Segunda-Feira, 15 de Junho de 2015 - 12:22 (Colaboradores)

ABANDONADAS, FAMÍLIAS DE ‘JACY-PARANÁ’ BUSCAM APOIO DO MINISTÉRIO PÚBLICO

O fim de muitas frentes de trabalho fez a vida dos moradores de municípios e distritos atingidos pelas obras bilionárias a habitar numa espécie de arapuca de incerteza.


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Com a vinda de milhares de pessoas em busca de ganhar um punhado de dinheiro com a construção das usinas hidrelétricas do Rio Madeira, em Rondônia. O fim de muitas frentes de trabalho fez a vida dos moradores de municípios e distritos atingidos pelas obras bilionárias a habitar numa espécie de arapuca de incerteza.

No distrito de Jacy-Paraná que mais parece um vilarejo desolado a cada dia o local perde as suas características, originárias da época da construção da Estrada de Ferro Madeira Mamoré. Os benefícios anunciados pelas gigantescas construções hídricas pouco foram feitos para ‘compensar’ a vida dos cidadãos daquela localidade. E o que por sorte virou projeto, até hoje não foi entregue de fato a quem precisa, denunciando mais uma vez a omissão do poder público, com os afetados pelas obras das duas usinas.

Em Jacy-Paraná nem a grafia escapou do efeito migratório. O ‘y’ foi alterado para o ‘i’. O resultado da falta de um plano eficaz do governo e município garantindo a segurança dos moradores ‘jacyparanáenses’ é traduzido por fatores que só acontecem em países que estão abaixo da linha da pobreza, no caso dos africanos.

O número de abandonados é altíssimo, como também de crianças viciadas em drogas.  São os filhos e filhas de mães solteiras com um futuro que não se distancia aos dos próprios pais, restando a esses ‘pequenos órfãos’ de pais vivos remarem contra uma possível vida miserável que lhes reserva o local.

Jacy-Paraná também passa por uma provação quando o assunto é o vírus HIV. Muitos doentes mesmo sabendo do diagnóstico vieram a óbito. E como se não bastassem os cidadãos vivem o temor da invasão do rio, com o fechamento das comportas de Santo Antônio. A reportagem é baseada em imagens, depoimentos de moradores e documentos enviados as autoridades dando origem à série: Os esquecidos, escrita pelo jornalista Emerson Barbosa e fotos de Raymundo Brito, que você vai poder conferir em três partes no site News Rondônia e ainda na Rede TV Rondônia.

De vilarejo pacato o distrito de Jacy-Paraná passou de uma hora para outra a um lugar abarrotado de pessoas vindas de diversos cantos do brasil. Dos quatro mil habitantes o distrito passou a contar com 16 mil. E da mesma forma como ocorreu com porto velho não houve preocupação por parte dos executivos municipal e estadual em planejar um projeto eficaz que assegurasse a vida dos moradores desse local. E o resultado é a incerteza que hoje habita a mente deles.

A conta gotas o governo estadual e o município de porto velho realizaram juntos projetos com teor compensatórios que em seguida enviados aos consórcios pelas suas secretarias, solicitando repasse de verba para determinadas obras, más, nada como deveria ter sido feito em se tratando de empreendimentos de grande porte determinantes na vida dos moradores. O método de planejamento considerado primário pela população esconde por trás uma omissão em se tratando de construções alardeadas dez anos antes.  O distrito de Jacy apresenta atualmente características e condições subumanas.

Muitas das ruas ainda são de chão batido. E onde existe asfalto os buracos denunciam a precariedade do material usado nas obras pelas empresas contratadas na gestão do ex-prefeito Roberto Sobrinho, afastado do cargo por suspeita de desvios de recurso público. O esgoto das casas é jogado a céu aberto e agora no verão que mais parece inverno as constantes chuvas fazem de Jacy-Paraná um cenário cada vez mais de abandono. 

Uma das obras dentro do projeto de compensação é está Unidade de Pronto Atendimento (UPA) que há muito deveria está atendendo a população. Concluída há dois anos, até agora não passa de um elefante branco. 

