

Zk – Ja falamos bastante sobre o Afonso Ligório e a senhora é artista também?

Terezinha – Família de artista sempre passa uma veiazinha. Eu aprendi a pintar com ele. Só pinto paisagem e pássaros. O artista plástico não gosta de pintar e ver seus quadros guardados, minha filha me pediu um quadro e certa vez fui a casa dela e vi meu quadro atrás do guarda-roupa, então disse pra ela: você vende esse quadro pra quem vai pendurar na parede. Quando morávamos no areal, estava com mais ou menos 14 anos, cheguei a sustentar a família com 12 pessoas, pintando azulejo de parede, pintava durante três dias e o restante da semana era vendendo. Depois casei veio os filhos e fui deixando a pintura de lado, de vez em quando lembro e pinto alguma coisa.

Zk – A senhora nasceu em Porto Velho?

Terezinha – Nasci no Amazonas em Coari na época era Seringal Coari. Meu pai quando minha vó veio, ele já estava pela Amazônia, foi das primeiras levas dos Soldados da Borracha. Meu pai que era irmão do Afonso veio parar em Ouro Preto (hoje Ouro Preto D'Oeste) que também era seringal, porém, faleceu muito novo. Meu tio Afonso Ligório também faleceu muito novo, ele estava se a memória não me falha com 47 anos. Meu tio Afonso era muito estragado, bebia e fumava demais.

Zk – O Afonso morreu de que?

Terezinha – Morreu com um tumor (Câncer) no Exófago, não tinha o tratamento que tem hoje, se tivesse, com certeza, ele teria vivido mais um pouquinho. Ele dizia no leito do hospital: “Não deixe me cortar, deixa eu morrer inteiro, não vai ter cura mesmo”. O Dr. Nobel na época tinha uma clínica na Pinheiro Machado, me chamou e disse, que tinha que fazer uma pequena cirurgia para colocar uma sonda para ele se alimentar o Dr. Me disse, se não fizermos isso, a fome vai matar ele antes da doença. Ele não consentia: “Não minha filha, deixa eu morrer inteiro”.

Zk – Como a família recebeu a homenagem ao ver o nome dele ser colocado na Galeria de Artes da Casa da Cultura numa campanha da artista plástica Rita Queiroz?

Terezinha – Eu estive na solenidade juntamente com a Irmã dele que também já faleceu. Quando passo ali pela Carlos Gomes entro pra olhar, Aliás entrava pra olhar aquela fotozinha dele, agora tiraram a foto de lá sem dar nenhuma explicação.

Zk – Quantos filhos a senhora tem?

Terezinha – São quatro filho o Zezinho (José Macedo Lima) que toma conta da Academia, a Maria Auxiliadora Macedo Lima que trabalha na ouvidoria do hospital do câncer. Tem dois em Goiânia a Ângela Maria Macedo Lima e o Ângelo Roberto Macedo Lima.

Zk – Vamos encerra essa conversa! Tem mais alguma coisa sobre o Afonso Ligório por aí?

Terezinha – Tem uma aventura. Eu estava com três anos de idade e meu pai morava no seringal Ouro Preto que hoje é cidade e minha mãe com muita vontade de sair do seringal, - no mato a gente usa um negócio que se chama jamanxim - Minha me colocou dentro do jamanchim colocou nas costas do Tio Afonso e ele me trouxe de Ji Parana até Porto Velho. Naquele tempo não existia estrada era só picada. Depois de alguns anos, com os ônibus já trafegando no trecho falei pra ele: Tio sempre pensei que o senhor era meio doido, agora sei que o senhor não meio doido, é doido total.

Zk – Parece que houve um erro na certidão de óbito é verdade?

Terezinha – Pois é quando saiu o atestado de óbito não saiu Afonso Ligório, saiu Afonso Libário. Tentei tirar isso e não consegui. Como ele coitado não tinha deixado bens nem nada, ficou por isso mesmo. Ele está enterrado no cemitério de Santo Antônio na Ala 34, sepultura 35. Tem o túmulo aguardando a visita de seus admiradores. Obrigada!

Fonte: NewsRondônia

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