Na placa a obra começou em 2012 com prazo de 180 dias para entrega. Segundo os moradores as promessas das inaugurações foram tantas que eles perderam as contas. A demora na entrega da unidade tem ocasionado com que os serviços de média complexidade sejam realizados no único posto de saúde do distrito fugindo totalmente do que é especificado para construções de UPA’S, pelo governo federal. 

Procuramos o responsável pela saúde do município. De acordo com ele a unidade de Jacy-Paraná construída na gestão de Roberto sobrinho foi recebida pela atual administração cheia de irregularidades. E tanto tempo de demora na entrega que Jacy hoje não se qualifica mais para receber uma UPA do porte que foi erguida no vilarejo.

Outro problema grave em Jacy-Paraná acontece com os moradores do Parque Buritis, um conjunto de casas construídas pela usina, Santo Antônio, com a subida das águas nos locais onde essas pessoas moravam antes. O problema é que a área escolhida para a realocação das famílias está encima de um pântano e a própria umidade vem fazendo as residências apresentarem rachaduras e soltar as cerâmicas, com a infiltração. Em busca de uma alternativa para solucionar o problema os moradores procuraram o ministério público. 

O rio que leva o nome do local se transformou num imenso lago com o fechamento das comportas de Santo Antônio. Em Jacy, o risco não é a erosão como ocorre no bairro triângulo em Porto Velho, mas, da água que já inundou metade do distrito subir a níveis ainda maiores, alagando definitivamente Jacy-Paraná. Um risco que não é descartado e que tem deixando á população apavorada com a possibilidade.

Algumas das obras feitas no distrito foram impostas pelo ministério público federal e o ministério público estadual, após a invasão das águas do rio Jacy. As casas que ficavam nesta região foram demolidas e as famílias retiradas para outros locais que o consórcio achou mais adequado. A centenária igrejinha foi posta abaixo, e da lembrança dela só restou à guarita que ficava a imagem de uma santa.

A velha Estação da Madeira Mamoré na mesma rua continua abandonada. A antiga praia onde ocorriam os festivais de verão agora é um banco de areia artificial que pouco chama a atenção dos locais. A pracinha construída como forma de amenizar os danos está tomada pelo mato, assim como o parque natural. “Jacy-Paraná é um lugar que praticamente acabou. O efeito do progresso que o ex-prefeito e o governador esse atual (Confúcio Moura) gritavam todas as vezes que vinham aqui não passou de ilusão pra população já sofrida. No lugar das coisas boas veio ás desgraças. Tudo que não presta estacionou em Jacy-Paraná. Drogas, doenças, criminalidade e prostituição.”, declara á moradora Hélia de Jesus.

Só pra você ter idéia essa a ponte que liga o distrito de Jacy-Paraná com o restante do país pela rodovia BR-364. Apesar das constantes chuvas nós estamos entrando no período de verão na Amazônia,/más, quem não conhece a região diz o contrário: centímetros separam rio do concreto.

Nada escapou da migração desordenada de Jacy-Paraná. A influência de pessoas de fora no vilarejo pelas obras das usinas tem sido vista como negativa. O ‘y’ do nome Jacy recebeu alteração e foi substituído pelo ‘i’ e sem o hífen que separa as palavras do dialeto indígena que significa pedacinho da lua.

E amanha você vai conferir como a migração de milhares de pessoas fez de Jacy-Paraná um ‘entreposto’ para o aumento da marginalização e das doenças como a Aids. Vamos mostrar ainda a vida de algumas profissionais do sexo que ganharam rios de dinheiro. E de outras que perderam tudo e agora buscam alternativas de sobrevivência. Com o recuo de algumas frentes de trabalho o comércio enfraqueceu e muitos prostíbulos fecharam as portas partindo rumo à usina de belo monte, no Pará. Não perca: é amanhã na segunda parte da série: OS ESQUECIDOS, na reportagem de Emerson Barbosa, com imagens de Raymundo Brito.

Fonte: NEWSRONDONIA

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